Com a ida de Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento, a presidente Dilma Rousseff deve acomodar a atual chefe da pasta no Palácio do Planalto. Miriam Belchior pode voltar para a assessoria especial da Presidência da República, posto que ocupou no governo Lula entre janeiro de 2003 e junho de 2004, ou ser alçada ao cargo de secretária executiva da Casa Civil. Em qualquer uma das vagas, ela levará a tiracolo a responsabilidade de monitorar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). 

No Ministério da Fazenda, as sondagens para o segundo escalão também começaram. Uma das candidatas à vaga de secretária executiva ou ao Tesouro Nacional é Eduarda La Roque, atual presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), da Prefeitura do Rio de Janeiro. Doutora em economia pela PUC-RJ, ela foi indicada por Joaquim Levy para o cargo de secretária de Fazenda da capital fluminense. Na ocasião, ele ocupava o mesmo posto no governo de Sérgio Cabral (PMDB-RJ). 

Antes de ingressar na administração pública, Eduarda fez carreira no mercado financeiro. Ao terminar o doutorado em 1996, foi contratada por Sérgio Werlang, na época sócio do banco baiano BBM. Em apenas três anos, se tornou sócia da instituição financeira. Além do currículo parecido com o de Levy, com experiências no setor privado e no governo, ela conta com a simpatia de ilustres economistas como Armínio Fraga e Maria Sílvia Bastos Marques, ex-presidente da CSN e da Icatu Seguros. 

Enquanto nomes para compor a Fazenda começam a surgir, a possibilidade de que Miriam vá para o Planalto abre espaço para que Barbosa se dedique exclusivamente a estabelecer um contraponto às ideias mais ortodoxas Levy em relação à condução da economia. Apesar de Dilma sinalizar que finaliza os últimos detalhes para divulgar uma lista fechada, com todos os integrantes da equipe econômica, na quinta-feira, o mercado continua volátil sem uma confirmação oficial dos ministros. 

Debate 
Em meio às incertezas e à necessidade de um forte ajuste fiscal no próximo ano, o economista-chefe para a América Latina do banco BNP Paribas, Marcelo Carvalho, projetou que o país não registrará crescimento em 2015. Anteriormente, ele previa uma tímida expansão de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano. 

Carvalho é ainda mais pessimista em relação inflação. Para ele, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve chegar a 7% em 2015. "Tanto Levy quanto Barbosa são nomes fortes conhecidos pelo mercado e respeitados. A dúvida é que suporte, a intensidade e a duração do apoio que esse time terá para fazer os ajustes necessários. Muitas medidas precisão passar pelo Congresso Nacional e o alinhamento político será fundamental", alertou. 

Para o diretor para a América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon, o contraponto estabelecido entre Levy e Barbosa é interessante para estimular a discussão sobre que rumos o país precisa tomar. Ele destacou que o fato de os atuais integrantes da equipe econômica compartilharem os mesmos pensamentos não contribuiu para o crescimento da economia. "Uma equipe diversa não é ruim. O que precisa haver é debate e não embate", resumiu. 

Na avaliação do diretor para as américas da Daiwa Capital Markets, Alexandre Coelho, as escolhas de Levy e de Barbosa mostram que o governo abandonou indicações políticas para cargos de natureza técnica. "Os dois estão preparados para as respectivas pastas. Penso que foram levadas em conta a competência e a experiência de ambos. Não vejo conflito entre os dois porque estiveram na Fazenda no mesmo período", disse.

 

 

Projeção de inflação mais alta

 

O anúncio da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff mexeu com as estimativas de inflação para este ano e para o próximo. Os analistas consultados pelo Banco Central (BC) já estão incluindo, em suas projeções, uma correção mais forte dos preços administrados. O mercado financeiro acredita que, com Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda, as tarifas públicas não serão mais represadas para conter a carestia, como ocorreu durante o primeiro mandato com os preços de energia e combustíveis. 

Segundo o Boletim Focus, divulgado ontem, a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de uma alta de 6,43% ao fim de 2014 e de 6,45% no término de 2015. Na avaliação do top 5 - grupo dos especialistas que mais acertam as projeções -, o cenário é ainda mais assustador: o índice deve chegar a 6,72% até dezembro do ano que vem. Para o economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, o realinhamento dos preços de combustíveis e energia manterá um impacto grande na economia no próximo ano. "As expectativas de inflação já incorporam um cenário em que os preços serão bastante pressionados a despeito de uma política monetária destrutiva", avaliou. 

Para Combat, a água também trará reflexos na carestia. "É outra tarifa represada artificialmente que deverá ser repassada", disse. Juntos, esses itens devem puxar, principalmente, a inflação dos alimentos. "São todos insumos básicos usados por pelo menos 90% das indústrias. Se o combustível é reajustado, sobe frete, e isso é repassado para os alimentos. O mesmo se aplica para água e energia. Não à toa que esses preços são administrados, porque há essa percepção de que, quando sobem, puxam uma cadeia de reajuste de vários outros preços", explicou. 

Além da pressão do setor alimentício, um foco de alta da inflação que desafiará a nova equipe econômica é a taxa cambial. O banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), vem sinalizando que pode elevar os juros no país a qualquer momento, o que causará uma transferência de recursos do mercado brasileiro para o norte-americano, considerado mais estável. O reflexo disso, de acordo com os analistas ouvidos pelo BC, é de que a cotação do dólar feche em R$ 2,55 ao término de 2014 e a R$ 2,65 no fim de dezembro do próximo ano. 

De acordo com o Focus, a taxa básica de juros deve ser elevada mais uma vez este ano, para 11,5%. Para 2015, e expectativa é de que se mantenha alta e feche o ano em 12%.Após prever leve aumento do Produto Interno Bruto (PIB) na semana passada, o mercado financeiro colocou, mais uma vez, o avanço do país em cheque. Na avaliação dos analistas, o crescimento em 2014 será de apenas 0,2%, com avanço de 0,8% em 2015.

 

Novo round da meta fiscal

Após mais uma reunião tumultuada na Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso, o governo conseguiu, na noite de ontem, aprovar parcialmente o relatório do Projeto de Lei (PLN) 36, que anula a meta fiscal da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano. A medida dá um cheque em branco para o Planalto continuar gastando mais do que arrecada.

A base governista se mobilizou e realizou a votação, apesar das tentativas de obstrução da oposição. A votação do relatório favorável à flexibilização da meta fiscal, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), foi nominal e em separado pelos integrantes da Câmara e do Senado, sem destaques. Às 23h20, três horas após o início da reunião, 26 deputados votaram sim e seis, não.

Antes que iniciasse a votação dos senadores, a oposição tentava obstruir, solicitando a votação dos 39 destaques que foram rejeitados por Jucá separadamente e questionando o condicionamento da aprovação por cargos. Até o fechamento desta edição, a votação na segunda Casa ainda não havia sido retomada.

Os governistas pretendiam levar o texto para apreciação do Congresso hoje, em reunião extraordinária, marcada pelo presidente do órgão, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), para as 15h. A pauta, no entanto, está trancada com vetos presidenciais que precisam ser apreciados antes. A oposição promete obstruir.

O relatório do PLN 36 elimina a meta de superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) na LDO de 2014. Pela lei, o compromisso original era de poupar R$ 167 bilhões, depois reduzida para R$116 bilhões, poderia ter abatimento de até R$ 67 bilhões de gastos do Programa de Aceleração do Crescimento e de desonerações de tributos. O relator propôs a ampliação do teto para a totalidade com as desonerações e o PAC.