A recente elevação da taxa básica (Selic), de 11% para 11,25% ao ano, deixa o Brasil na contramão do mundo, junto da Rússia. Os dois países são os únicos a remar contra uma tendência global de corte ou manutenção dos juros. Em um momento de cautela, em que a maioria das nações busca saídas para retomar o crescimento interno e estimular investimentos via taxas mais baixas, os dois gigantes emergentes tentam trazer as economias para os trilhos do crescimento.

Especialistas do Itaú Unibanco elaboraram um estudo com base nas decisões de bancos centrais ao redor do mundo, em outubro. O relatório apontou que dos 22 países e regiões geopolíticas monitoradas pela instituição financeira — que incluem Zona do Euro e Reino Unido — 16 mantiveram estáveis a juros básicas; quatro — Chile, Polônia, Coreia do Sul e Suécia — reduziram a taxa; e apenas dois, Brasil e Rússia, elevaram os juros.

Não se tratou de mera coincidência, apontou o professor da Columbia University, em Nova York, Marcos Troyjo. “Em ambos os países, a presença do Estado na economia é muito grande”, disse o especialista em Nações Emergentes, que atualmente dirige o Centro de Estudos sobre Brasil, Rússia, Índia e China (BRICLab). “Os motivos da elevação nos dois países passam, necessariamente, pela queda nas receitas governamentais sem a efetiva contrapartida de um forte ajuste nas despesas com gastos”, emendou.

A falta de uma política fiscal austera contribui para jogar lenha na fogueira da inflação e obrigou o Banco Central brasileiro a elevar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual há duas semanas. Além de surpreendente, a decisão também foi dividida. Cinco diretores do Comitê de Política Monetária (Copom) optaram por aumentar a taxa de 11% para 11,25% ao ano, ao passo que três votaram pela estabilidade.

Na Rússia, a surpresa ainda foi maior e o ajuste bem mais severo nas condições de financiamento interno. Enquanto os analistas apostavam numa elevação da taxa básica de 0,5 ponto percentual, o banco central daquele país anunciava um ajuste três vezes maior, de 1,5 ponto. O país enfrenta problemas geopolíticos, sanções comerciais e perda de receitas devido à forte queda do preço do petróleo, afetando drasticamente a pauta exportadora. “É um país que está sofrendo as mais pesadas sanções desde o fim da Guerra Fria”, disse Troyjo.

O governo brasileiro, porém, não considera que ambas as nações estejam na contramão do restante do mundo. Conforme frisou um membro da equipe econômica, nos últimos 12 meses, sete países também subiram os juros básicos. São os casos de Turquia, Nova Zelândia, Colômbia, África do Sul, Indonésia e Filipinas, economias onde a política monetária é guiada pelo sistema de metas de inflação, assim como o Brasil. 

Entre as economias que não seguem o sistema de metas, como a Rússia, também houve alta de juros na Índia, emendou o interlocutor do governo. “Nenhum desses países, no entanto, parece ter iniciado um novo ciclo de política monetária, como o Brasil”, reforçou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Andar de baixo
Quando o assunto é o desempenho econômico, Brasil e Rússia se revezam no andar de baixo entre países do Brics — grupo de nações emergentes do qual também fazem parte a China, a Índia e a África do Sul. A projeção mais recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que o Brasil cresça apenas 0,3% em 2014, resultado melhor somente do que o esperado para a Rússia, cuja alta do Produto Interno Bruto (PIB) é estimada em 0,2%. É uma situação bem diferente do restante do grupo. Mesmo a África do Sul, que também tem enfrentado problemas este ano, deverá crescer 1,4%, de acordo com estimativas do organismo internacional. Enquanto isso, no andar de cima do Brics, a economia chinesa avançará 7,4% este ano, seguida pela indiana, com alta de 5,6%.

A sucessão de más notícias de Brasil e Rússia levaram a revista inglesa The Economist a classificar as duas potências como “a dupla menos confiável dos seis sob suspeita”, numa matéria em que aponta as dificuldades de outras nações emergentes que também têm enfrentado problemas econômicos, entre elas, Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul.

Em comum, esses países têm deficits crescentes nas contas externas, além das públicas desarranjadas. A consequência, diz o professor da Universidade de São Paulo (USP) Simão Davi Silber, é uma política fiscal que “atrapalha o crescimento e produz inflação”. “O governo implementou uma política macroeconômica equivocada que resultou na alta da inflação, e, consequentemente, numa elevação dos juros a reboque. Nós sabíamos no que ia dar. A fatura chegou”, emendou. 

Rússia derruba banda cambial
Depois de amargar uma queda de 30% do rublo em relação ao dólar este ano, devido à redução do preço do petróleo e às sanções do Ocidente por conta da crise com a Ucrânia, o banco central da Rússia decidiu abandonar o sistema de banda cambial no país. A partir do próximo ano, a moeda russa poderá flutuar livremente, ao contrário do que ocorre hoje, quando é mantida em uma banda de negociação de nove rublos contra uma cesta dólar-euro. A presidente do banco, Elvira Nabiullina, disse ontem que o banco limitaria temporariamente a quantidade de liquidez da divisa que proporciona aos bancos russos por causa do que chamou de operações especulativas contra o rublo. O BC informou em comunicado, no entanto, que intervirá no mercado de câmbio se avaliar que há uma ameaça para a estabilidade financeira do país.

 

 

Crédito ainda mais caro

Quem pretende pegar empréstimo para adquirir um produto ou até mesmo quitar débitos em atraso precisa pensar bem e analisar se realmente a compra é necessária e se o juros do financiamento são menores do que da dívida já contraída. Dados divulgados ontem pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que a taxa de juros para pessoas físicas voltou a subir em outubro e, segundo o diretor executivo da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, ainda não refletiram a última alta da Selic de 11% para 11,25%.

Os juros médios das operações de crédito para pessoa física passaram de 6,06% em setembro para 6,08% em outubro, o que elevou a taxa anual de 102,59% para 103,05% em um mês. Das seis linhas de financiamento pesquisadas pela associação, apenas o rotativo se manteve estável. As outras cinco — juros do comércio, cheque especial, CDC-financiamento de automóveis, empréstimo pessoal em bancos e empréstimo pessoal nas financeiras — registraram aumento. 

Cheque
O uso do cheque especial ficou ainda mais caro. A taxa anual pulou para 166,17% em outubro, a maior desde janeiro de 2004, quando atingiu 166,46%. O juro mensal passou de 8,48% em setembro para 8,5% no em outubro. Já a do cartão de crédito, mesmo ficando estável, em 10,78% ao mês (241,61% ao ano), é a maior desde março de 2000, quando registrou 10,89% ao mês e 245,71% ao ano. 

Segundo Oliveira, a razão para o reajuste de outubro foi a piora do cenário de crédito, com inflação alta, baixo crescimento econômico e temor do reflexo disso no emprego e na renda, e consequentemente na inadimplência. “Os bancos têm a informação no dia a dia e se percebem que o cenário econômico está degringolando, se antecipam. É um mal necessário, em que o risco de ficar sem receber é compensado”, afirmou.

De acordo com o diretor da Anefac, o consumidor deve ter muito cuidado e fazer muita pesquisa na hora do financiamento. “E, se for possível, pagar no prazo mais curto possível.” Ele ainda aconselha a adiar as compras com financiamento de alto valor como um carro ou uma casa. “Quando você faz um financiamento de 30 anos, a taxa contratada vigorará até o fim. Portanto, é melhor esperar cair antes de assumir qualquer compromisso”, recomendou.

 

Calote sobe em outubro

Endividado e com o orçamento corroído pela inflação e pelos elevados juros, o brasileiro continua a ter dificuldades para honrar com os compromissos. O número de consumidores inadimplentes, segundo dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), cresceu 1,26% em outubro em relação a setembro, e 3,95% na comparação com o mesmo mês de 2013. Ao todo, são 55 milhões de CPFs negativados em todo o país, o que representa que mais de um quarto da população está com parcelamentos em atraso.

O volume de devedores com tempo de atraso no pagamento de até 90 dias subiu 8,33% em relação ao mesmo período de 2013, bem acima da média, de 3,95%. O fator mais preocupante, segundo a economita do SPC Brasil Marcela Kawauti, entretanto, continua sendo os débitos de três a cinco anos, que registraram evolução de 7,77%. “Quando essas dívidas são muito grandes, as pessoas as entendem como impagáveis e acabam deixando de lado, não indo atrás para regularizar as pendências”, explicou. 

Idosos
Por faixa etária, os idosos são os campeões de calote. Entre o público de 65 a 84 anos, a alta dos inadimplentes foi de 7,18%, enquanto a parcela de 85 a 94 anos foi de 10,53%, na comparação anual. Entre os jovens, de 18 e 24 anos, porém, houve queda de 8,04%. “Os mais jovens estão adiando a entrada no mercado de trabalho e os mais velhos estão aprendendo a lidar com novos instrumentos financeiros, consumindo mais e se endividando mais”, afirmou a economista do SPC Brasil.