O projeto da senadora e ex-ministra da Cultura Marta Suplicy de disputar as prévias do PT com o prefeito Fernando Haddad pela vaga de candidato à Prefeitura de São Paulo em 2016 esbarra no "trauma" do partido com episódios recentes, em que o saldo nas urnas foi negativo quando a sigla impediu o titular do cargo de buscar a reeleição. A exoneração de Marta, assinada pelo presidente em exercício, Michel Temer, foi publicada ontem no "Diário Oficial da União", o que lhe permite reassumir o mandato no Senado. O presidente do PT, Rui Falcão, admitiu ontem que Marta dispute as prévias com Haddad, mas ressaltou que o histórico partidário é desfavorável nesses casos. "Nas duas vezes em que quem pleiteava a reeleição foi substituído, não deu certo", lembrou. Ele ressalvou que isso não a impede de postular a candidatura. "Isso é o retrospecto histórico, não quer dizer que o resultado seja o mesmo", ponderou. Mas um dos vice-presidentes nacionais do PT, que pediu o anonimato, disse ao Valor que o PT não pretende repetir os erros do passado. "Existe o trauma de mexer com um prefeito que tem direito à reeleição", admitiu. De pronto, ele cita a última disputa municipal, em 2012, quando a executiva nacional do PT interveio em Recife (PE), impedindo o prefeito João da Costa (PT) de tentar a reeleição. Costa foi obrigado a enfrentar prévias, e venceu-as contra o deputado Maurício Rands, então no PT. Mas a direção nacional anulou o embate e impôs a candidatura do senador Humberto Costa. No fim, o PT perdeu no primeiro turno para Geraldo Julio (PSB), e Rands deixou o PT e renunciou ao mandato federal. "Trocar o candidato é um trauma", endossou outro representante da executiva nacional, que também pediu para não ser identificado. Além da experiência desastrada em Recife, ele lembra o episódio em 2002, quando o governador Olívio Dutra perdeu as prévias para Tarso Genro e não pode concorrer à reeleição no Rio Grande do Sul. O PMDB acabou vencendo o páreo. "Todas as vezes que substituímos o candidato, nos damos mal. O [Fernando] Haddad só não será candidato se estiver no fundo do poço, e renunciar, por si próprio, à prerrogativa", enfatizou o dirigente petista. Ele acrescentou que se o PT estivesse disposto a repetir o erro, teria substituído o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, que enfrentava alta rejeição, e acabou excluído do segundo turno no mês passado. Além disso, petistas do diretório nacional, mais próximos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não descartam voos mais altos de Haddad. Afirmam que em sondagens internas, sua aprovação já aumentou. Acrescentam que a renegociação da dívida municipal vai injetar recursos nos cofres públicos, dando musculatura à sua gestão. "Ele tem mais obras pra entregar, ele levanta o Boeing nos próximos dois anos", diz um dos vice-presidentes da sigla. O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, afirmou que não acredita na saída de Marta do PT, do qual é uma das fundadoras, caso a legenda lhe negue a candidatura na disputa municipal. "Somos companheiros de partido há mais de 30 anos, ela tem raízes profundas na construção do PT, não acredito nisso", afirmou. O ministro acrescentou que ela terá um papel relevante no Senado, já que o PT ficou sem representante na bancada paulista, diante da derrota de Eduardo Suplicy. Há rumores de que Marta pode migrar para o PMDB ou para o PCdoB, onde ela tem bom trânsito com a executiva partidária, bem como com o ex-colega de Esplanada, o titular do Esporte, Aldo Rebelo. Mas os petistas alertam que, se deixar o PT, não há garantia de que ela leve consigo o eleitorado cativo da sigla, na periferia paulistana. Para exemplificar, um dirigente petista cita a deputada e ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, que teve desempenho a desejar nas urnas nas duas vezes em que concorreu à prefeitura, depois de trocar o PT pelo PSB - em 2000 e em 2004. Na primeira vez, ela obteve 9% dos votos. Na segunda vez, em 2004 - com o hoje vice-presidente Michel Temer, do PMDB, como companheiro de chapa - Erundina alcançou apenas 3% dos votos na disputa pela prefeitura. Na campanha, a ex-prefeita dizia aos eleitores que havia "mudado de casa, mas não de rua". Do outro lado, a militância petista rebatia, impiedosa, que Erundina havia "abandonado a família", no caso, o PT. Para complicar o cenário, uma mudança no estatuto do PT pode desfavorecer Marta na disputa interna. Pela nova regra, se dois terços do diretório municipal decidirem, as prévias podem ser convertidas em "encontro partidário". O resultado é uma disputa mais restrita, porque nas prévias, votam todos os filiados municipais que estiverem quites com a legenda. No encontro, participam apenas os delegados eleitos para essa finalidade. E no âmbito do diretório municipal, Haddad desponta com mais força que Marta.