Um dia após o senador Aécio Neves (PSDB-MG) reaparecer publicamente e retornar ao Congresso para assumir o papel de líder da oposição, a presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quarta que é preciso “desmontar os palanques” e “saber ganhar e saber perder”. Na primeira cerimônia oficial depois de reeleita, em encontro com lideranças do PSD no Palácio do Planalto, Dilma disse que ressentimento entre os perdedores das urnas é “uma incompreensão” do processo democrático e ressaltou que a atitude dos vencedores não pode ser nem “soberba nem de pretensão de ser o último grito em matéria de visão política”.
Dilma fez um discurso de improviso, no qual disse que “há que saber ganhar, como há que saber perder”, e mencionou cinco vezes a palavra “diálogo”. Após reconhecer que “campanha acirra ânimos”, a presidente defendeu a mudança do “ritmo da discussão”. “Desmontar os palanques significa perceber que na democracia, no processo eleitoral, se disputam visões, propostas, as mais diferentes, e essas propostas e essas visões são levadas ao escrutínio popular.”
Em uma estocada em Aécio, sem citar nomes, Dilma disse que “o ato de poder ou não ganhar faz parte do jogo democrático”, acrescentando que as duas situações exigem uma atitude. “A atitude do ganhador não pode ser nem de soberba, nem pretensão de ser o último grito em matéria de visão política.”
Na cerimônia, Dilma afirmou que qualquer tentativa de retaliação por parte de quem ganhou ou de ressentimento entre os perdedores é “uma incompreensão do processo democrático”. “Criaria no Brasil um quadro caótico: o presidente eleito por um lado não conversa com o governador eleito por outro. O senador eleito por um lado não conversa com o outro senador eleito por outro. Não pode ser assim”, disse a presidente. “Isto não implica que nós podemos pretender que alguém abra mão das suas convicções ou das suas posições.”
Expectativas. O evento serviu para o PSD endossar o apoio ao segundo mandato de Dilma e cacifar o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, a assumir um cargo na Esplanada dos Ministérios. Kassab pleiteia o Ministério das Cidades.
Em retribuição, Dilma destacou a importância da sigla para a governabilidade. “O PSD tem uma característica: acredito que o centro político é um espaço privilegiado nas democracias e que um centro político é um espaço que nós temos de considerar como sendo extremamente importante.”
Este encontro de Dilma com o PSD foi alvo de especulações pela expectativa de que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, filiado ao partido e cotado para o Ministério da Fazenda, fosse ao Planalto. Dilma assegurou que não esteve com ele. O PSD tem um filiado na Esplanada, Guilherme Afif Domingos (Micro e Pequena Empresa), considerado da cota pessoal da presidente. Ele deve ficar no cargo.
Reforma. Em meio à expectativa sobre a reforma ministerial, Dilma preferiu falar sobre a política. No mesmo tom de diálogo, a presidente declarou que “ninguém do governo pretende ter a fórmula pronta” de como o tema será tratado. “Não podemos descuidar dos interesses populares expressos durante toda a campanha. Temos de ter a convicção de que isso é algo que temos de assumir e encaminhar.”
Em entrevista à TV Band, dois dias depois de reeleita, Dilma havia afirmado que a reforma política poderia ser feita tanto por plebiscito quanto por referendo, sinalizando um recuo da intenção inicial, pró-plebiscito.
Definição da Fazenda fica para depois do G20
A presidente Dilma Rousseff disse nesta quarta-feira, 5, que só anunciará o novo ministro da Fazenda na segunda quinzena deste mês, quando voltar da reunião de Cúpula do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo. O encontro será realizado na Austrália, entre os dias 15 e 16. Dilma pretendia chegar lá com essa pendência resolvida, para acalmar o mercado e aplacar incertezas dos investidores, mas está tendo dificuldades para definir o sucessor de Guido Mantega.
O ministro, o mais longevo titular da Fazenda da era republicana, faz parte da comitiva brasileira que viajará à cidade australiana. Sua participação na Cúpula é vista como uma forma honrosa de o Planalto se despedir do economista, já que a saída de Mantega do governo foi sugerida pela presidente Dilma ainda durante sua campanha na disputa presidencial, em setembro, no Ceará.
A montagem da nova equipe, o cenário adverso da economia e os percalços do governo no Congresso foram temas de uma conversa de Dilma com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de terça na Granja do Torto, em Brasília. “Ainda não escolhi o ministro”, desconversou ela onesta quarta, ao ser questionada por repórteres sobre o substituto de Mantega. “Só quando voltar”, emendou, numa referência à viagem para Brisbane, na Austrália.
A presidente afirmou que fará o anúncio dos ministros “por partes”, e não de uma única vez. No encontro com Lula, do qual também participaram o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o presidente do PT, Rui Falcão, Dilma mostrou preocupação com as fraturas na base aliada e prometeu chamar todos os líderes dos partidos que a apoiaram para conversar em breve.
Na conversa da Granja do Torto, Dilma e Lula tentaram demarcar os espaços de “dilmistas” e “lulistas” neste segundo mandato. É provável que o PT perca espaço na equipe ministerial, uma vez que a presidente precisa acomodar mais aliados. Dos 39 ministérios, o partido ocupa hoje 17 pastas.
O governo também está preocupado com as pressões do PMDB, que deve lançar em 2015 o deputado Eduardo Cunha (RJ), inimigo do Planalto, à presidência da Câmara. No diagnóstico dos petistas, o vice Michel Temer não consegue enquadrar as duas alas do partido. No entanto, a maior preocupação do Planalto reside na economia e no substituto de Mantega.
Na opinião de Lula, há três nomes que poderiam desempenhar esse papel: Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central; Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, e Nelson Barbosa, que foi secretário executivo da Fazenda até o ano passado. De acordo com integrantes do governo, Trabuco foi sondado para o cargo e não aceitou. Mercadante é atualmente um dos únicos nomes certos para continuar no mesmo cargo.
O ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD) está cotado para o Ministério das Cidades, hoje comandado pelo PP de Paulo Maluf. Lula, no entanto, gostaria de ver em Cidades o petista José Di Filippi Júnior, hoje secretário municipal da Saúde em São Paulo.
O PSD manterá a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, dirigida por Guilherme Afif Domingos. Henrique Meirelles também é filiado ao PSD, mas Dilma resiste em indicá-lo para a Fazenda.
O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), pode assumir o Ministério da Indústria e Comércio Exterior. O presidente do Instituto Brasileiro de Museus, Ângelo Oswaldo, deve entrar no lugar de Marta Suplicy no Ministério da Cultura e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, deve comandar a Secretaria-Geral da Presidência.