Se depender da vontade de Joaquim Levy, as relações entre o Brasil e os EUA ganharão qualidade durante sua gestão no Ministério da Fazenda. Escolhido pela presidente Dilma Rousseff para tirar o País da estagnação e do isolamento econômicos a que foi relegado por escolhas erradas e má gestão, Levy cultiva laços profissionais nos centros de decisão de Washington desde os anos 1990, quando iniciou sua carreira nos quadros do Fundo Monetário Internacional (FMI). O futuro ministro tem visão própria sobre a cena internacional, mais aberta e pragmática que a vigente no Itamaraty, e sabe que a reconquista da credibilidade do País junto aos investidores nacionais e estrangeiros passa pelo estabelecimento de relações amistosas e produtivas com os EUA e as economias avançadas.

 

 

Foi na capital americana que o ministro Pedro Malan foi buscar Levy para integrar sua equipe no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Talvez por serem ambos engenheiros de formação, com doutorado em Economia, o ex e o futuro ministro da Fazenda compartilham a convicção de que a construção e a condução de uma boa política econômica começam com um sólido alicerce fiscal. Os bons serviços que Levy prestou ao País no governo tucano abriram espaço para que fosse alçado à Secretaria do Tesouro em 2003, por indicação de Malan e do então presidente do Banco Central, Arminio Fraga, a Antônio Palocci, o primeiro ministro da Fazenda da era petista.

 

Dono de uma ambição pessoal proporcional ao seu talento, dedicação ao serviço público e uma prodigiosa capacidade de trabalho, Levy não demorou a tornar-se a figura dominante da assessoria de Palocci e emergir como principal interlocutor de Washington na área econômica. Assumiu esse papel como líder, do lado brasileiro, de um grupo de consultas dedicado à promoção do crescimento e dos investimentos. Conduziu a tarefa em reuniões periódicas com o subsecretário do Tesouro americano, John B. Taylor, catedrático de Stanford cujos textos estudara na universidade e a quem Levy tratava reverentemente como "professor".

 

O grupo de trabalho conduzido por Taylor e Levy foi o único que efetivamente funcionou, entre mais de uma dúzia criados pelos governos de George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 2003 para mapear o diálogo bilateral, que então já andava para trás. Em novembro daquele ano fracassaram as renegociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas, principal projeto conjunto dos dois países, que Brasília celebraria nos anos seguintes como um triunfo da política externa brasileira.

 

Contra esse pano de fundo adverso, Levy e Taylor reuniram-se três vezes e identificaram ações prioritárias que Brasília e Washington deveriam adotar para promover os investimentos e o crescimento econômico. Em 2005 as recomendações entraram na pauta do Conselho Empresarial Brasil-EUA (http://www.brazilcouncil.org/sites/default/files/2005POW.PDF), onde permanecem.

 

A saída de Palocci da Fazenda, em março de 2006, e o advento da "nova matriz", que aos poucos entortou a economia, reduziram o espaço para as recomendações do grupo Levy-Taylor. Mas não as eliminaram. A primeira delas está no topo da lista de iniciativas que, na visão da Casa Branca, dariam substância a uma agenda bilateral produtiva e permitiriam reprogramar a frustrada visita de Estado de Dilma a Washington. Trata-se da simplificação do sistema tributário brasileiro e da negociação de um acordo bilateral de não bitributação, que ganhou adeptos no Brasil nos últimos dez anos graças à transferência de um número crescente de empresas brasileiras para os EUA em busca de melhores condições para investir e expandir seus negócios.

 

Após deixar o governo Lula, Levy passou um breve período como vice-presidente para Países do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em Washington, onde continuou a cultivar relações dentro e fora do governo americano. Os contatos continuaram depois que Levy assumiu a Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro, em 2007, a convite do então recém-reeleito governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

 

As viagens de Levy aos EUA tornaram-se mais frequentes a partir de 2010, quando ele aceitou seu primeiro emprego no setor privado, comandando a área de estratégia e administração de ativos do Bradesco, onde trabalhou nos últimos quatro anos. Seu perfil profissional e a experiência que acumulou em postos de governo, instituições multilaterais e no setor financeiro facilitarão as conversas em Washington, especialmente com o secretário do Tesouro americano, Jack Lew, que o presidente Barack Obama, não por acaso, escalou para restabelecer o diálogo bilateral com o Brasil, em março passado, depois do caso Snowden. A visita de Lew a Brasília e São Paulo abriu o caminho para os dois encontros de Dilma com o vice-presidente Joe Biden, que representará Obama na segunda posse da presidente.

 

A expectativa em Washington é de que Dilma dê espaço a Levy e à equipe econômica para corrigir os erros do primeiro mandato e recolocar o País no caminho do crescimento, do qual depende a continuação das políticas de redução da pobreza e da desigualdade. Um bom diálogo entre Levy e Lew e a abertura de novos canais de entendimento Brasília-Washington são importantes hoje por motivos que vão além da boa condução dos assuntos de Estado entre as duas maiores economias do continente. Há no caminho as investigações sobre a megarroubalheira na Petrobrás e, potencialmente, em outras empresas públicas que atuam no mercado americano. Todas estão sujeitas à jurisdição do Departamento de Justiça e da Securities and Exchange Commission, que já iniciaram investigações sobre possíveis ramificações criminais do petrolão nos EUA. Essas representam desafio considerável para Dilma conservar a reputação de honestidade pessoal que mantém em casa e no exterior e proteger seu segundo mandato das consequências legais do grande assalto à estatal.