A Petrobrás admitiu, em anúncio publicado nas edições de ontem e de hoje de jornais brasileiros, que a Operação Lava Jato desencadeada pela Polícia Federal poderá impactar os resultados financeiros da estatal.
Em um trecho do anúncio é informado que, se as declarações do ex-diretor de Abastecimento da empresa Paulo Roberto Costa à Justiça Federal forem verdadeiras, elas “podem impactar potencialmente as demonstrações contábeis da companhia”. Na prática, a empresa dá a entender que após o resultados das investigações o balanço terá de ser modificado.
Depois de perder o prazo para a divulgação do balanço financeiro referente ao terceiro trimestre, que venceu na última sexta-feira, a Petrobrás publicou o anúncio em jornais com uma espécie de satisfação à opinião pública. Pressionada pelo mercado financeiro, que aguarda seus dados contábeis, e pelas investigações da PF, que expõem a dimensão e o impacto da corrupção no caixa da empresa, a estatal optou por divulgar apenas as informações operacionais positivas – o único aspecto que ainda mantém a companhia de pé.
Além do anúncio, a Petrobrás aproveitará a conferência de apresentação de resultados trimestrais, nesta segunda-feira, para fazer uma espécie de desagravo sobre a crise institucional que abateu a companhia nas últimas semanas.
Na pauta, está uma nova tentativa de explicar as razões que levaram a auditoria externa a não validar seus indicadores financeiros, além das conclusões de sindicâncias internas sobre as evidências de corrupção em seus contratos. A apresentação destacará a alta de 9% da produção no trimestre, na comparação com 2013 - a única estratégia possível para a estatal resgatar a credibilidade junto ao mercado e à opinião pública.
Caberá à diretoria executiva dar as explicações aguardadas – a presença da presidente Graça Foster não estava confirmada até à noite de ontem. A executiva evita discursos e entrevistas desde junho e sequer assina o anúncio publicado nos jornais sobre as medidas adotadas durante a crise. Não é uma posição confortável, sobretudo diante da exposição pública da intimidade de alguns de seus ex-colegas com a corrupção.
Desvios. Após oito meses, a estatal anunciou aos conselheiros, em reunião na última sexta-feira, que suas auditorias internas confirmaram “desvios de comportamento e quebra de regras” nas três principais obras investigadas pela Operação Lava Jato. Não foram citados os responsáveis.
A Petrobrás classificou como “irregularidades no cadastro” as apurações sobre duas empreiteiras envolvidas no esquema, a Sanko Sider e a Toyo Setal. Executivos de ambas detalharam à Justiça Federal, após acordo de delação premiada, pagamentos de propina que chegavam a US$ 8 milhões somente na Diretoria Internacional.
Sob alegação de que precisaria analisar melhor as auditorias e o impacto das denúncias sobre as finanças da empresa, a PricewaterhouseCoopers (PwC) se recusou a validar o balanço trimestral da Petrobrás, na última quinta-feira. A estatal perdeu o prazo legal para apresentação dos resultados e poderá ser penalizada pelos órgãos reguladores.
Após três confusos comunicados, a diretoria decidiu manter a teleconferência programada para hoje.
Diretoria vai ter de explicar como nunca detectou desvio bilionário
A teleconferência sobre os resultados trimestrais da Petrobrás, marcada para hoje, deverá ser comandada por Almir Barbassa, diretor financeiro desde 2006. Ele tem a missão de justificar aos investidores como nunca detectou o desvio de cifras bilionárias da companhia. Há apreensão sobre o registro de uma "baixa contábil" no balanço financeiro do trimestre, quando ele finalmente for apresentado, em dezembro. Só então o mercado saberá o impacto da alta do dólar sobre o endividamento da estatal, hoje acima de US$ 100 bilhões.
Quem também terá papel central na apresentação, e no futuro da companhia, é o diretor de exploração e produção, José Formigli. A área operacional é o único pilar que ainda sustenta a Petrobrás. Entre julho e setembro, a companhia atingiu média de 2,09 milhões de barris produzidos por dia, alta de 5% ante o trimestre anterior. A produção de gás subiu 7%.
A meta da companhia é ampliar em 7,5% ante 2013 e, apesar da expansão contínua nos últimos nove meses, nada está garantido. São necessários mais 287 mil barris de óleo por dia para alcançar o objetivo. Até dezembro, a estatal ainda receberá mais uma plataforma. Outras quatro foram conectadas desde janeiro e ainda podem ampliar a capacidade de produção, com novos poços.
A melhora vem, sobretudo, do pré-sal. No dia 28 de outubro, foram registrados 640 mil barris por dia, e os primeiros testes nas áreas de Libra e Tartaruga Verde darão fôlego até o final do ano.
Outro ponto positivo do balanço operacional é a alta de 4% na produção de derivados, em relação a 2013. A carga processada chegou a 2,138 milhões de bpd. Segundo o comunicado, a estatal está utilizando 100% da capacidade das refinarias, o que preocupa entidades sindicais. O parque antigo dá sinais de esgotamento, mesmo com recentes obras de melhorias realizadas - os contratos dessas obras foram os alvos do esquema de desvios na estatal.
O resultado reforça a pressão para o início da produção na Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco. A previsão era a primeira semana de novembro, mas a companhia não entregou todos os documentos para autorização da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP). Mais um sinal da "paralisia" em tempos de crise, como relatam funcionários. A agência, agora, analisa a papelada.