BRASÍLIA

O PT tenta aproveitar a mobilização de sua militância, de movimentos sociais, da juventude e de partidos que não faziam parte de sua coligação, como o PSOL, durante o segundo turno da eleição, não só para dar sustentação ao segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas também para tentar impor uma agenda ao governo e ao Congresso, como regulação da mídia, fim do fator previdenciário e redução da jornada de trabalho para 40 horas sem redução de salários. A polarização com o PSDB e a ameaça do "retrocesso conservador" servirão de motor para a tentativa de formar uma "frente de esquerda".

Diante das dificuldades no Congresso, tanto por causa de uma base aliada infiel como também por uma oposição mais qualificada no Senado a partir do ano que vem, com expoentes como José Serra (PSDB-SP) e Tasso Jereissati (PSDB-CE), os petistas buscam a "governabilidade social".

- Não podemos ficar presos à pauta que a oposição tenta impor, a pauta dos derrotados. Queremos discutir a pauta de quem ganhou a eleição, dialogar com os movimentos sociais. Queremos fazer um segundo mandato mais ativo - disse Jorge Coelho, um dos vice-presidentes do PT.

O partido quer usar a mobilização de movimentos sociais organizados - que levaram 10 mil pessoas às ruas semana passada, em São Paulo - para pressionar o Congresso a aprovar propostas como a realização de um plebiscito sobre reforma política e a regulação da mídia, que não reúnem maioria nem na Câmara nem no Senado. A estratégia é repetir uma fórmula que se mostrou bem-sucedida na Bolívia.

- O Evo Morales (presidente da Bolívia) encaminhou uma proposta de Assembleia Constituinte, e o Congresso não tocou no assunto. Foi convocada, então, uma grande massa popular, e o Congresso aprovou - compara Joaquim Soriano, um dos diretores da Fundação Perseu Abramo, do PT.

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Redução da jornada de trabalho é outro tema

BRASÍLIA

O PT também resolveu encampar temas como a redução da jornada de trabalho, que faz parte da pauta da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O governo é contra e argumenta que isso reduziria a competitividade da indústria brasileira no exterior. O líder do partido no Senado, Humberto Costa (PE), é um dos que defendem o diálogo com a sociedade para compensar as dificuldades de governabilidade. Em tese, o governo tem maioria no Congresso, mas, na prática, precisa negociar com sua base, principalmente com o PMDB, a cada votação.

- No Senado, encheu a galeria e gritou, aprova. A sociedade também ajuda a quebrar esse presidencialismo de coalizão. Precisamos trabalhar uma visão de governabilidade mais ampla - disse Costa, no dia em que a Casa, com galerias lotadas, aprovou medida provisória concedendo reajuste a policiais federais e peritos agrários.

reaproximação com a base

A necessidade de reaproximação do PT com sua base esteve presente em reunião do ex-presidente Lula com senadores do PT, dia 6. O ex-presidente está preocupado especialmente com o afastamento do partido do movimento sindical.

- Ele (Lula) acha que temos que retomar a aproximação com movimentos sociais e populares, que não podemos nos esquecer de onde viemos - disse um senador que esteve no encontro.

O PT tenta recuperar essa interlocução com a sociedade para compensar sua perda de força institucional, já que teve sua bancada na Câmara reduzida e ficou do mesmo tamanho no Senado. Em 2010, o PT elegeu 86 deputados e atualmente está com 88. Neste ano, elegeu 70. Mesmo assim manteve-se como a maior bancada da Câmara.

- O PT não só diminuiu de tamanho como perdeu interlocução na sociedade - disse o deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

A luz amarela acendeu nas manifestações de junho do ano passado, quando ficou evidente o distanciamento entre o partido e as ruas depois de 12 anos no comando do governo federal.

Em sua primeira reunião depois da reeleição de Dilma, a Executiva Nacional do PT divulgou resolução na qual afirma que, para a presidente fazer um segundo mandato superior ao primeiro será necessário desencadear amplo processo de mobilização e organização social.

O partido quer transformar a posse de Dilma, em 1º de janeiro, em uma grande festa popular. A meta do PT é levar 100 mil pessoas às ruas de Brasília para mostrar força no início do segundo mandato.