RIO , NOVA YORK E
LONDRES


A cotação do petróleo abriu a semana no menor patamar em cinco anos , após a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), na quinta-feira passada, de manter o atual nível de produção da commodity. No fim da sessão , as cotações se recuperaram, fechando em alta, mas há quem diga que o barril pode chegar a US$ 30, o que gera graves problemas para as economias dependentes do combustível e pode inviabilizar projetos como o do gás não convencional dos Estados Unidos e até o pré- sal brasileiro. O barril do tipo Brent (referência internacional) fechou em alta de 3,4%, a US$ 72,54, depois de ter atingido US$ 67,53, a menor cotação desde outubro de 2009, auge da crise financeira global.
No ano , a queda acumulada é de 30%. Já o tipo leve americano (WTI), depois de recuar a US$ 63,72, menor patamar desde julho de 2009, avançou 4,3%, a US$ 69. De acordo com Paul Stevens, da Chatham House, em Londres, uma cotação de US$ 40 faria com que o gás não convencional nos EUA deixasse de ser lucrativo. Para a Agência Internacional de Energia, esse ponto de equilíbrio estaria em US$42. O presidente da Canadian Natural Resources, Murray Edwards, acredita que a cotação do barril pode recuar a US$ 30, antes de voltar a subir e se estabilizar em US$ 70. Segundo analistas , a Arábia Saudita estaria apostando na queda dos preços para in viabilizar economicamente a produção não convencional americana, que exige uma tecnologia cara, de fragmentação hidráulica de rochas subterrâneas. Mesmo que o recuo nas cotações afete a receita do governo saudita , o país teria condições , afirmam, de absorver essas perdas por mais algum tempo.
No Brasil, especialistas ressaltam que esse movimento de queda pode afetar os investimentos futuros da Petrobras, principalmente no pré-sal. Para cumprir os investimentos de US$ 220,6 bilhões previstos no Plano de Negócios 2014/18, a companhia trabalhava com preço médio do barril a US$ 205 este ano, caindo para US$ 100 em2017 e, a longo prazo, a US$ 95. Thiago Biscuola, da RC Consultores, acredita que os preços se manterão nos níveis atuais a médio prazo, pois não há sinal de uma mudança que favoreça a alta na geopolítica mundial. E a Petrobras, que já tem elevado nível de endividamento e dificuldade de obter financiamento por não ter divulgado o balanço do terceiro tri mestre, terá problemas para obter empréstimos para novos projetos, menos atraentes.—A curto prazo, a queda dos preços alivia o caixa da Petrobras, com a redução dos gastos com importações de derivados e o fim da defasagem do preço dos combustíveis.
Por outro lado , o preço de US$ 60 a US$ 70 tornará menos atraentes os investimentos da estatal até 2020, porque reduzirá a receita que tinha projetado — explica Biscuola. Marcelo Colomer , do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da UFRJ, acredita que o preço do petróleo não deve se sustentar no atual patamar por muito tempo . Segundo ele, isso não in ter essa a nenhum país, pois in viabilizaria a produção de óleo e gás não convencionais. E os grandes exportadores perderiam receita. Segundo dados da Petrobras, o custo de extração no pré-sal está entre US$ 40 e US$ 45 o barril. Colomer acha que é cedo para avaliar se a recente queda afetará a produção futura no Brasil:—O problema atual da Petrobras não é a queda no mercado internacional, é de capacidade de financiamento , de conseguir crédito para seus projetos de longo prazo, por não ter divulgado o balanço . Para outro analista, que prefere não ser identificado , a queda dos preços a longo prazo é muito ruim para a estatal, pois as exportações valerão menos e podem não permitir a amortização de sua dívida. A curto prazo, a queda não afeta o pré-sal, "mas se acabar o caixa , não tem investimento ".
MAIOR INCERTEZA
Alguns analistas acreditam que a queda do petróleo observada nos últimos dias ameaça gerar o mesmo impacto da queda de três décadas atrás, que gerou a crise da dívida do México e levou à dissolução da União Soviética. Os impactos vêm sendo sentidos em todos os continentes , da América Latina à Ásia.Metade das receitas da Rússia , por exemplo , vem do petróleo — e o país já está abalado economicamente devido às sanções por causa da Ucrânia. O Irã, também alvo de sanções internacionais, será obrigado a reduzir os subsídios governamentais . A Nigéria e a Venezuela são outros dos países severamente afetados pelo derretimento da cotação .— Haverá um grau maior de incerteza — disse à Bloomberg Daniel Yergin, vice-presidente da consultoria americana IHS Inc