Documentos apreendidos pela Operação Lava-Jato na sede da OAS, em São Paulo, sugerem que o dirigente da empreiteira, José Aldemário Pinheiro Filho, teria destinado US$ 1 milhão para a campanha eleitoral de Alejandro Sinibaldi à Presidência da Guatemala. Ele é o candidato do atual presidente, o general Fernando Otto Pérez Molina, do Partido Patriota (PP).

Pinheiro Filho, o 'Leo Pinheiro', está em prisão preventiva e é um dos 36 denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF). Ele tornou-se réu por corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro ontem, por decisão do juiz Sergio Moro.

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O manuscrito que integra o item 19 do auto de apreensão número 1123/2014 da PF, registra as anotações "Vivendas - desliga-se em 10/08" e "Eleições novembro/2015" - uma alusão à saída dele do cargo. Sinibaldi desligou-se para concorrer à eleição presidencial do ano que vem. Ele ocupou o ministério guatemalteco de 14 de janeiro de 2012 a 1º de setembro de 2014.

O escrito que sugere o financiamento da campanha aparece em seguida: 'marqueteiro Antonio Sola'. Depois, a anotação de '20 x US$ 50.000' e ao lado a cifra de US$ 1 milhão.

O espanhol Antonio Sola é descrito por cientistas políticos como o 'guru' do marketing político de campanhas eleitorais de direita na América Latina. Ajudou a eleger Felipe Calderón no México em 2006 e Michel Martelly no Haiti em 2011.

As anotações manuscritas de Leo Pinheiro apreendidas pela PF também trazem um apontamento curioso: 'Congr. 40 x 105 = 4000' e '25%. 75% pós'.

Para os investigadores, o valor e percentuais seguidos da palavra 'pós' podem indicar pagamentos destinados a congressistas da Guatemala.

Das notas escritas à mão pelo presidente da OAS, constam ainda o nome do presidente da Costa Rica, Luís Guillermo Solís, eleito em abril deste ano. Pode-se ler o apontamento: 'Solução Johni Araia 5 x 35= US$ 1.750'.

Johnny Francisco Araya Monge foi o adversário derrotado por Solís na eleição presidencial.

O material apreendido pelos federais na casa de Leo Pinheiro mostra que o presidente da OAS prospectava negócios bilionários com a construção de portos, aeroportos, sistemas de abastecimento de água, hidrelétricas, rodovias e Metrô nas Américas do Sul e Central, Caribe e África.

É o caso do relatório de análise de riscos 'Novos Negócios Cone Sul'. Trata da construção de um porto de águas profundas no Uruguai, com valor estimado em US$ 1,2 bilhão. "Por conta do movimento político dos portos sul do Brasil, não sabemos se o banco de desenvolvimento financiará o projeto, mas Uruguai pode ser financiado por instituições latino-americanas e bancos privados (todos com os quais conversamos possuem interesse)", anotou.

No Paraguai são listados 11 projetos com preço estimado em US$ 7,7 bilhões, com lembrete sobre o interesse de bancos de desenvolvimento ou privados em financiá-los.

As prospecções contam com um índice de risco, cujo máximo é sete. As obras para o aeroporto Arturo Merino Benetiz, no Chile, têm valor estimado em US$ 750 milhões e risco dois na escala de sete. O mesmo ocorre com a Hidrelétrica Neltume (valor estimado em US$ 650 milhões) e a Termelétrica Luz Minera, com preço na casa de US$ 1,5 bilhão.

Já a construção do sistema de abastecimento de água em Tegucigalpa Guacerique, em Hon- duras, é listada com risco seis.

O Metrô de Quito, no Equador, tem risco máximo: sete em sete. O valor é estimado em US$ 1,8 bilhão.

O tópico 'Novos Negócios África' trata da obra da rodovia de Malabo Luba, em Guiné Equatorial: "Risco 7/7, não possui dívidas com o Brasil". Cita o interesse de banco privado em financiar adiantamento de recebíveis, inclusive da obra em andamento. "Banco de desenvolvimento poderia financiar com estrutura de conta colateral ou carta de crédito", destaca a anotação.

Por fim, o tópico 'Novos Negócios Caribe' refere-se a projetos em Trinidad Tobago: "Banco de desenvolvimento pode financiar projetos no país. Bancos privados possuem interesse no país", destaca o documento apreendido pela PF na residência de Léo Pinheiro.

Procurada, a embaixada da Guatemala no Brasil disse que a solicitação foi repassada ao Ministério das Relações Exteriores daquele país. Não houve resposta até o fechamento desta edição.

Nas perguntas enviadas por e-mail, a reportagem questionou se a legislação eleitoral guatemalteca admite doações de estrangeiros não residentes a candidatos à presidência do país. E se a campanha do atual presidente Molina ou a do candidato a presidente Sinibaldi recebeu doação eleitoral, contribuição ou aporte financeiro de qualquer natureza do empresário José Aldemário Pinheiro Filho, ou de outros empresários brasileiros, e quando.

A reportagem não conseguiu contato com nenhum funcionário da representação consular da Costa Rica em São Paulo.

A assessoria de imprensa da OAS afirmou que não comentaria o assunto e não soube informar se José Aldemário Pinheiro Filho comunicou autoridades brasileiras sobre eventuais doações eleitorais ou pagamentos a candidatos a cargos políticos no exterior.