O presidente da China, Xi Jinping, não se dirigia, obviamente, às produtoras mundiais de minério de ferro quando disse, neste mês, que os riscos decorrentes da desaceleração da expansão de seu país “não são tão assustadores”.

Os gigantes da mineração apostaram US$ 120 bilhões, na suposição de que a produção de aço da China não alcançará seu pico antes de 2030. Num momento em que o preço do minério prosseguia em queda para alcançar sua baixa recorde dos últimos cinco anos, ontem, parece cada vez mais que eles entenderam mal a situação. Trata-se de um erro de cálculo que pode ter enormes consequências para as empresas, encabeçadas pela BHP Billiton e pelo Rio Tinto Group.

“Sempre fui da opinião que as mineradoras têm a melhor inteligência sobre esse assunto, já que grandes decisões de investimento se baseiam nela”, disse Richard Knights, analista do banco de investimento Liberum Capital. “Mas, mesmo se elas tiverem errado só por uma margem pequena, isso terá grandes implicações sobre a lucratividade e sobre o preço de suas ações por vários anos.”

O minério de ferro é a commodity de pior desempenho neste ano, e a desaceleração da economia convenceu alguns analistas e siderúrgicas de que o pico da produção de aço está próximo na China, a maior produtora mundial.

A produção da China alcançará seu ponto máximo em não mais do que três anos, desencadeando fechamentos, em vez de expansões de usinas, segundo Wolfgang Eder, presidente da Associação Mundial do Aço e principal executivo da Voestalpine AG, a maior siderúrgica da Áustria.

“Terá de haver uma reestruturação no setor siderúrgico chinês”, disse Eder. “As produtoras de minério de ferro estão cada vez mais conscientes de que precisam redefinir suas expectativas de crescimento. Há enorme capacidade excedente, e vem mais por aí. Isso vai aumentar a pressão.”

O quadro atual representa uma grande mudança. A cada um dos últimos dez anos, a China abriu novas usinas, com capacidade para ultrapassar a produção anual da Alemanha, a maior produtora de aço da Europa. A escalada dos novos altos-fornos criou um turbilhão de consumo, que devorou metade do volume de minério de ferro mundial e criou fortunas sem precedentes, desde a região australiana de Pilbara até a bacia Amazônica brasileira. Esse trem da alegria, que gerou vendas anuais de minério de ferro de cerca de US$ 160 bilhões no ano passado, está perdendo velocidade.

O principal defeito das produtoras de minério de ferro, a commodity mais comercializada internacionalmente depois do petróleo, é que elas tendem a ser “superotimistas”, disse Kirill Chuyko, diretor de análise setorial do BCS Financial Group de Moscou. “Errar é humano”, disse Chuyko, que considera que o pico da produção de aço chinesa foi alcançado. “A demanda chinesa está caindo.”

Diante do fato de que a China se encaminha para registrar a expansão mais fraca em mais de 20 anos, os dirigentes do Partido Comunista cogitaram diminuir a meta de crescimento para 2015, segundo fonte bem-informada. A perspectiva de que o crescimento continuará em desaceleração prejudicou os preços das commodities, desde o carvão até o petróleo.

O minério de ferro perdeu 48% do valor, passando a US$ 70,20 a tonelada neste ano, sua cotação mais baixa desde 2009, segundo a publicação especializada Metal Bulletin, e recuou 2,2% ontem. O Citigroup previu que a commodity poderá cair para menos de US$ 60 a tonelada no ano que vem. Seu pico foi de US$ 191,70, alcançado em fevereiro de 2011.

O mercado de minério de ferro deu uma guinada para um superávit “estrutural” em meados de 2014, disseram os analistas Fawzi Hanano e Eugene King, do Goldman Sachs, em relatório do dia 6. Esse excedente vai aumentar para quase 300 milhões de toneladas por volta de 2017, calcularam eles. As mineradoras, lideradas pela BHP e pela Rio Tinto, investiram US$ 120 bilhões em gastos com novas minas desde 2011.

Um total de 24 projetos de minério de ferro foram iniciados ou aprovados desde 2011, segundo o Goldman Sachs. As minas têm capacidade anual conjunta de extrair 726 milhões de toneladas e incluem operações em Austrália, Brasil, Serra Leoa, Canadá, Rússia, Ucrânia e Libéria.

A BHP baixou suas expectativas para a produção siderúrgica da China no mês passado, embora ainda preveja que o país a elevará em 25% no período 2020-2025, para de 1 bilhão a 1,1 bilhão de toneladas. A expectativa da Rio Tinto é de que a produção de aço da China será de 1 bilhão de toneladas em 2030, aproximadamente.

A BHP e a Rio Tinto operam na região de Pilbara, na Austrália ocidental, rica em ferro, o maior centro de produção mundial. A Rio Tinto planeja aumentar a produção em 11% neste ano, para 295 milhões de toneladas, alcançando pelo menos 330 milhões de toneladas a partir de 2015. A BHP está elevando a produção da região para cerca de 245 milhões de toneladas no período de 12 meses a encerrar-se em junho.

As siderúrgicas chinesas, incluindo a Hunan Valin Iron & Steel Group, 11ª maior do país, estão cautelosas com os rumos da economia, que se encaminham para alcançar sua taxa mais baixa de crescimento desde 1990, diante da queda do mercado imobiliário e da freada nos investimentos.

“A demanda por aço manterá um ritmo baixo de crescimento possivelmente por três a cinco anos”, disse Li Jianguo, diretor-geral da Hunan Valin. “Eu não diria que o crescimento vai durar pelos próximos dez anos.”