Pela primeira vez em um balanço oficial, os casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo foram contabilizados. Em 2013, os cartórios registraram 3.701 uniões homoafetivas, 0,35% de 1,05 milhão de casórios celebrados. Apesar de o casamento gay ser permitido em todo o Brasil, os números ainda mostram uma grande discrepância entre as regiões. São Paulo foi a unidade da Federação campeã, celebrando 1.945 matrimônios. Na outra ponta, o Acre registrou apenas uma união. O Distrito Federal ficou na décima colocação com 83 registros. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para especialistas, as diferenças podem ser explicadas pelo acesso à informação e a cultura de cada região.

De acordo com o levantamento, do total de uniões gays celebradas em 2013, 52% (1.926) foram entre mulheres e 48% (1.775) entre homens. O Sudeste concentra o maior índice de casórios: 65,1% (2.408). Em seguida, estão o Sul, com 525 registros (14,2%), o Nordeste, com 497 (13,4%), o Centro-Oeste, com 215 (5,8%) e o Norte, com 56 (1,5%).

Na avaliação da pesquisadora do IBGE Cristiane Moutinho, as diferenças entre as regiões têm um forte componente cultural. No Sudeste, as pessoas têm uma noção do reconhecimento do direito, enquanto em outras regiões, nem tanto. Trata-se de um direito recente, diz. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é previsto desde 2011, a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Entretanto, a medida não estava sendo aplicada. Em maio deste ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tornou obrigatório que os cartórios celebrassem uniões estáveis e casamentos civis entre homossexuais e fizessem a conversão dos registros.

Por causa da resolução, o IBGE incluiu as uniões homoafetivas na pesquisa. A partir dos próximoas anos, será possível traçar uma série histórica. Segundo Cristiane, assim será possível identificar melhor os fatores que levam à distribuição desigual entre os estados e se o número é alto. Hoje, há outros tipos de formalização, como união estável, que a pesquisa, por enquanto, não capta. A média de idade dos cônjuges gays é de 37 anos para os homens e de 35 para as mulheres. Nas uniões entre heterossexuais, é de 30 e 27 anos.

O presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Carlos Magno, comemora a inclusão dos dados na pesquisa. É um marco deixarmos de ser invisíveis. Para ele, o número de casamentos gays é expressivo e tende a aumentar. O casamento heterossexual é permitido há 400 anos. O homoafetivo tem menos de cinco anos, lembra.

Magno avalia que a desigualdade regional tem relação com a grandeza da população de cada estado e o tamanho das cidades. Nas grandes metrópoles, as pessoas têm mais condições de assumir a homossexualidade. Nelas, você acaba diluído dentro da sociedade, sofre menos preconceito. Buscar o direito é uma decisão importante, mas requer coragem, analisa. Para ele, há também o componente de desconhecimento acerca dos direitos.

Ato político
O produtor cultural Fernando Toledo, 45 anos, e o servidor público federal André Manoel, 47 anos, têm união estável desde 2008 quando ela era facultativa a alguns cartórios. Eles estão juntos há 10 anos e passarão a compor as estatísticas do IBGE a partir do ano que vem, quando transformarão a união em casamento civil. Acho que é uma grande conquista, e uma forma de trazer luz para a discussão sobre um relacionamento que era totalmente proibido, diz.

Os servidores públicos federais Rodrigo Rodrigues, 28 anos, e Thiago Rodrigues, 26, comemoraram ontem sete anos juntos. Em 2013, eles se casaram. Fora a formalização de uma relação, sempre falo que nunca posso ignorar o ato político que é ser um casal homoafetivo hoje em dia, avalia Rodrigo. Para ele, o número é pequeno, porque há desconhecimento. Muitos amigos não sabiam se era possível casar ou fazer só a união estável. Muita gente ainda não sabe as diferenças.