Com o maior aumento em oito meses nas vendas do varejo americano e números animadores sobre o emprego nos Estados Unidos, o dólar ganhou fôlego em escala global e atingiu a maior cotação frente ao real desde 1º de abril de 2005. O dólar comercial, referência no comércio exterior, subiu 1,37% ontem, a R$ 2,648. Na máxima do dia, chegou a R$ 2,653. Entre as 16 principais divisas do mundo, o real apresentou a maior desvalorização ontem frente ao dólar, perdendo apenas para a coroa norueguesa.

- As incertezas que temos internamente, somadas ao aumento de juros nos EUA, que deve acontecer já no início de 2015 por causa da boa resposta da economia americana aos estímulos por lá, e à queda dos valores da Commodities, deixam muito claro que a tendência do dólar é, sem dúvida, de valorização - explicou Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio Treviso Corretora.

O dólar turismo, aquele que os brasileiros adquirem em casas de câmbio e bancos, fechou cotado a R$ 2,720 para venda no Rio, segundo compilação da firma de dados financeiros CMA. Na casa de câmbio Cotação, a divisa era vendida a R$ 2,83 em espécie. No Espaço Câmbio, em Ipanema, o valor era de R$ 2,75. Casas de câmbio e bancos são livres para estabelecer a cotação das moedas, considerando seus gastos com infraestrutura e operação - por isso os valores costumam variar bastante de um estabelecimento para outro.

No fim da tarde, o Banco Central (BC) anunciou que fará amanhã leilão de até US$ 2 bilhões com compromisso de recompra, operação conhecida como leilão de linha. A medida é uma forma de tentar elevar a oferta da divisa no mercado para baixar seu preço. Recentemente o BC fez leilão de linha e não houve interessados no mercado. Além disso, serão feitos o tradicional leilão de quatro mil contratos de Swap cambial - equivalente à venda de dólares no mercado futuro - e a rolagem de dez mil contratos de Swap que estão para vencer.

- A expectativa é que o Brasil termine o ano com um fluxo cambial negativo de quase US$ 15 bilhões, o que representa moeda estrangeira saindo por meio de importações e transações financeiras. Isso pressiona bastante o câmbio - observou João Medeiros, gerente de câmbio da corretora Pioneer. - Já tem gente prevendo que o dólar chegue até R$ 3 muito em breve.

Ação da Petrobras chega a ficar abaixo de R$ 10

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) ficou instável, oscilando de acordo com as ações da Petrobras. No fim do dia, porém, a petrolífera reduziu as perdas, o que fez com que o índice de referência Ibovespa fechasse em alta 0,63%, aos 49.861 pontos. O pregão acompanhou o otimismo dos mercados americanos.

As ações da Petrobras, que haviam aberto o pregão em alta, inverteram a trajetória logo de manhã e passaram a cair depois que o Ministério Publico Federal (MPF) anunciou que faria a primeira fase das denúncias na Operação Lava-Jato, que investiga corrupção dentro da companhia. O papel ordinário (ON, com direito a voto) chegou a valer R$ 9,60. Mas, acompanhando o desempenho de petrolíferas estrangeiras, se recuperou um pouco. A ação ON fechou o dia em queda de 0,69%, a R$ 10,04, e a preferencial (PN, sem voto) recuou apenas 0,09%, a R$ 10,82.

Também influenciou os negócios a notícia de que a Petrobras pode captar recursos no mercado por meio de títulos lastreados em dívida da Eletrobras com a petrolífera, que seriam garantidos pelo Tesouro. A medida heterodoxa seria uma solução para contornar as dificuldades de captação que a estatal enfrentará devido ao escândalo de corrupção.

"A Petrobras irá precisar de recursos em 2015, e o seu custo de captação está aumentando e o mercado parece não estar com apetite para os papéis da estatal. A solução, apesar de heterodoxa, parece ajudar a resolver os problemas de fluxo de caixa de curtíssimo prazo da Petrobras", escreveu o analista Cláudio Moura, da Elite Corretora.

- Não dá para ficar animado com uma notícia dessas. A cada dia que passa, novas revelações da Lava-Jato surgem, como uma bola de neve. Enquanto o círculo vicioso não for quebrado, as ações continuarão muito pressionadas - afirmou Rogério Freitas, sócio na Teórica Investimentos.

Mas Hersz Ferman, também da Elite Corretora, considera a notícia positiva para a companhia.

- As empresas de petróleo foram bem no mundo inteiro hoje, mas a Petrobras ficou instável porque amanhã (hoje) tem divulgação de balanço, o que sempre deixa o mercado tenso. Mas a notícia sobre a captação da empresa, apesar de ser ruim para as contas do governo, ajuda o caixa da companhia, que está necessitado.

Outra empresa a registrar forte queda foi a Vale, cujas ações ON caíram 2,81%, enquanto as PN recuaram 2,94%. Apesar de o minério de ferro ter subido 0,3% no mercado internacional ontem, analistas continuam apostando que a cotação mantém a tendência de queda.

Já a TIM recuou 2,34%, após ter subido 11,3% na véspera por conta da notícia de que Oi, Vivo e Claro estariam preparando uma proposta conjunta de cerca de R$ 32 bilhões para comprar a operadora. A Oi caiu 2,56%, e a Telefônica ficou estável.

Na Europa, Londres e Paris recuaram 0,59% e 0,05%, respectivamente. Frankfurt, por fechar mais tarde, refletiu o mercado americano e subiu 0,64%. Em Nova York, o índice Dow Jones teve alta de 0,36% e o S&P 500, de 0,45% - chegaram a subir mais de 1% durante o dia. As vendas do varejo americano avançaram 0,6% em novembro, acima das projeções, de 0,4%. Os pedidos de seguro-desemprego caíram de 297 mil para 294 mil.