Os estudos no governo para a abertura do capital da Caixa Econômica Federal apontam para a venda de uma fatia entre 20% e 25% do banco federal, com uma possibilidade de levantar algo na faixa dos R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões até 2016, de acordo com fontes com conhecimento das discussões.

O projeto da abertura do capital da Caixa surgiu originalmente quando Antônio Palocci era ministro da Fazenda e, nos últimos anos, ficou em banho maria. A ideia voltou a ganhar força há alguns meses, quando o governo passou a procurar alternativas para reforçar o caixa do Tesouro Nacional diante do quadro fiscal mais desafiador.

A nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff recebeu a proposta com ceticismo. A reação inicial dos ministros é que será preciso colocar recursos do Tesouro para sanear as contas da Caixa. Dependendo do valor, a venda pode não ser tão vantajosa quanto parece agora.

A operação poderá ser também mais um indutor para aprimorar a governança da Caixa. O grande exemplo é o Banco do Brasil, que criou sua tradição de prestar contas aos investidores, sobretudo desde 1996, quando recebeu um socorro do Tesouro de R$ 8 bilhões e passou por uma reformulação interna.

Ainda não há data definida para abrir o capital da Caixa. Em tese, caso seja dado prioridade para o projeto, seria possível oferecer as ações ao mercado ainda em fins de 2015. Mas o Tesouro avalia a conveniência de fazer uma operação dessas proporções num momento em que o mercado acionário está deprimido. O natural, diante de um eventual cenário adverso, seria adiar a operação para 2016.

Outro desafio será o Tesouro voltar a captar recursos quando a sua mais recente operação do tipo, com a venda de ações da Petrobras, traz lembranças desfavoráveis aos investidores.

Caso o projeto seja levado adiante, a prioridade será usar os recursos para melhorar o quadro fiscal do país. Mas, dentro das discussões, não está descartada a possibilidade de usar pelo menos parte do dinheiro para reforçar a estrutura de capital do banco federal. O entendimento é que o índice de Basileia atual é suficiente para a travessia de 2015, mas o quadro de 2016 depende das metas de crescimento.

Hoje, o Tesouro controla 100% do capital da Caixa. Com a oferta das ações, seguiria tendo uma posição majoritária de controle, com uma fatia de 75% a 80%.

Segundo um interlocutor, o exame preliminar no banco federal mostrou que não haveria ajustes relevantes a fazer na Caixa, que, na prática, já vem operando com todos os controles internos e submetida à supervisão do Banco Central. Todas as operações da Caixa são remuneradas, inclusive programas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.

As estimativas dos potenciais ganhos com a abertura de capital da Caixa foram feitas por técnicos do governo tomando como base a avaliação dos três grandes bancos de varejo do país - Banco do Brasil, Bradesco e Itaú. Os quase US$ 5 bilhões levantados pela Caixa em captações internacionais seriam um termômetro do apetite por ações do banco.

Dentro da Caixa, funcionários de carreira veem com bons olhos a possibilidade de abrir o capital. Para muitos, seria uma forma de incentivar uma gestão mais profissional. Hoje, um bom pedaço da alta direção do banco é loteada entre os partidos políticos que formam a base do governo Dilma Rousseff.

A intenção de abrir o capital da Caixa foi noticiada no domingo pelo jornal "Folha de S. Paulo" e confirmada ontem pela própria presidente Dilma, durante café da manhã com jornalistas.

 

Analistas esperam ajustes no balanço antes de oferta

 

A Caixa Econômica Federal terá de passar por um ajuste sensível no balanço para levar adiante os planos de abertura de capital, segundo analistas. Uma das principais preocupações é a qualidade da carteira de crédito da instituição, que aumentou a atuação em áreas de maior risco, como pequenas e médias empresas, e demonstra certa flutuação nas suas avaliações de perfil de crédito. Além disso, a contabilidade precisará explicitar a fronteira entre operação comercial e programas sociais, subisidiados.

No atual momento de mercado, o plano do governo de captar entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões, que avaliaria a Caixa em até R$ 80 bilhões na oferta pública inicial de ações (IPO, em inglês), é considerado "agressivo" por um analista, que pediu para não ser identificado. A conta considera apenas uma oferta secundária, com a venda de ações que hoje pertencem ao governo. Mas a operação deve incluir a emissão de novas ações para reforçar o capital do banco federal.

A principal referência para a Caixa na bolsa é o Banco do Brasil, cujo valor de mercado ontem era de R$ 70,4 bilhões. Como as ações do BB são negociadas abaixo do valor patrimonial (veja quadro), o governo provavelmente teria de aceitar um preço muito baixo pelos papéis da Caixa, se o cenário não mudar até a oferta. "A operação dependerá das condições de mercado na época e da necessidade do governo por recursos para fechar as contas", diz um analista.

Do ponto de vista econômico e de gestão, porém, a ideia foi bem recebida pelo mercado. "De imediato, a proposta seria benéfica no sentido da governança corporativa e transparência", diz João Augusto Salles, da Lopes Filho & Associados.

Em um possível "road show" para abertura de capital da Caixa Econômica Federal, uma das principais preocupações dos analistas giraria em torno da qualidade da carteira de crédito, segundo o analista. Na contramão dos bancos privados, a Caixa cresceu fortemente em linhas de empréstimo de maior risco. Essa exposição se torna ainda mais sensível em um momento de atividade econômica fraca, que tende a elevar a inadimplência na carteira.

Hoje, parte da análise contábil da Caixa não fica totalmente clara para o mercado. Apesar de ter registado um índice de inadimplência considerado baixo, de 2,73% ao fim do terceiro trimestre, nos últimos dois anos, observou-se flutuações dos ratings da carteira de crédito do banco, ou seja, empréstimos que estavam classificados como "C", passaram a integrar o grupo de melhor qualidade, o que afeta diretamente as provisões. No fim de setembro, 92% do portfólio do banco estatal era avaliado como AA-C, de melhor qualidade.

A Caixa obteve um retorno sobre o patrimônio líquido de 17,8% no terceiro trimestre, não muito inferior aos concorrentes privados, mas analistas não veem esse nível como sustentável se o banco adotar os mesmos padrões das demais instituições.

Uma eventual mudança na classificação de crédito poderia levar a um aumento nas provisões e, por consequência, uma piora no resultado. Mas essa "limpeza" no balanço seria positiva no processo de preparação para a abertura de capital, porque eliminaria o risco de "esqueletos" e repiques de inadimplência no futuro.

"A grande exposição ao crédito imobiliário faz da Caixa um banco seguro, mas bem menos rentável depois dos ajustes", avalia o profissional de um banco. Outro ponto a ser definido até o IPO é a gestão dos programas sociais do governo federal que hoje estão a cargo da Caixa, segundo a fonte.

Além de melhorar a governança, a abertura de capital contribuiria para a adequação do banco às regras de capital (Basileia 3). Apesar de reportar um índice de Basileia de 15,3% ao fim de setembro, o banco precisaria de novos recursos para fazer frente ao crescimento futuro, segundo o analista da Lopes Filho.

Do ponto de vista dos investidores, o papel do banco deve ser visto como atrativo, na expectativa de que a Caixa siga o caminho do BB e da BB Seguridade. As duas instituições têm uma política generosa de distribuição de dividendos, com um percentual de 30% e 80% do lucro, respectivamente. Os analistas também veem potencial com a melhora nos indicadores de eficiência e de expectativa de ganho em áreas como gestão de fundos e seguros.