A notícia da escolha do ex-secretário do Tesouro Nacional Joaquim Levy como novo ministro da Fazenda fez o pregão de ontem da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) disparar na sua última hora, fechando em 5,02% - a maior alta em mais de três meses. Com o resultado de ontem, também foi o melhor desempenho semanal desde maio de 2009, acumulando valorização de 8,35%. No mês, a bolsa já contabiliza alta de 2,7%. 

Os negócios, que atingiram 56.084 pontos, maior patamar de fechamento desde 15 de outubro, já vinham embalados logo na abertura graças à expectativa do anúncio da nova equipe econômica e à repercussão favorável do surpreendente corte de juros na China e declarações do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, de que usará todas as ferramentas para atingir a meta de inflação. 

Na reabertura do mercado acionário após o feriado de quinta-feira na capital paulista, o volume financeiro do pregão atingiu R$ 12,4 bilhões, quase o dobro da média mensal (R$ 6,4 bilhões) até o dia 19. Até o instante da notícia sobre o novo titular da Fazenda, além do nome de Nelson Barbosa para o Planejamento e de Alexandre Tombini para permanecer no Banco Central (BC), a bolsa subia 2,5%. 

Apesar da segunda recusa do residente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, em assumir a Fazenda, os investidores entenderam que, ao buscar um profissional com perfil mais austero, Dilma já teria se convencido da necessidade de dar novo rumo à política econômica. "A presidente percebeu que teria que chamar alguém para botar ordem na casa", avaliou Jayro Rezende, gerente de derivativos da CGD Investimentos. Para ele, o mercado vai buscar nos próximos dias sinais claros se nova postura será duradoura ou só de curto prazo. 

Estados Unidos 
O avanço do pregão de ontem foi puxado basicamente pelas ações da Petrobras, da Vale e de bancos. Os papéis preferenciais (PN) da estatal, após vários dias de perdas, lideraram os ganhos, com 11,89%. As ordinárias (ON), por sua vez, subiram 11,17%. Os dois títulos (ADRs) da estatal negociados na Bolsa de Nova York tiveram forte valorização ontem, de 10,89% e 11,44%. Os principais índices acionários dos Estados Unidos subiram puxados pelas notícias da China e da Europa. O Dow Jones avançou 0,51% e o S&P 500, 0,52%. 

No Brasil, também nos destaques de alta estavam papéis dos setores de construção civil e siderúrgico, com valorizações acima de 8%. Os títulos de bancos também operaram em forte elevação, embalados pela expectativa geral de benefícios com o resgate da credibilidade. 

Pablo Stipanicic Spyer, diretor da Mirae Asset Securities em São Paulo, destacou o papel do corte de juros na China como influência positiva para o avanço do pregão. "Isso reduz o custo de empréstimos naquele país e deve impulsionar a economia chinesa, que vem apresentando o pior desempenho em mais de 20 anos", afirmou ele, citando ainda as sinalizações do BCE para novos estímulos. 

Mais sensíveis aos números chineses, as ações da mineradora Vale encontraram na surpreendente medida de fomento aos negócios suporte para recuperação, uma vez que os papéis acumulam perda de cerca de 30% no ano, em meio aos baixos níveis das cotações internacionais do minério de ferro. Na mão inversa, a queda do dólar frente ao real colocou em declínio as ações das empresas cujas receitas são favorecidas pela apreciação da moeda norte-americana, tendo a Embraer à frente (-3,47%). 

Câmbio 
Desde cedo, o dólar seguia trajetória de queda, encerrando o dia com recuo de 2,10%, cotado a R$ 2,522. Os negócios cambiais do país foram afetados tanto pelas notícias internacionais, seguindo o movimento da moeda norte-americana em outros mercados, quanto pelas domésticas, envolvendo a nova equipe ministerial. Apenas o anúncio de corte de juros chineses deixou mais atraentes aos investidores os ativos financeiros do Brasil. "Os cenários doméstico e internacional estão favoráveis, abrindo espaço para um alívio relevante", comentou Marcos Trabbold, operador da corretora B&T. 

Pela manhã, o BC vendeu a oferta total de até 4 mil contratos cambiais de venda futura de dólares (swaps), pelas atuações diárias. Foram colocados 2,2 mil para 1º de junho e 1,8 mil para 1º de setembro de 2015, com volume correspondente a US$ 197,4 milhões. O BC também vendeu ontem a oferta integral de até 14 mil swaps para rolagem dos contratos que vencem em 1º de dezembro, equivalentes a US$ 9,831 bilhões. Ao todo, a autoridade monetária já rolou 68% do lote total.

A missão de Monteiro

A escolha do senador Armando Monteiro (PTB-PE) para ser o titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff reflete o resultado das urnas de 2015, além de buscar maior diálogo com o setor produtivo. Candidato derrotado ao governo de Pernambuco nas eleições deste ano, com apoio do Planalto, Monteiro foi deputado por três mandatos seguidos e eleito senador em 2010. 

O político ficou conhecido como presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de 2002 a 2010. Neste período, manteve bom relacionamento com Dilma e o antecessor dela, Luiz Inácio Lula da Silva, e ainda conseguiu fazer o seu sucessor na maior entidade empresarial do país. 

Depois de liderar ao longo de meses as pesquisas de intenção de voto para o Palácio das Princesas, acabou perdendo o pleito no primeiro turno para Paulo Câmara, indicado pelo ex-governador Eduardo Campos (PSB). Dilma se reuniu com Monteiro logo pela manhã de ontem, no Palácio da Alvorada, acompanhada do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, reforçando as especulações sobre o seu anúncio. O senador é um dos líderes do PTB, legenda que vem cobrando mais espaço na Esplanada. 

Desafios 
Com perfil diretamente identificado ao Mdic, Monteiro vai assumir grandes desafios na pasta que vem sendo ocupada interinamente por Mauro Borges, desde que o petista Fernando Pimentel, nome da cota pessoal da presidente, deixou o posto para concorrer ao governo de Minas Gerais. A perda de competitividade da indústria e o acúmulo de resultados negativos na balança comercial são alguns deles, além de contenciosos mediados pela Organização Mundial de Comércio (OMC). 

Apesar da forte ligação com o setor industrial e de ter feito o seu sucessor na CNI, Robson Braga de Andrade, ele encontrou resistências nas duas maiores federações associadas, as de São Paulo (Fiesp) e do Rio de Janeiro (Fierj), que ainda mantêm atuações independentes à confederação.