A ministra da Cultura, Marta Suplicy, pediu demissão por meio de carta protocolada ontem na Casa Civil da Presidência da República e expôs uma crise nos bastidores do governo às vésperas da reforma ministerial. Numa tentativa de diminuir a repercussão da saída litigiosa da senadora por São Paulo, o Palácio do Planalto pediu que todos os ministros antecipassem suas cartas de demissão, o que era previsto apenas para a próxima terça-feira, 18, na volta da presidente Dilma Rousseff ao país. 

A presidente foi surpreendida pelo pedido de demissão de Marta ao chegar a Doha, primeira etapa de sua viagem a Austrália. 

A ministra poderia ter encaminhado a carta na segunda-feira, quando Dilma ainda estava em Brasília e poderia despachar com ela pessoalmente. Marta preferiu protocolar seu pedido de demissão depois da viagem, o que foi considerado 
"deselegante" pela entourage da presidente. Um gesto tão inusitado quanto os termos de uma carta recheada de recados do PT e do grupo lulista à presidente da República. 

No mesmo contexto da demissão de Marta se encerra a entrevista que o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, concedeu à BBC Brasil, na qual critica a presidente pela falta de diálogo com os movimentos sociais e sobretudo com os "principais atores na economia e na política". Gilberto Carvalho é o ministro de Dilma mais próximo de Lula, considerado os olhos e ouvidos do ex-presidente no Palácio do Planalto. 

Lula e o PT pressionam a presidente Dilma a escalar logo o novo ministério, em especial a equipe que comandará a economia. 

Dilma e Lula reuniram-se por cerca de seis horas na última terça- feira, 3, na Granja do Torto, em Brasília. Participaram da reunião também o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) e o presidente do PT, Rui Falcão. O ex-presidente deixou Brasília na expectativa de que a presidente resolvesse pelo menos dois problemas que considera mais urgentes, antes da viagem a Doha e Brisbane, cidade australiana que abrigará a reunião do G-20: a nomeação do novo ministro da Fazenda e a sucessão na Petrobras. A presidente não fez nem uma coisa nem outra, e deixou expostos também os nomes sugeridos por Lula para a economia: Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, que já foi bombardeado por economistas à esquerda do PT, o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, e o ex-secretárioexecutivo da Fazenda Nelson Barbosa. 

O PT e Lula, segundo interlocutores, avaliam que não há explicação para a demora na nomeação do ministro da Fazenda nem no encaminhamento de uma solução para a Petrobras. No caso da Fazenda, o mercado já assimilou que o ministro Guido Mantega não fica no cargo, no próximo mandato. O anúncio do novo comandante da economia poderia tranquilizar os mercados e permitir que empresários e governadores eleitos pudessem avançar seus planos em relação a 2015. A preocupação com a Petrobras é que a estatal constitui um patrimônio nacional que precisa urgentemente retornar à normalidade, afetada pela operação Lava- Jato e denúncias de corrupção. O PT teme ser identificado com um governo que deixou desandar a estatal. Ainda hoje o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso paga a conta eleitoral por uma tentativa feita em seu governo de trocar o nome da empresa de Petrobras para Petrobrax. 

O primeiro trecho da carta de demissão de Marta é dedicado aos assuntos pertinentes ao Ministério da Cultura. É nos últimos parágrafos que a ministra expõe as divergências, nunca explicitadas mas claras nas entrelinhas. 

"Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso país", escreveu. 

"Isto é o que hoje o Brasil, ansiosamente, aguarda e espera". 

Marta não só encampa a reivindicação de Lula por uma equipe econômica 
"independente", como dá curso à avaliação de que o governo da presidente Dilma Rousseff perdeu a confiança e a credibilidade nessa área. Gilberto Carvalho, em sua entrevista à BBC, também tocou na mesma tecla, ao mencionar a falta de diálogo da presidente "sobretudo" com os principais atores na política e na economia. 

No parágrafo seguinte, Marta, também nas entrelinhas, diz que não se arrepende por ter encampado o movimento "Volta, Lula", no qual permaneceu mesmo depois da escolha da presidente como candidata em convenção nacional do PT. "Volto para o Senado Federal para representar o Estado de São Paulo, por mais quatro anos, com muito vigor, energia e com o firme propósito de fazê- lo com amplitude, seriedade e grandeza", diz a carta. "Na condução do Ministério da Cultura, e como senadora licenciada pelo PT, não me apequenei, o fiz com coragem e determinação". E conclui: "Não fugi à responsabilidade de meu compromisso público ao me posicionar e ter feito o que acreditava ser o melhor para o Brasil e para o povo brasileiro". 

Em agosto passado, Marta patrocinou um jantar, em São Paulo, que deveria desencadear o movimento pela candidatura de Lula às eleições. O próprio Lula se encarregou de desmontar a articulação da agora ex-ministra. 

Marta não só protocolou na Casa Civil seu pedido de demissão, como informou o público em geral em seu perfil no Facebook. 

Apesar dos assessores mais próximos de Dilma terem considerado deselegante a maneira como a ministra encaminhou sua demissão, o PT e parte do governo não deixaram de manifestar algum júbilo, pois falar em descortesia não seria coerente para Dilma, vistos os termos em que a presidente costuma agir com seus auxiliares. Especificamente em relação à cultura, Marta disse que "em meio a inúmeras demandas e carências orçamentárias do Ministério da Cultura, focamos nosso trabalho em valores que nos são preciosos: inclusão da população na produção de cultura e ampliação do acesso aos bens culturais". 

Em sua volta ao Senado, Marta tem em mente uma eventual candidatura à Prefeitura de São Paulo, em 2016, sobretudo se Fernando Haddad mantiver seus atuais níveis de desaprovação. Para o lugar da ministra são falados o ex-ministro Juca Ferreira, o assessor especial Marco Aurélio Garcia e o compositor Chico César.