Parece pouco, mas a recente elevação de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), na última quarta-feira baterá pesado no bolso do consumidor. No entender de economistas, ao levar o índice para 11,75% ao ano - o maior patamar desde 2011 -, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) deu carta branca para que as instituições financeiras repassem o novo aumento aos clientes, na forma de juros ainda mais salgados.
E, a julgar pelas taxas atuais é bom mesmo preparar a carteira. Em outubro, o juro médio cobrado das famílias nas operações com recursos livres chegou a 44% ao ano. Trata-se do maior desde 2011, o início da série histórica pesquisada pelo Banco Central (BC). A autoridade monetária mostrou que as taxas ainda mais pesadas foram cobradas de quem usou o cheque especial.
Também em outubro, conforme dados mais recentes, o custo dessa modalidade de crédito chegou a 187,8% ao ano - o maior patamar desde 1999. Sufoco ainda maior passaram os brasileiros que recorreram ao cartão de crédito. Dados da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que a taxa média, nessa operação, chegou em outubro a 241,61% ao ano.
Os juros mais altos não tiveram como motivo o mais recente ciclo de alta da Selic, só iniciado nos últimos dias de outubro. Três dias após o segundo turno da eleição presidencial, o Copom decidiu elevar a taxa básica em 0,25 ponto percentual, uma decisão dividida. Como, de lá para cá, o quadro de riscos para a inflação continuou piorando, como enfatizou o próprio BC em comunicados recentes, foi preciso elevar a dose do perto, para 0,5 ponto percentual, na última quarta.
É por essa razão, dizem especialistas, quem ainda está pensando em tomar dinheiro emprestado deve se preparar para pagar bem mais caro. "Talvez esse aumento não seja tão rápido, devido à distância entre o momento em que o BC eleva os juros e o instante que essa taxa chega aos novos contratos. Mas, sem dúvida, deve haver repasse aos clientes", assinalou Flávio Calife, economista-chefe da Boa Vista Serviços. O motivo é simples: as instituições também pagarão mais caro para emprestar o dinheiro e, para que não repassar à clientela, restaria cortar a margem de lucro ou gastos.
Efeito geral
O ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas lembrou que até mesmo os consumidores rigorosamente em dia com suas obrigações devem se preparar para pagar mais caro pelos empréstimos. "No sistema financeiro, há os mortais, que são todos os consumidores, e os imortais, que são alguns poucos grandes clientes, que podem contar com linhas especiais com juros subsidiados pelo governo", frisou.
Ele acrescentou que empréstimos feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) integram essa lista de operações mais baratas, com taxas até mesmo abaixo da inflação. "O aperto monetário faz todos pagarem um pouco mais, sobretudo os mortais, que têm de desembolsar bem mais", refletiu.
Freada nas montadoras
Os licenciamentos de automóveis recuaram 4% em novembro em relação a outubro, após dois meses de altas nas vendas. Segundo dados divulgados ontem Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), 294,7 mil veículos foram vendidos mês passado, contra 306,9 mil em outubro. Em relação a novembro de 2013, quando as vendas alcançaram 302,9 mil unidades, a retração foi um pouco menor: 2,7%. Mas no acumulado dos 11 primeiros meses, a queda chega a 8,4%, com um total de 3,13 milhões de carros vendidos sobre os 3,41 milhões de mesmo período de 2013. As exportações caíram 40,6% no acumulado do ano. Eram 523 mil unidades em 2013 e de 310,8 mil unidades agora.
A produção também engatou marcha à ré em novembro. A queda foi de 9,7% tanto em relação a outubro quanto em relação a novembro de 2013. Em novembro, foram montadas 264,8 mil unidades, contra 293,9 mil em outubro e 293,2 mil em novembro do ano passado. Somando o acumulado no ano até o mês passado, o recuo foi de 15,5%, indo de 3,48 milhões em 2013 para os atuais 2,94 milhões. Os números refletem o ainda elevado estoque, de 414,3 mil unidades em novembro. Em outubro eram 413,4 mil. "Há duas formas de ajustar estoques: aumentar vendas e cortar produção", resumiu Luiz Moan, presidente da Anfavea.
Para piorar esse cenário, os produtores de aço do Brasil estão informando aos fabricantes de autopeças sobre reajustes de preços, afirmou Moan. "Nossos fornecedores já estão enfrentando pedidos de aumento de preços por parte das siderúrgicas", disse. Esse seu comentário impulsionou as ações da Usiminas, maior produtora de aços planos do país, insumo básico da indústria de veículos.
Poupança capta menos

A poupança desperta cada vez menos o interesse do brasileiro. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) informam que, em novembro, os depósitos na caderneta superaram os saques em R$ 2,53 bilhões. Trata-se da menor captação para o mês desde 2011, quando o ingresso líquido ficou só em R$ 30 milhões. As entradas no mês passado alcançaram R$ 139,26 bilhões e os saques, R$ 136,73 bilhões. O volume dos rendimentos creditados nas contas dos poupadores foi, por sua vez, de R$ 3,68 bilhões. Segundo especialistas, o cenário econômico atual, com inflação persistente e elevado nível de endividamento das famílias, tem ajudado a derrubar a entrada de recursos na caderneta neste ano.
No acumulado dos 11 primeiros meses de 2014, os depósitos na caderneta superaram as retiradas em R$ 18,6 bilhões. Esse montante representa a menor entrada de recursos para este período também desde 2011: R$ 10,59 bilhões. Em relação a igual período de 2013, quando entraram R$ 59,84 bilhões, a retração é de 69%. O patrimônio aplicado na poupança chegou a R$ 653,7 bilhões em novembro ante os R$ 597,94 bilhões do fechamento de 2013.
Efeito Selic
Em acréscimo, a escalada da taxa básica de juros (Selic) também tira a atratividade da poupança frente às aplicações em fundos de renda fixa. Cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostram que a subida da Selic, anteontem, pelo BC, de 11,25% para 11,75% ao ano, sela a vantagem da renda fixa sobre a caderneta na maioria das vezes.
A razão disso é que o rendimento dos fundos sobe com a taxa básica. No caso da poupança, quando a Selic está acima de 8,5%, o que ocorre desde agosto, a remuneração é fixa em 6,17% ao ano mais a variação da Taxa Referencial (TR). Pela regra atual, se a Selic voltar a ficar abaixo de 8,5%, o rendimento será 70% da Selic.