A recuperação do rublo e a expectativa com a reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) levaram trégua aos mercados ontem. No Brasil, o dólar comercial fechou em queda após cinco dias de alta. A moeda americana recuou 1,24%, a R$ 2,701 — que, no entanto, ainda é o maior patamar desde março de 2005. Em Moscou, o rublo registrou sua maior alta desde 1998: 11%frente ao dólar , que fechou cotado a 60,74 rublos. A recuperação da moeda, depois de dois dias de forte queda, deveu-se à venda de dólares pelo governo e à promessa do banco central russo de ajudar as empresas, especialmente as exportadoras, a honrarem suas obrigações em moeda estrangeira.
De acordo com o jornal britânico "Financial Times", o ministro de Finanças russo disse que o governo está pronto para vender US$ 7 bilhões no mercado de câmbio. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de ValorES de São Paulo, avançou 3,63%, aos 48.713 pontos, recuperando parte das perdas registradas nos três pregões anteriores. Isso se deveu às declarações do futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre uma possível alta de impostos em 2015.— Levy deu uma sinalização positiva para o mercado. Ele não fez uma avaliação otimista do cenário econômico, mas as sinalizações de ajustes foram bem recebidas — afirmou Elad Victor Revi, analista da Spinelli Corretora.Apesar da trégua de ontem, Ítalo Abucater , gerente de câmbio da corretora Icap do Brasil, afirma que a tendência para a moeda americana é de alta, principalmente devido ao cenário externo adverso:— Houve um fluxo pontual de entrada de recursos pela manhã. É normal uma realização de lucros quando a taxa de câmbio sobe muito,mas o cenário externo é muito ruim. Tem a questão da Rússia, mas tem também a desaceleração na China, a Ucrânia e a expectativa de elevação de juros nos Estados Unidos.
Para Luis Gustavo Pereira, analista chefe da Guide Investimentos, a recuperação do mercado brasileiro está ainda atrelada ao entendimento que a crise russa arrefeceu, embora seus efeitos ainda precisem ser monitorados.Analistas consideram que a situação ainda está longe do que o mundo viveu em 1998, na esteira da turbulência russa, graças a câmbio flutuante, elevadas reservas internacionais e nível menor de endividamento. O Brasil, porém, pode ter reflexos em sua balança comercial, pois uma recessão russa reduziria a demanda por exportações brasileiras de frango e carne, que avançaram após os embargos à Rússia como resultado da anexação da Crimeia.— Já há efeitos nos países emergentes, como vimos nos mercados, mas é uma situação diferente de 1998. Na época, a taxa de câmbio era fixa em vários países, o que não é o caso agora.Além disso, a Rússia e o Brasil têm reservas elevadas — afirma o professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado.
RISCO DE INFLA ÇÃO PARA O BRASIL
A consultoria britânica Capital Economics também vê um cenário diferente daquele de 1998:—A maioria das economias emergentes está em posição muito mais forte hoje que na época,principalmente porque quase todas têm câmbio flutuante , e o Brasil é um exemplo, e porque em geral têm dívidas menores e reservas maiores —explica o economista sênior Andrew Kenningham, que espera um impacto mais localizado. —A crise da Rússia não deve ter grande impacto global, mas alguns países e regiões devem ser mais afetados, como a Europa central, com crescimento mais lento na Polônia e na República Tcheca, e alguma pressão nos países bálticos.Prado, porém, alerta sobre os efeitos inflacionários de uma desvalorização muito rápida do real,na esteira do que está acontecendo com o rublo:— A taxa de câmbio flutuante não resolve todos os problemas. Há um impacto na inflação,que pode acabar reduzindo o câmbio mais competitivo.
Preocupados com a perda de poder aquisitivo— McDonald"s, Renault e Cartier reajustaram seus preços na Rússia, e a Apple suspendeu as vendas on-line —, os cidadãos estão correndo às lojas para adquirir o que puderem com seus rublos. Televisores, smartphones e outros eletrônicos são os mais vendidos. Na avaliação do professor da UFF e dos MBAs da Fundação Getulio Vargas, André Nassif, a turbulência nos mercados emergentes tende a ser um movimento passageiro.— A hipótese de uma crise mais forte seria no caso de um impacto maior na Europa, mas considero isso pouco provável. Agora, o Banco Central deve fazer um esforço para que essa correção do câmbio pelo mercado possa se manter depois — diz Nassif, destacando que o real estava sobrevalorizado e que sua desvalorização é importante a longo prazo para a economia.—A crise russa já está atingindo o Brasil por efeito sistêmico , embora o país não esteja em uma situação tão ruim — observa o economista Carlos Thadeu de Freitas, ex -diretor do Banco Central.Outro fator que vem sendo atentamente observado pelo mercado é a perspectiva de aumento de juros nos Estados Unidos. O Fed, como já era esperado, manteve ontem sua taxa básica de juros próxima de zero, mas retirou do comunicado a expressão "tempo considerável".
O BC americano afirmou, porém, que será "paciente em começar a normalizar a situação política monetária ". Para analistas, o Fed só deve elevar os juros em meados de 2015, ainda mais porque a inflação americana tende a ficar mais baixa devido à queda na cotação internacional do petróleo — nos EUA, o preço do combustível nas bombas segue o valor do barril nos mercados externos.—Essa questão da paciência deixou um pouco em aberto o que o Fed poderá fazer . Pode ter uma alta dos juros em junho, mas talvez eles subam em um ritmo mais fraco. Essa acabou sendo a primeira impressão — disse Pereira, da Guide . O economista Flávio Serrano, do BES Investimentos , lembrou ainda que o comunicado e as declarações da presidente do Fed, Janet Yellen, ajudam a manter a expectativa de um aumento dos juros só para meados de 2015. Em tese, taxas mais altas nos EU A tendem a retirar parte do fluxo de recursos das economias emergentes . Mas ele reforçou que, independente do início e magnitude do aumento dos juros americanos, o ano que vem será difícil para o Brasil, devido ao patamar elevado do dólar e do ajuste fiscal que precisa ser feito .
RECUPERAÇÃO DA PETROBRAS
As compras na Bolsa também foram impulsionadas pelo vencimento dos contratos de opção sobre o Ibovespa. As ações da Petrobras operaram em alta durante todo o pregão, apesar da continuidade da queda do preço do petróleo no mercado internacional. Os papéis preferenciais(PN, sem direito a voto) subiram 2,98%, a R$ 9,66, e os ordinários (ON, com a voto) registraram valorização de 3,90%, a R$ 9,04. A Vale também registrou recuperação, com as ações PN avançando 2,16% e as ON, 1,86%. Os papéis da mineradora estão sendo castigados pela for te queda nos preços do minério em 2014, devido à redução de demanda da China.Já os papéis da CSN registraram alta de 11,74%,a maior do pregão, e os da Usiminas subiram8,08%. Gerdau teve valorização de 5,35.Em Nova York, os mercados, que já operavam em alta, subiram com mais força após a divulgação do comunicado do Fed. O S&P 500 avançou2,03% e o Dow Jones teve valorização de 1,69%.
Lembrança
A CRISE financeira russa faz lembrar a de 1998, quando, no ano seguinte, a quebradeira chegou ao Brasil.
NADA INDICA, porém, que a história se repetirá. O Brasil conta com reservas externas que não tinha à época, embora nunca se deva baixar a guarda quando a questão é o balanço de pagamentos.
NO CASO da Rússia, hoje há um aspecto preocupante: Putin e seus sonhos czaristas, causa de sanções impostas ao país, um dos fatores de agravamento da crise.
A INSEGURANÇA geopolítica projeta sombras sobre a economia.
O diretor do Instituto de Rússia do King's College, Sam Greene, em Londres, diz que a equipe econômica do presidente Vladimir Putin tem de agir depressa porque “as reservas do país não vão durar para sempre”.
Quais são os principais problemas da Rússia neste momento?
A economia russa tem problemas reais. E o mais importante deles agora é a falta de quaisquer fontes de crescimento. Sem os preços altos do petróleo e sem acesso aos mercados de capitais, a economia, por assim dizer, está sem combustível.
Mas há também uma crescente falta de confiança, não?
A tudo isso se soma uma ampla falta de confiança na capacidade de o governo pensar e implementar as políticas que possam colocar a situação nos eixos. O banco central da Rússia mostrou que pode manter o rublo sob controle, até um certo ponto, e, quem sabe, até valorizá-lo, mas a um alto custo e com grande risco. Agora o governo terá de aparecer com soluções reais, e as autoridades não têm muito tempo para isso. As reservas internacionais da Rússia não vão durar para sempre.
Que medidas podem ser tomadas para contornar a crise?
O presidente Putin e seus ministros não têm como trazer os preços do petróleo para os altos patamares em que se encontravam, mas podem fazer outras coisas. Podem buscar uma acomodação na relação entre o Ocidente e a Ucrânia, de modo a conseguir que as sanções aplicadas sejas suspensas. Eles também podem apoiar investimentos reais e começar a se mexer contra os monopólios e cartéis que tanto controlam a economia. E eles precisam garantir que a independência do banco central será mantida.
Qual é a agenda mais imediata de Putin?
As pressões imediatas sobre ele são para cumprir suas obrigações sociais para com aposentados e funcionários públicos, e garantir a prosperidade do seu círculo de apoio. Será quase impossível fazer as duas coisas enquanto buscar reformas e a distensão política com a Europa e os Estados Unidos.