Título: Rombo de US$ 15 bilhões
Autor: Martins, Victor ; Monteiro, Fábio
Fonte: Correio Braziliense, 28/06/2011, Economia, p. 11

Disposição do brasileiro de ir ao exterior faz BC rever deficit nas viagens internacionais

Diante da ânsia do brasileiro de ir para o exterior ¿ beneficiado pelo dólar em baixa e pelo aumento da renda ¿ e da necessidade das multinacionais com atuação no país de reforçarem o caixa de suas matrizes, o Banco Central foi obrigado a rever as projeções para o rombo na conta de rendas e serviços com o exterior em 2011. Entre a primeira previsão, divulgada no início do ano, e a apresentada ontem, o buraco passou de US$ 78 bilhões para US$ 83 bilhões. Somente na rubrica viagem internacional, o deficit ficará em US$ 15 bilhões ante estimativa anterior de US$ 12 bilhões. Já as remessas de lucros e dividendos para o estrangeiro chegarão a US$ 37 bilhões, cravando um novo recorde. As filiais de empresas sediadas nos Estados Unidos, na Europa e no Japão estão raspando o que podem do país, onde os lucros são crescentes, para melhorar os resultados de suas controladoras.

O BC, no entanto, não mexeu na previsão de deficit total nas transações correntes, porque o desempenho da balança comercial deverá ser melhor do que o esperado, graças, principalmente, às restrições impostas pelo governo à importação de carros e autopeças. Assim, a estimativa para o rombo manteve-se em US$ 60 bilhões. O comércio exterior brasileiro, para o qual se previa um saldo positivo de US$ 15 bilhões, deve apresentar, agora, um superavit de US$ 20 bilhões. "As exportações estão indo bem. A balança tem sido favorecida em preço e quantidade", justificou Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC.

Segundo o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, a projeção de junho para a balança comercial reflete a alta dos preços das commodities (produtos básicos com cotação internacional). "Com certeza, isso ajuda a manter o deficit total relativamente estável", explicou. Ele destacou, porém, que, mesmo com a balança comercial fazendo um contrapeso à febre de viagens internacionais e às remessas de lucros e dividendos para o exterior, essas duas rubricas continuarão a pressionar o rombo nas contas externas. Apenas em maio, os saques nas filiais brasileiras foram de US$ 4,2 bilhões.

"O quadro lá fora é de estagnação. Por isso, é natural que as empresas busquem repatriar capitais dos locais onde a atividade está mais ativa e seja mais lucrativa. A economia brasileira está crescendo bem mais do que as de países desenvolvidos", acrescentou Rosa.

Drible no IOF No caso dos gastos com viagens internacionais, o governo até tentou brecá-los por meio do aumento, de 2,8% para 6,38%, do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente nos gastos com cartão de crédito. Mas os brasileiros driblaram a medida e, agora, voltaram a usar mais dinheiro em espécie nas suas viagens, além do cartão pré-pago. "De fato, o IOF não fez muita diferença. O dinheiro é o principal meio de pagamento no exterior", ponderou Flávio Serrano, economista do Espírito Santo Investment Bank.

Essa avaliação é endossada por Bruno Lavieri, economista da Consultoria Tendências. E, segundo ele, o principal condicionante para as despesas lá fora não é a tributação, mas o crescimento da renda ¿ pelas contas da Fundação Getulio Vargas, 48,7 milhões de pessoas migraram para as classes A, B e C desde 2003 (veja reportagem na página 10).

Mesmo com a alta do IOF vigorando desde 28 de abril, os brasileiros não se fizeram de rogados e, em maio, desembolsaram lá fora US$ 1,6 bilhão a mais do que os turistas estrangeiros despejaram no Brasil, acumulando um rombo de US$ 8,3 bilhões nos cinco primeiros meses do ano (US$ 55,3 milhões por dia). Em junho, até dia 27, a conta viagem está negativa em US$ 1,4 bilhão ¿ tanto para um mês quanto para o outro, os deficts são recordes conforme a série histórica iniciada pelo BC em 1947. Depois da elevação do imposto, porém, o BC registrou uma pequena mudança na participação do cartão de crédito nas despesas totais no exterior. Até abril, ela era de 60,7%. Em maio, caiu para 54,7%.