O ministro da Agricultura, Neri Geller, disse ontem ter "a consciência tranquila" em relação às investigações da Polícia Federal sobre um esquema de grilagem de terras destinadas à reforma agrária em Mato Grosso. Na Operação "Terra Prometida", desencadeada na última quinta-feira, a PF prendeu dois irmãos do ministro entre mais de 50 pessoas que tiveram prisão decretada pela Justiça Federal do Mato Grosso.
- Eu estou muito tranquilo. Estou com a consciência tranquila. Não estou sendo investigado, mas mesmo se estivesse, não teria problema algum - disse o ministro ontem, em entrevista pelo telefone ao site G1.
Testemunhas apontaram o envolvimento do ministro na apropriação de lotes nos municípios de Itanhangá e Lucas do Rio Verde, a 450 quilômetros de Cuiabá, onde familiares do ministro têm fazendas. O posseiro Adair dos Santos disse ao Ministério Público Federal, em agosto, que trabalhou para o ministro em dois lotes do assentamento Itanhangá cortando madeira. Disse ainda que Geller ia ao local pessoalmente e tinha "laranjas" em lotes no assentamento.
Geller afirmou que nunca foi proprietário de terras na região, apesar de dois de seus dez irmãos serem fazendeiros ali. Presos, os pecuaristas Odair e Milton Geller, irmãos do ministro, negaram participação no esquema.
Segundo as investigações, um grupo de latifundiários estaria pressionando assentados a vender suas terras por preços abaixo do valor de mercado. Quem não aceitasse sofreria ameaças de morte ou de expulsão do local.
vendas seriam legais
Ainda segundo o G1, o ministro da Agricultura afirmou que as primeiras pessoas que ocuparam a área do assentamento que é o alvo da investigação da PF chegaram à região por volta de 1994. O grupo original seria de 1.480 assentados, dos quais mail de mil teriam decidido deixar o local, tendo transferido a titularidade dos terrenos em negociações de boa-fé. Essas pessoas estariam sendo penalizadas agora, segundo o ministro, pelo que classificou de "falha na legislação". Ele disse que a maioria dos atuais ocupantes das terras é de trabalhadores rurais, pessoas humildes:
- Ali estão muitas pessoas de bem que estão sendo penalizadas por um sistema. Mais de 80% das pessoas que moram lá são de bem. Ali houve rotação de pessoas, mas se houver algum dolo, é muito pouco.
A PF e o MPF de Mato Grosso não investigam o ministro. Trechos de depoimentos que citam Geller, que tem foro privilegiado, foram enviados ao Supremo Tribunal Federal pelo juiz federal Fábio Fiorenza. Em despacho, o magistrado indicou também a possibilidade de envolvimento de deputados estaduais e prefeitos mato-grossenses no esquema com o uso de "laranjas".