A confirmação de pesos pesados do campo fiscal como Joaquim Levy e Nelson Barbosa para o comando da equipe econômica combinada à fixação de metas realistas para a área fiscal nos próximos três anos ajudará a resgatar a credibilidade e a manter o grau de investimento do país, dizem especialistas.
Segundo Felipe Salto, da Tendências Consultoria, a meta de superávit primário (economia do governo para pagar juros das dívida) de 1,2% do PIB no ano que vem é factível, mas exigirá empenho. Segundo cálculos da consultoria, para conseguir chegar em 2015 com uma economia que corresponda a 1% do PIB serão necessárias receitas adicionais de R$ 85 bilhões.
- Há um sinal forte de que a contabilidade criativa deverá acabar. O nome do Joaquim é incompatível com essas práticas e reduz o risco de perda do grau de investimento - afirma.
Para Alberto Ramos, do banco Goldman Sachs, apesar de ficarem aquém do ideal, as metas são realistas. Agora, diz, é preciso informar como se pretende atingi-las.
- O cumprimento do 1,2% é passo decisivo para manter o investment grade, mas vai depender da autonomia. Levy não vai ser uma ilha no governo
'PT está se aburguesando', diz Gustavo Franco
Bancos e empresários elogiam oficialização de Levy, Barbosa e Tombini
Num seminário da Academia Brasileira de Letras (ABL), o ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco ironizou ontem a nova equipe econômica do governo. Ele comparou a entrevista coletiva de apresentação dos futuros ministros - Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento), além de Alexandre Tombini, que permanece à frente do BC - ao lançamento da "Carta aos Brasileiros", em 2002, feito pelo então presidente recém-eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.
- A natureza desse evento talvez seja comparável à "Carta aos Brasileiros", de 2002, como um instrumento político, um gesto que assinalou numa ocasião o aburguesamento do Partido dos Trabalhadores ou o abandono de agendas revolucionárias. Ainda que vitorioso na eleição, o partido se modificou naquele momento e foi uma espécie de queda do muro para eles, para nós, para todos - afirmou.
Franco disse ainda que Levy é um "mão fechada":
- Podemos acusar o governo de muitas coisas, mas muitas coisas mesmo, mas não de não possuir inteligência política. No momento de fechar o cofre, é o momento em que a presidente decide se afastar da área econômica e colocar alguém mão fechada. Não sei se vai dar certo, mas é um movimento muito inteligente. Faço votos de que funcione.
elogios à nova equipe
No geral, economistas, acadêmicos, entidades representativas de bancos e de empresários aprovaram o anúncio de metas plurianuais para o superávit primário.
A professora Margarida Gutierrez, do Coppead/UFRJ, considera que a adoção de metas está na direção correta:
- Qualquer coisa muito diferente do que anunciaram é muito difícil de ser feita. São metas menores do que as de 2003 a 2010, mas são factíveis no sentido de devolver a credibilidade perdida.
Margarida considera que a declaração de Levy vai no sentido de fazer com que o BNDES volte à sua função de banco de fomento. Para alcançar a meta, diz, será necessária a recomposição de alíquotas de tributos como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e a Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) e haverá mudanças em regras do seguro-desemprego.
Grandes bancos de varejo, como Bradesco e Santander, divulgaram notas em que adotam um tom elogioso para a oficialização de Levy, Barbosa e Tombini. O presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Murilo Portugal, disse que a entidade está mais otimista com o ano que vem. A Federação das Indústrias do Rio (Firjan) foi na mesma linha e lembrou da atuação de Levy à frente das contas públicas do Estado do Rio. ( Clarice Spitz e Juliana Castro, com agências internacionais )