A alta do dólar e a queda dos preços das commodities, que têm gerado alívio para os consumidores dos Estados Unidos, estão desnorteando os bancos centrais de outras regiões ao alargar a distância entre a revigorada economia americana e a dos países da Europa e Ásia.
O dólar está subindo em relação às moedas de todo o mundo. Ontem, ele manteve a alta em relação ao iene, sustentando a maior cotação em sete anos e, na quarta-feira, atingiu um pico de dois anos ante o euro. A moeda americana também avançou em relação ao real, ao dólar australiano e à rupia indiana e continua batendo recordes na Rússia, levando o banco central a intervir para amparar o rublo.
A valorização do dólar têm intensificado o declínio dos preços das commodities, incluindo alimentos, metais e, em especial, o petróleo, que já recuou quase 40% desde meados de junho. O crescimento lento na Europa e na Ásia vem minando a demanda por esses bens e deixando os mercados inundados com um excesso de oferta. A maioria das commodities é cotada em dólares, de forma que os consumidores e empresas fora dos EUA veem seu poder de compra encolher quando suas moedas enfraquecem.
Essa tendência apresenta novos desafios para os formuladores de políticas na Europa e no Japão, que lutam para preservar uma minguada recuperação econômica e combater a inflação baixa. Os bancos centrais estão cogitando - ou adotando - medidas drásticas que vão desde taxas de juros negativas à compra de bilhões de dólares em títulos de dívida. Ontem, durante sua reunião mensal, o Banco Central Europeu discutiu a possibilidade de recorrer à compra de ativos para estimular a economia (prática chamada de relaxamento quantitativo), embora tenha decidido esperar até o início de 2015 para reavaliar suas políticas, disse Mario Draghi, o presidente do BCE.
Mas a queda abrupta do preço do petróleo - o produto de importação mais caro para muitos países - está reduzindo a eficácia de medidas para gerar inflação e fortalecer a economia.
Indicadores divulgados na quarta-feira mostraram uma desaceleração mais acentuada na atividade do setor privado da zona do euro do que a estimativa inicial. O índice composto de gerentes de compras, que monitora a saúde do setor industrial e de serviços no bloco, foi revisado de 51,4 para 51,1 em novembro pelo provedor de dados Markit. Por outro lado, o Federal Reserve, ou Fed, o banco central americano, divulgou melhores perspectivas econômicas no relatório "Livro Bege", citando a gasolina mais barata e um aumento no consumo.
No próximo ano, a economia dos EUA deve crescer 3,1%, enquanto a estimativa para a zona do euro é uma expansão de 1,3%. Já o Japão deve crescer apenas 0,8%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.
Muitos investidores dizem esperar que a divergência de perspectivas entre os EUA e outras grandes economias continue a produzir grandes oscilações nos mercados financeiros. O euro caiu um total de 1,3% ante o dólar na terça e quarta-feira em antecipação à reunião de política monetária do BCE, mas subiu 0,6% ontem com a notícia de que o banco central adiou um possível relaxamento quantitativo.
A medida, se implementada em 2015, provavelmente continuará pressionando o euro para baixo porque aumentaria a possibilidade de que o BCE imprima mais dinheiro e que os rendimentos dos títulos de dívida europeus caiam.
O iene, por sua vez, perdeu força depois que o Banco do Japão surpreendeu os mercados ao expandir as compras de ativos em sua reunião de outubro.
O Fed, ao contrário, encerrou seu programa de compra de títulos de dívida em outubro e deve elevar os juros no próximo ano, o que aumenta o atrativo do dólar.
"As condições são propícias para uma alta de vários anos do dólar", diz Eric Stein, um dos diretores de renda fixa global e gestor de portfólio da Eaton Vance Management, que administra US$ 12,6 bilhões da carteira de US$ 297 bilhões da empresa.
O impacto do dólar mais forte pode ser conferido na grande fila de navios aguardando dias para descarregar as importações de diversos produtos nos portos americanos de Los Angeles e Long Beach. Com o preço da gasolina em queda, os motoristas americanos estão comprando mais utilitários esportivos e picapes. As vendas de carros e caminhonetes nos EUA, de fato, atingiram seu nível mais alto desde novembro de 2003.
O contraste com os consumidores de outros países é gritante. O Índice de Commodities da Bloomberg, que acompanha 22 mercados, caiu 11% este ano quando expresso em dólares, para o nível mais baixo em cinco anos. O mesmo índice registra queda de só 0,3% em 2014 quando convertido para euros. Em ienes, ele avançou 1,5% no ano.
Isso significa que os preços do combustível caíram 16% nos EUA em relação ao mesmo período um ano atrás, de acordo com a AAA, firma que monitora o setor de viagens rodoviárias. Mas o preço da gasolina em euros caiu apenas 6,8% para os motoristas alemães, de acordo com dados da Comissão Europeia. As empresas de viagens receiam que um dólar mais forte forçará os clientes fora dos EUA a reduzir seus planos de férias.
É preciso uma grande mudança no mercado de câmbio para afetar as commodities, com os preços em cada mercado podendo ser alterados por fatores que vão do clima a eventos geopolíticos e avanços tecnológicos. No entanto, a correlação entre o valor do dólar e o preço das commodities cresceu nos últimos meses, à medida que mais investidores passaram a ver uma conexão entre os dois.
O Índice de Commodities Bloomberg manteve uma correlação com o índice do dólar da ICE de cerca de -0,95 nos últimos 100 dias, ou seja, os ganhos do dólar estão estreitamente alinhados com a queda nos preços das commodities. Uma leitura de 1 negativo indica uma correlação inversa perfeita, enquanto 0 indica que não há correlação.
A relação entre o dólar e os preços das commodities é "quase instantânea", diz Julian Jessop, economista-chefe global da Capital Economics. "Se o dólar sobe 1%, então isso é 1% mais libras esterlinas ou ienes [...] que você pode precisar para pagar suas compras de commodities."
É verdade que o dólar mais forte também prejudica os exportadores dos EUA, aumentando seus custos de produção em relação aos dos concorrentes estrangeiros e reduzindo o valor do lucro gerado no exterior quando convertido em dólares. A International Business Machines Corp. e o McDonalds Corp., por exemplo, citaram a alta do dólar como um fator que prejudicou seus resultados.
Ainda assim, muitos investidores esperam que o dólar continue a se fortalecer em 2015 e os preços das commodities a cair. Os especuladores, incluindo fundos de hedge, mantinham um total de US$ 48,2 bilhões em apostas otimistas sobre a alta do dólar até 25 de novembro, contra US$ 7,9 bilhões em 1º de julho, segundo a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA.
No mesmo período, os gestores de recursos reduziram suas apostas líquidas de que os preços do petróleo subiriam 65%, passando de US$ 34,8 bilhões para US$ 12 bilhões.
"É difícil achar uma commodity que tenha um desempenho excepcionalmente bom num ambiente de dólar forte", diz Bill O'Grady, estrategista-chefe de mercado da Confluence Investment Management, que administra US$ 2,5 bilhões. Ele diz que apostou num dólar mais forte em fundos negociados em bolsa e espera que os preços do ouro, cobre e bens agrícolas caiam.