Doze horas separam o fuso horário de Brasília do de Brisbane, na Austrália, onde acontece a reunião de cúpula dos países do G20. Era cerca de meia-noite de sexta-feira por lá quando o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, telefonou para o Brasil e autorizou uma nova ofensiva contra a disparada do dólar. Para segurar a alta da divisa, o BC anunciou que vai elevar significativamente a rolagem de contratos de câmbio a partir de segunda-feira. Em instantes, a moeda norte-americana que avançava acima de R$ 2,63 recuou para R$ 2,60 - ainda assim, no maior patamar desde 2005.
Munido de um computador ligado a um terminal eletrônico, que mostrava as cotações da bolsa e do câmbio nos mercados brasileiros, Tombini acompanhou toda a preparação da estratégia. A presidente Dilma Rousseff, que também está na Austrália para a reunião do G20, foi avisada e consentiu a medida. A artilharia do BC contra o dólar, no entanto, não deve parar por aí. Daqui a três semanas, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para traçar o rumo da taxa básica de juros no Brasil. Em setembro, em decisão dividida, o colegiado elevou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 11,25% ao ano. O consenso no mercado financeiro aponta para uma nova dose de 0,25 ponto. Isso, se o dólar não avançar ainda mais, a ponto de obrigar o BC a ter que dobrar a intensidade do ajuste, elevando a Selic em 0,5 ponto.
Tombini tem motivos de sobra para se preocupar com o comportamento da moeda norte-americana. Qualquer avanço da divisa significa uma pressão adicional sobre a já elevada inflação brasileira. Nos cálculos do BC, se persistir por 12 meses, uma alta de 10% do dólar produz impacto de 0,5 ponto percentual no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que já ultrapassou o centro da meta, de 4,5%, acumulando alta de 6,59% até outubro.
Gastos
"Se a divisa continuar subindo, como tudo indica, isso vai contribuir para elevar o tom da discussão em torno de um ajuste ainda mais forte nos juros", observou o analista de uma grande instituição financeira. "Agora, se o BC vai fazer isso ou não, dependerá não só do patamar do dólar, mas da trajetória", emendou. O economista acredita que, mesmo que a moeda norte-americana avance para R$ 2,70, isso não necessariamente obrigaria o BC a dobrar a elevação da Selic. "Mas, se a divisa subir acima desse nível e continuar com tendência de alta, talvez o BC tenha que aumentar a dose dos juros, partindo para um 0,5 ponto", assinalou.
Os especialistas ressaltam, porém, que só o aperto da política monetária pode não ser suficiente para conter a inflação. Seria necessário também um forte ajuste nas contas públicas para reduzir a pressão dos gastos sobre a a economia. É por isso que os próximos passos do Copom dependem de quem Dilma escolher para suceder Guido Mantega no Ministério da Fazenda.
"A forte pressão do câmbio está refletindo a indefinição da nova equipe econômica, que deixa o mercado desorientado", disse o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. Para ele, no entanto, é preciso uma série de ajustes para que o país não mergulhe numa crise ainda maior que a atual. E, enquanto não houver uma definição sobre a política que será adotada para reverter o quadro, haverá ainda muita oscilação no câmbio.