Pela primeira vez desde que a posse presidencial passou a ocorrer no dia 1° de janeiro, em 1995, um presidente da República chega à véspera do início de seu mandato sem anunciar todos os nomes de seu Ministério. A um dia de subir a rampa do Palácio do Planalto pela segunda vez, a presidente Dilma Rousseff ainda não escalou o time completo que entrará em campo a partir de amanhã. No fim da tarde de ontem, ela anunciou, por nota, a indicação do petista Juca Ferreira para a Cultura. No entanto, ainda falta a oficialização de 14 ministros.

Dentro do governo, ontem era dado como certo que 12 dessas pastas continuarão ocupadas por seus atuais ministros, a começar pelo braço-direito da presidente, Aloizio Mercadante, na Casa Civil. Apesar disso, não houve formalização ou sinalização presidencial. As duas pastas nas quais as dúvidas são maiores são a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que não tinha como principal cotado o atual ministro, Marcelo Néri, e o Ministério das Relações Exteriores, onde pode haver mudança ou ser mantido o chanceler Luiz Alberto Figueiredo.

Integrantes do Palácio do Planalto tratavam ontem o ex-chefe de gabinete de Dilma Giles Azevedo e o ministro Moreira Franco (PMDB) como principais cotados para a SAE. A expectativa é que dirigentes peemedebistas se reúnam ainda hoje com assessores da presidente para definir o assunto. Dilma resiste em transformar seu fiel assessor de duas décadas em ministro. A presidente preferia que ele voltasse a assessorá-la em seu gabinete.

Há dez dias, na Argentina, Dilma admitiu à presidente Cristina Kirchner que estava sendo "muito difícil" formar seu Ministério. De fato, se comparado aos períodos anteriores, as definições se arrastam. Há quatro anos, Dilma finalizou as indicações de seus 39 ministros no dia 22 de dezembro. Eleito em outubro de 2002, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tinha seu Ministério pronto no dia 24 de dezembro.

Ao ser reeleito, Lula anunciou logo após sua vitória, em 30 de outubro de 2006, que não faria mudanças para a posse. Ele promoveu a reforma ministerial em março de 2007, integrando a bancada do PMDB na Câmara, que migrou da posição de independência para a base aliada.

Antes de ser empossado pela primeira vez na virada do ano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez o anúncio de todo seu Ministério no dia 21 de dezembro de 1994. Quando se reelegeu, FH apresentou sua equipe também antes do Natal, no dia 23 de dezembro de 1998.

DE 25 ANUNCIADOS, SÓ 11 SÃO NOVIDADE

Numa campanha eleitoral em que prometeu "Governo Novo, Ideias Novas" apenas 11 dos 25 nomeados pela presidente até agora são, de fato, uma novidade. Os outros 14 ou já integravam o governo na Esplanada dos Ministérios ou na secretaria-executiva de ministérios, ou atuaram nos governos do ex-presidente Lula.

O contingente de caras novas será ainda menor se Dilma formalizar hoje, além de Mercadante, a permanência de José Eduardo Cardozo (Justiça), Manoel Dias (Trabalho), Tereza Campello (Desenvolvimento Social), Arthur Chioro (Saúde), Izabella Teixeira (Meio Ambiente), José Elito (Gabinete de Segurança Institucional), Luís Adams (Advogado-Geral da União), Thomas Traumann (Comunicação Social), Eleonora Menicucci (Mulheres), Ideli Salvatti (Direitos Humanos), Afif Domingos (Micro e Pequena Empresa) e Luiz Alberto Figueiredo (Relações Exteriores).

Neste grupo, ao menos dois ministros estavam com o pé fora do governo. Logo após a eleição, a tendência era que Izabella Teixeira fosse substituída pelo senador petista Jorge Viana (AC), que foi duas vezes governador do Acre e é um interlocutor próximo de Lula. Porém, ele fez críticas públicas ao ministro da Justiça, o que desagradou a Dilma. Traumann, por sua vez, estava retornando para o Rio, onde mora sua família, mas a dificuldade em encontrar um substituto o fará permanecer à frente da Secom por mais algum tempo.

NOITAMARATY, DIVERGÊNCIAS SOBRE ESCOLHA

Apesar das divergências em torno de quem ficará com a chancelaria brasileira, as chances de Figueiredo permanecer no cargo cresceram durante o dia de ontem. Segundo um assessor do Palácio do Planalto, a própria demora na indefinição de quem assumirá o Itamaraty indicava que Figueiredo deverá ficar. Outra fonte comentou que "o destino não apontava mudanças no Itamaraty".

Havia forte divisão sobre quem assumiria a pasta. O ministro da Defesa, Celso Amorim, que será substituído a partir de amanhã por Jaques Wagner, era um dos principais cotados. Havia expectativa de um encontro entre Amorim e a presidente da República, o que, até ontem à noite, não havia acontecido.

De acordo com pessoas próximas a Dilma, a ida de Amorim — um lulista ligado à esquerda — para o Itamaraty faria com que Dilma assumisse a marca de seu antecessor na política externa brasileira e, ao mesmo tempo, reduziria o nível de insatisfação da ala majoritária do PT na formação do Ministério.

— O nome de Amorim foi pedido pelo ex-presidente Lula. Por isso, não está tão fácil para a presidenta tomar uma decisão — comentou uma fonte.

Os embaixadores do Brasil nos Estados Unidos e na Argentina, Mauro Vieira e Everton Vargas, respectivamente, também eram cogitados para o cargo. Outro nome era o de Antonio Simões, diplomata com larga experiência em assuntos da América do Sul.

Juca Ferreira volta a comandar a Cultura, cargo que ocupou no governo Lula. Dilma vinha sendo pressionada pelo setor a retomar políticas do seu antecessor. Ontem, ela recebeu um abaixo-assinado de petistas pedindo melhorias na Cultura. No PT, havia uma divisão: parte queria Juca, enquanto um grupo defendia a nomeação do escritor Fernando Morais.