Após adiar por duas vezes a publicação de seu balanço financeiro referente ao terceiro trimestre do ano passado, a Petrobras encerrou ontem a reunião do Conselho de Administração sem a informação mais esperada pelo mercado: as baixas contábeis em seus ativos, como resultado dos casos de corrupção investigados pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Lava-Jato. Segundo fontes ligadas à estatal, o valor poderia superar os R$ 10 bilhões. Em reunião do Conselho de Administração, que durou mais de sete horas e foi presidida pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega em São Paulo, não se conseguiu chegar a um número total do pagamento de propina referente aos diversos projetos sob investigação.
A ausência desta informação aumenta o risco de que donos de títulos emitidos pela companhia exijam a antecipação do pagamento da dívida, o que poderia ter impacto significativo sobre o endividamento da empresa. Em dezembro, a estatal adiou a divulgação dos resultados financeiros alegando que precisava de mais tempo para calcular a baixa contábil. Na ocasião, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, afirmara que, com as novas delações premiadas de ex-funcionários da companhia e de executivos ligados a empresas fornecedoras da estatal, a Petrobras havia optado por analisar todos os depoimentos em conjunto.
Estatal vai consultar sec sobre metodologia
Segundo uma fonte próxima à estatal, durante a reunião do Conselho, foi feita uma longa apresentação do processo de apuração das baixas contábeis. Mesmo assim, segundo essa fonte, chegou-se à conclusão que seria melhor não apresentar estes dados agora diante da dificuldade de efetuar o cálculo. A decisão irritou Graça Foster, que defendia a publicação dos números. Segundo uma fonte, a reunião foi marcada por um clima de tensão. A dificuldade da estatal era separar os valores que efetivamente se referem à corrupção de outros aspectos que interferiram no andamento das obras, como ineficiência ou chuvas.
- Não tem como se fazer uma operação criteriosa do valor da corrupção. Não se chegou a um valor, então se decidiu não fazer a baixa agora, e divulgar somente o balancete do trimestre - disse a fonte, que pediu para não ser identificada.
De 52 projetos avaliados, houve redução no valor dos ativos em 31, devido aos desvios por corrupção e outras perdas. Mas 21 projetos acabaram tendo o valor dos seus ativos na contabilidade elevado, considerando investimentos e geração de caixa futura. Segundo fontes, a Petrobras deve fazer uma consulta à Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador do mercado americano) para saber qual a melhor metodologia para a baixa contábil.
Para o economista Thiago Biscuola, da RC Consultores, a eventual divulgação do balanço do trimestre sem a baixa contábil relativa à corrupção, além de frustrante, fará com que o mercado continue sem saber o tamanho do "rombo" nas contas da estatal. Até às 23h de ontem, o balanço não havia sido divulgado. As informação serão publicadas sem o parecer do auditor independente, no caso, a PricewaterhouseCoopers (PwC).
- O mais importante agora era a empresa mostrar maior transparência. Isso é muito ruim porque se continua sem saber qual o tamanho do "buraco" da corrupção nas contas da companhia - destacou Arthur.
Para Adriano Pires, sócio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), haverá a partir de hoje uma grande frustração no mercado financeiro. Segundo ele, um dos fatores a considerar é que admitir e contabilizar perdas no balanço poderia colocar em xeque a atuação dos membros do conselho e da diretoria da estatal:
- Ao divulgar uma perda em função da corrupção, a Justiça vai pedir mais esclarecimentos sobre como a estatal chegou a esse número e quem foram os responsáveis. É algo muito complicado. As ações da companhia vão sofrer ainda mais, como ocorreu hoje na Bolsa (ontem).
Segundo especialistas, a não divulgação das baixas pode se traduzir em queda nas ações da companhia hoje na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Ao longo do dia de ontem, os papéis da estatal oscilaram de acordo com a expectativa em relação à reunião do conselho e a uma série de rumores, que iam desde a indicação de novos nomes para o conselho até a redução do valor da baixa contábil. Durante a manhã, os papéis chegaram a cair mais de 4%. Durante a tarde, com a proliferação de rumores, passaram a subir. A melhora no preço do petróleo no mercado internacional também contribuiu para a alta das ações da Petrobras.
À ESPERA DO BALANÇO, AÇÕES SOBEM 2,62%
Após o sobe-e-desce, as ações da estatal fecharam em alta de 1,05% (ordinárias, com direito a voto; a R$ 9,64) e 2,62% (preferenciais, sem voto; a R$ 10,17). Na Bolsa de Nova York, os American Depositary Receipts (ADRs, recibos de ação negociados nos EUA) fecharam em alta de 3,04%.
Segundo Raphael Figueredo, analista da Clear Corretora, a companhia está tentando ganhar mais tempo para avaliar com cuidado o tamanho do rombo de forma a apresentá-lo da melhor forma possível ao mercado.
- A Petrobras sabe que não tem jeito, ela terá que divulgar o balanço e a baixa contábil de qualquer forma, porque tem dívidas para rolar. Caso ela não faça isso até o dia 30, estará nas mãos dos credores - afirmou Figueredo, que lembrou que sem o aval dos auditores, a companhia teria muita dificuldade para captar no mercado internacional e pagar um eventual pedido de antecipação do vencimento de dívidas. - O sinal que a companhia passa para o mercado é de que não anda bem. Isso aumentará ainda mais a ansiedade dos investidores.
Segundo Rogério Freitas, sócio na Teórica Investimentos, a maior parte dos rumores sobre a empresa se referia a mudanças na gestão e a medidas para aumentar a transparência.
Sustentada pela alta da estatal, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) anulou as perdas e fechou praticamente como começou, com alta de apenas 0,03%, aos 48.591 pontos.