A divulgação de dados econômicos ruins em todo o mundo e as incertezas quanto à intensidade dos ajustes que serão promovidos no segundo mandato de Dilma Rosseff levaram o Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), a fechar o pregão em queda de 3,31%, aos 50.274 pontos — o menor patamar desde 1º de abril deste ano. Com a tendência geral de baixa, somente quatro ações tiveram alta no dia. O cenário conturbado fez ainda o dólar subir 0,7% e alcançar o maior patamar desde 15 de abril de 2005, cotado a R$ 2,61 para venda. 
Na China, as importações despencaram 6,7%, reforçando os sinais de desaceleração da segunda economia global. A indicação de que o apetite chinês por matérias- primas arrefeceu, o que foi evidenciado também pela queda das cotações do minério de ferro, levou as ações ordinárias da Vale a cair 3,2% e as preferenciais a encolher 3,42%. Os papéis da Petrobras tiveram desvalorização ainda mais intensa. Com o preço do petróleo em baixa — vendido ontem a US$ 65,850 no mercado de Londres, um recuo 3,53% —, o plano de investimentos da companhia fica ainda mais ameaçado. 

As ações ordinárias da petroleira despencaram 6,38%, para R$ 10,72, e as preferenciais recuaram 6,2%, fechando a R$ 11,50. São os menores valores dos papéis da companhia desde 2005. Investidores aguardam para a sexta-feira o balanço não auditado da Petrobras referente ao terceiro trimestre. A divulgação do resultado foi adiada em razão das denúncias de corrupção envolvendo a companhia.
Os resultados ruins foram generalizados em todo o mundo. Nos Estados Unidos, a baixa do petróleo deprimiu as cotações de grandes grupos do setor de energia, e o índice Dow Jones, principal referência da Bolsa de Nova York, fechou em queda de 0,42%. O Nasdaq, que reúne ações de empresas de tecnologia, encolheu 1,08%.
Em Frankfurt, na Alemanha, a bolsa fechou em baixa de 0,72%, afetada pela pífia expansão na produção industrial em outubro, de apenas 0,2%. Também caíram as praças de Londres (-1,05%), Paris (-1%), Madri (-0,88%) e Milão (-0,68). O Japão teve retração do Produto Interno Bruto (PIB) pelo segundo trimestre consecutivo negativo o que configura uma recessão técnica.

Juros 

Na avaliação do economista-chefe da Opus Investimento, José Márcio Camargo, a indefinição dos nomes que serão empossados nos bancos públicos e no segundo escalão dos ministérios da Fazenda e do Planejamento aumenta o nível de incerteza e de instabilidade do mercado brasileiro. Ele ressaltou que a queda no preço de commodities, como minério de ferro e petróleo, tem forte repercussão na Bolsa de São Paulo, por afetarem as principais companhias brasileiras. 
Camargo ainda lembrou que o nível de endividamento da Petrobras tende a piorar com a queda do preço do petróleo. “Com todas essas dívidas, as ações dos bancos também podem ter queda”, comentou.
Na opinião do economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, as sinalizações do governo norte-americano de que deve aumentar as taxas de juros também já estão afetando o mercado brasileiro. “Haverá reprecificação de riscos. Tornou-se mais provável um ajuste dos juros pelo Federal Reserve no primeiro trimestre. Nos próximos dias, veremos saída de capitais de vários países”, previu.
Para a economista-chefe para América Latina da Coface, Patricia Krause, o mercado ainda tem dúvidas sobre a firmeza do compromisso da presidente Dilma Rousseff com um ajuste fiscal capaz de colocar a economia nos trilhos. Segundo ela, o Executivo sinaliza que reduzirá gastos, mas também anuncia aumento dos investimentos em infraestrutura. “Isso deveria ser feito sem a participação do governo, porque a elevação da despesa pública pressiona a inflação”, disse. 
Para o economista da Tendências Consultoria Rodolfo Oliveira, além dos problemas domésticos, a proliferação de dados ruins das economias chinesa, japonesa e europeia deve afetar ainda mais o mercado brasileiro. Ele ressaltou que a queda do nível de importações da China pode apontar uma tendência de resultados negativos. “A expectativa é ruim para os números de crédito, o desempenho da indústria e do varejo, além da taxa de investimentos e de inflação, que serão divulgados nos próximos dias”, explicou.