Nunca o mundo teve tantos jovens quanto agora. Levantamento inédito do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), a ser divulgado nesta terça-feira (18), mostra que eles são 1,8 bilhão de pessoas. Engrenagem do futuro, 60% da juventude mundial está condenada por estar sem acesso à educação e, por tabela, ao mercado de trabalho. Pior: mais de 500 milhões lutam para viver com menos de US$ 2 por dia, abaixo portanto da linha de pobreza considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O Brasil figura no sétimo lugar no ranking dos países com maior número de jovens: 51 milhões. As primeiras posições são ocupadas por Índia (356 milhões) e China (269 milhões). Segundo o relatório, os entraves educacionais e culturais vividos pelos jovens têm “profundo efeito” sobre as perspectivas globais. Com investimentos certos, esse público pode representar uma oportunidade ímpar ao “crescimento econômico rápido e à estabilidade”.

Assim como diversos jovens brasileiros, o mineiro Douglas Ferreira de Almeida, 18 anos, abandonou os estudos há quatro anos para ajudar a família com os gastos de casa. Natural de Arinos (MG), ele cursou até o primeiro ano do ensino fundamental. “Vim para Brasília e comecei a trabalhar. Sem o apoio dos meus parentes fica difícil voltar a estudar. Tenho vontade de voltar para a sala de aula, mas é complicado conciliar as duas coisas”, suspirou.

A pesquisa aponta a educação de qualidade como a maior prioridade — tanto para países ricos quanto para países pobres — em uma agenda de desenvolvimento mundial para os próximos 15 anos. Outras iniciativas estratégicas, acrescenta o texto, são necessárias para que esses jovens se tornem adultos em um mundo com melhores indicadores econômicos e sociais. Entre elas estão saúde, maior presença feminina nas áreas de decisão e “vida livre de violência e discriminação”.

O Unfpa considera que países como o Brasil e o México têm dado passos importantes nesse sentido graças à transferência de renda. As experiências nos dois países têm dado credibilidade a esse tipo de iniciativa, à medida que os programas sociais conseguem “alterar uma variedade de comportamentos” como, por exemplo, a redução do casamento e gravidez na adolescência. Nos países em desenvolvimento, uma em três garotas se casa antes dos 18 anos, “ameaçando sua saúde, educação e futuro”. Esse tipo de comportamento tem impacto direto na economia.

Mudanças

Para o professor de economia da probreza da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Flávio Comim, além de desperdiçar uma oportunidade de crescimento, caso os países não aproveitem o momento correto para dar voz à juventude, a situação atual dos jovens pode se virar uma bomba-relógio. Caso persistam os indicadores atuais, haverá cada vez mais restrição de mão de obra e um número maior de profissionais de baixa qualidade estará presentes no mercado. Além disso, há o risco do aumento do tráfico e da violência.

O especialista explicou que o desenvolvimento cognitivo das crianças se estabiliza aos 10 anos e a capacidade de falar um idioma estrangeiro com grande facilidade diminui aos 12. O professor detalhou que o Brasil investe em programas nos quais o jovem está no fim do processo de formação, e a eficiência do gasto é baixo. “O que resolve é uma boa formação na educação básica. Dados apontam que entre crianças com até oito anos, 70% delas não sabem matemática. No Brasil, as crianças passam quatro horas em sala de aula e só em uma há aprendizado efetivo. É preciso mudar essa realidade”, destacou.