Título: Dilma soube antes
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 02/07/2011, Economia, p. 16

Antes de estourar a última crise no Grupo Pão de Açúcar, entre Abilio Diniz e seus sócios da rede francesa Casino ¿ envolvendo a polêmica proposta de compra do Carrefour ¿, os diálogos do empresário brasileiro já reverberavam no Palácio do Planalto. Fontes do governo disseram que a presidente Dilma Rousseff teve uma conversa com o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, há cerca de cinco dias ¿ antes, portanto, de a operação ser anunciada oficialmente. Durante o diálogo, Coutinho comentou sobre a possibilidade do negócio e da possibilidade de participação do banco estatal, com a liberação de quase R$ 4 bilhões . Dilma teria pedido que ele tocasse o assunto, mas com cuidado.

O que o governo não esperava era que a repercussão do caso seria tão grande e negativa, com críticas duras da opinião pública sobre a atuação do BNDES em um acordo que beneficiaria um grupo de empresários que estão entre os mais ricos do país e que poderiam se financiar, sem problemas, no mercado privado. O resultado foi que, na noite de ontem, o banco admitiu a possibilidade de não mais entrar como sócio da fusão comandada por Abilio Diniz. Indiretamente, o BNDES começou a desembarcar do negócio por meio de uma nota, na qual assegurou que só apoiará o projeto se houver entendimento amigável entre todos os atores privados. Em outras palavras, não liberará um centavo enquanto Abilio Diniz e Casino não se entenderem.

O cessar-fogo não está, porém, nem perto de acontecer. Nos bastidores, existem rumores sobre uma possível vinda de Jean-Charles Naouri, presidente do Casino ao Brasil. Mas, em vez de uma longa conversa com Diniz, o plano do empresário francês é um encontro com Luciano Coutinho, do BNDES. Não bastasse tal desgaste, o Carrefour ainda não se decidiu sobre a proposta feita pelo empresário brasileiro. Na quinta-feira, o conselho administrativo da empresa se reuniu para avaliar os aspectos positivos e negativos da oferta de Diniz, mas não houve consenso. Um novo encontro será realizado, mas sem data definida.

Bate-boca Na última quarta-feira, os sócios de Abilio Diniz divulgaram uma pesada nota dizendo confiar nas leis brasileiras e dando início a uma guerra de comunicados¿ que, segundo analistas, se transformou em lavagem de roupa suja em público. "O Casino vem a público para afirmar que deseja apenas o pleno contínuo respeito à letra e ao espírito dos contratos em vigor. Estamos confiantes de que as leis e as autoridades brasileiras não permitirão que prevaleça qualquer ameaça ou estratagema destinado a violar direitos legitimamente constituídos de acordo com as leis do país", destacou a rede francesa.

Diniz rebateu e assegurou que a negociação entre o Pão de Açúcar e o Carrrefour não em ilegalidades, ao contrário do que seus sócios da Casino afirmam. "Temos a convicção de que todas as negociações foram de forma absolutamente legítima, segundo a legislação brasileira, os acordos de acionistas e os princípios da ética comercial", afirmou. Mas não é isso que pensam os franceses, que se sentiram traídos com a negociação com o Carrefour às escuras. Há uma sensação de que mesmo se o Casino ganhar as próximas batalhas judiciais contra Abilio Diniz, as relações entre os sócios estará abalada para sempre.

Alta de 12,17% O anúncio da proposta de compra do Carrefour fez as ações do Pão de Açúcar dispararem na Bolsa de Valores de São Paulo. Ontem, tiveram alta de 1,16 %. No acumulado da semana, os papéis da empresa foram os que apresentaram maior valorização no pregão, com alta de 12,17%. Nem mesmo as rusgas de Abilio Diniz com o sócio Casino desanimaram os investidores.