Na maior parte do ano, enquanto o presidente da Rússia, Vladimir Putin, alimentava o conflito com o Ocidente, a derrocada econômica teve um impacto limitado no cidadão comum russo.

Mas de repente o rublo em queda, pressionado por sanções e pelo recuo nos preços do petróleo, está reascendendo o temor de uma crise financeira do tipo que Putin achou que o país tinha superado.

Longas filas para adquirir produtos de valor elevado, como eletrônicos e carros, caixas eletrônicos sem dinheiro e relatos de pessoas negociando grandes somas de rublo por dólares confirmam o sentimento de vulnerabilidade na Rússia e os rumores de pânico sobre a alta dos preços.

A moeda enfraquecida se desvalorizou 20% em relação ao dólar ontem, para um valor historicamente baixo, apesar da alta dos juros para 17% feito de surpresa pelo banco central russo durante a noite. Ontem eram necessários 73,05 rublos para comprar um dólar.

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A alta dos juros pelo banco central aparentemente propaga o ônus de tentar evitar que a crise financeira atinja os bancos russos e a economia, enviando o país direto para recessão em 2015. Mesmo antes da alta, o BC informou que a economia poderia contrair até 4,7% no próximo ano, se o petróleo ficasse em US$ 60 o barril.

A questão é se as pressões crescentes se transformarão em um desafio político real para Putin, que desfruta de um grande apoio e de um controle sem paralelo sobre a política e a economia.

Os problemas econômicos podem fortalecer o já amplo apoio que o Kremlin possui em relação ao seu confronto com o Ocidente, já que Moscou culpa os inimigos pelas dificuldades. O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse ao canal de TV France 24 que "a Rússia não apenas sobreviverá" às sanções, " mas emergirá delas muito mais forte".

A taxa de aprovação de Putin, que foi impulsionada com a anexação da península da Crimeia, da Ucrânia, em março, se mantém nas alturas, acima de 70%, indicam pesquisas. E ele não tem opositores importantes no país. Além disso, a maior parte da população é mais inclinada a não se engajar em crises e tende a apenas torcer para que o melhor aconteça.

Pesquisas feitas em 7 de dezembro pela firma FOM mostram que cerca de 65% da população está notando um aumento mais rápido dos preços, mas que a disposição das pessoas para protestar permanece estável, em pouco mais de 30%, menor que no ano passado.

"Isso levará a uma perda de confiança nas autoridades [...] e poderá atingir o presidente", diz Alexei Makarkin, vice-diretor do Centro para Tecnologias Políticas, grupo de estudos de Moscou. "Isso enfraquecerá as autoridades, mas não fatalmente. As pessoas buscarão saídas individuais."

Até o momento, os russos mantiveram a esperança na recuperação do rublo, como aconteceu em 2009, depois de uma desvalorização que acompanhou a queda nos preços do petróleo.

O Kremlin pouco se pronunciou ontem sobre o rublo. A agência de notícias do governo, a RIA-Novosti, citou um porta-voz que abordou a turbulência no mercado e culpou "as emoções e os humores especulativos".

O site oficial do governo russo publicou a transcrição do encontro entre o presidente Putin e o chefe de uma empresa de lobby, sem citar a questão do rublo.

A mídia russa em todo o país, de São Petersburgo à Sibéria, citou casas de câmbio que ficaram sem moedas estrangeiras e que subiram as suas taxas. O Sberbank, o banco estatal russo de poupança, e o Alfa Bank, o maior banco privado da Rússia, informaram ter registrado uma forte demanda por dólares e euros.

"A demanda é enorme. As pessoas estão trazendo pilhas gigantescas de dinheiro. É uma loucura", disse Kamila Asmalova, gerente de uma agência do Sberbank. A agência ficou sem moeda estrangeira as 14h de ontem, disse ela.

Tatiana Malkova, recepcionista de uma agência do Raiffeisen Bank em Moscou, disse que a procura cresceu muito na segunda-feira à noite, à medida que o rublo caía. O banco ficou sem dólares e euros em seus caixas eletrônicos pela manhã, mas espera uma nova entrega hoje, disse ela.

Os bancos também estão se preparando para o impacto dos juros maiores. O gestor do fundo UBP, Pavel Laberko, disse que os bancos serão os primeiros a serem afetados pelo maior custo dos empréstimos, com instituições mais fracas tendo de suspender operações.

"Muitos participantes [do mercado] estão em condições sérias por conta desses eventos", disse o vice-presidente do conselho do Banco da Rússia, Sergei Shvetsov, a repórteres ontem. "A escolha que o banco central fez [de elevar os juros] era entre [algo] muito ruim e muito muito ruim".

A decisão da Rússia de manter seus mais de US$ 400 bilhões em reservas em vez de gastá-los defendendo o rublo indica que o país está se ajustando a um longo período de preços baixos do petróleo e de isolamento internacional, que está deixando as suas empresas de fora dos mercados ocidentais.

A presidente do banco central, Elvira Nabiullina, afirmou que o enfraquecimento do rublo é um "sinal para a economia russa se adaptar às novas condições" e continuar com o processo de substituição das importações.

Com o crédito mais caro depois da alta dos juros, o aumento dos preços deve atingir os consumidores. A Associação das Empresas de Varejo espera que os preços de alimentos e bebidas subam até 15% no primeiro trimestre de 2015, segundo seu porta-voz.

Nos últimos dias, os russos correram para gastar seus rublos desvalorizados em aparelhos eletrônicos e carros, que ainda não tiveram seus preços reajustados. A varejista de eletrônicos M.video informou que cerca de um terço das suas vendas atuais se deve a isso. Consumidores relataram longas filas nas lojas de móveis Ikea em Moscou, antecipando-se ao aumento de preços anunciado para os próximos dias.

A vice-primeira-ministra russa Olga Golodets alertou que a alta nos preços levará ao aumento do número de pessoas vivendo na pobreza, um raro reconhecimento do governo do custo econômico da crise iminente.

Maria Semyonova, uma dona de casa de 30 anos de Nizhny Novgorod, cidade a mais de 300 quilômetros de Moscou, disse que espera por tempos difíceis para pagar o seu financiamento habitacional e cuidar de seu filho com o salário do marido e com o seu auxílio-maternidade.

Ainda assim, disse que ela e seu marido concordam com Putin que o Ocidente é o culpado pela crise. "Acho que Putin está agindo apropriadamente, considerando a situação", disse.

Os principais apoiadores de Putin - pessoas mais pobres e funcionários públicos - não costumam ter economias e seus gastos são principalmente em rublos. A queda do rublo atinge fortemente a classe média que passa férias no exterior e tem economias.

Tatiana Boytsova, profissional da área de finanças de 28 anos de São Petersburgo, disse que seus colegas passaram 40 minutos em uma fila tentando trocar os rublos. Ela disse que ela e seus amigos estão cancelando viagens para destinos como Paris, Riga, Helsinki e Cracóvia mesmo que o dinheiro das passagens não possa ser devolvido, porque os custos no exterior seriam muito elevados.

Ela disse que não estava esperando muito do seu bônus de fim de ano e estava pensando até em vender um ingresso para uma ópera na sexta-feira. "No momento, dinheiro é melhor que ópera."

Alguns varejistas estavam elevando os preços ontem, depois de mantê-los sem reajustes por várias semanas enquanto liquidavam os estoques para não assustar os consumidores. Uma loja no centro de Moscou que vende produtos da Apple removeu temporariamente ontem as etiquetas com os preços antigos de computadores e acessórios, enquanto imprime novas etiquetas com preços, em rublos, até US$ 50 maiores.