Demissões crescem no período entre dezembro e janeiro porque vendedores provocam desligamento para embolsar benefícios e passar o verão descansando. Alguns só voltam ao mercado depois do carnaval
Mesmo com os índices de desocupação nos menores níveis da história, o seguro-desemprego não para de crescer. Nos últimos 12 meses encerrados em outubro, as despesas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) cresceram 15,5%, acima do dobro da média anual verificada nos últimos três anos. O ônus não é apenas para os cofres públicos. Para empresas do varejo, que têm concentrado boa parte das demissões, o pagamento de multas rescisórias tem sido um peso cada vez maior.

A proximidade do Natal faz as vendas atingirem o melhor patamar do ano. Mas, por incrível que pareça, a necessidade de dispensar funcionários também aumenta. E os responsáveis por isso são os próprios trabalhadores. Alguns esperam janeiro para cavar uma demissão e aproveitar férias de vários meses. Outros se dão por satisfeitos antes mesmo de o Papai Noel chegar. Há, ainda, os que buscam embolsar os abonos pela saída para reforçar o caixa, mas, em afronta à lei, continuam atuando em vendas sem carteira assinada.

"Trabalho há oito anos no varejo e é sempre a mesma coisa. Muitos se aproveitam da experiência profissional para sair e retornar ao mercado de trabalho depois das festas de fim de ano e do carnaval. Geralmente, eles começam a fazer "corpo mole" pouco depois da metade do ano", conta um vendedor de uma loja de eletrodomésticos, que não quis ser identificado. Ele afirma que, somente neste mês, três funcionários foram mandados embora da loja onde trabalha por esse motivo. "E parece que outros dois estão querendo a mesma coisa", acrescenta.

Negar-se a atender clientes ou prestar um mau serviço são algumas das práticas dos que se aproveitam da "farra do seguro-desemprego". "Em geral são jovens que desejam viajar à cidade natal para esbanjar o dinheiro fácil com família e amigos, como se estivessem em férias prolongadas", relata o vendedor.

Se dezembro já registra aumento das dispensas, em nenhum outro mês do ano o gasto com rescisões cresce tanto quanto em janeiro. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que, desde 2007, as demissões sem justa causa cresceram na passagem de dezembro para janeiro em cerca de 25%. Mas, em janeiro passado, houve uma explosão: o aumento foi de 42% em relação ao último mês de 2013. "E não se podem culpar as contratações temporárias, que são encerradas sem multa", destaca o economista da CNC Fábio Bentes.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci Júnior, avalia que, no seu setor, o problema é até mais grave. "O trabalhador pressiona a demissão não para ficar em casa ou para viajar, mas sim para conseguir outra posição. O aquecimento da demanda de fim de ano leva muitos empresários ao desespero. Por isso, aceitam contratar alguém que está no seguro-desemprego sem assinar a carteira", explica. Segundo ele, o empresário sente-se refém tanto na dispensa quanto na contratação. "Se não demite, corre até o risco de o funcionário colocar alguma coisa na comida do cliente de forma proposital", emenda.

Solmucci nota que isso representa um custo pago por toda a sociedade. "Em tempos de denúncias de corrupção, as pessoas precisam ter consciência de que o mau uso do dinheiro público retarda investimentos na educação, na segurança pública e na saúde. E isso pode até tirar vidas", diz. E chama atenção para as implicações jurídicas dessa atitude: "É algo tão grave quanto qualquer ato criminoso".

No varejo, 63% dos trabalhadores têm até dois anos no corrente emprego. O número de trabalhadores atuando há mais de dois anos para o mesmo patrão não chega a 15%. Das atividades de alta rotatividade, 49,9% dos almoxarifes e armazenistas têm menos de 12 meses no emprego atual. Entre os operadores de caixa, 48,6% estão há menos de um ano, seguidos por vendedores (46,4%) e escriturários, agentes, assistentes e auxiliares administrativos (41,6%). Juntas, essas ocupações respondem por 53% da força de trabalho do setor. Nessas profissões, 44% têm entre 18 a 24 anos. Cerca de 70% têm o nível médio completo e, em 2013, recebiam um salário médio de R$ 1.097.

Prática sem futuro

Os dias podem estar contados para quem abusa do seguro-desemprego, tanto por razões de mercado quanto por medidas que o governo estuda. Com a perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 0,18%, o risco de quem deixa sua vaga não retornar a curto prazo é cada vez maior.

Em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,5% e foram gerados 2 milhões de postos de trabalho, a taxa de rotatividade encerrou o ano em 3,5%. O índice tem registrado quedas progressivas: em 2011, cedeu para 3,4%, e, nos últimos dois anos, caiu 3,1% (2012) e 2,7 (2013), respectivamente.

"A atratividade na utilização desses recursos temporários como forma de renda será menor na medida em que esses trabalhadores perceberem maiores dificuldades de recolocação no mercado de trabalho, o que já está ocorrendo", avalia o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ele se diz preocupado com o cenário. "A precarização do mercado de trabalho pode levar algumas dessas pessoas à informalidade", complementa.

O especialista em mercado de trabalho Carlos Alberto Ramos, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), acredita que, além dos riscos provocados pelo desaquecimento, os trabalhadores que abusam da rotatividade terão problemas a longo prazo. "Quem muda muito de emprego propositalmente fica com o currículo marcado. Para os empresários, isso é um mau sinal. Não é uma estratégia muito inteligente se o empregado almeja um posto de boa qualidade", pondera.

Para Ramos, aspectos culturais impactam na mentalidade do trabalhador. "Em um país como o Japão, onde um jovem quando entra em uma empresa, com 18 ou 20 anos, e fica até se aposentar, ele viabiliza ao empresário mais segurança para que se faça investimento em sua formação profissional. No Brasil, isso dificilmente ocorre. Se o patrão acha que o funcionário não vai permanecer muito tempo, por já ter tido más experiências, ele não vai investir", analisa.

Em 26 de novembro, o Correio adiantou que o governo pretende reduzir as despesas com benefícios trabalhistas. O objetivo é reduzir o número de parcelas do seguro-desemprego a partir do segundo pedido do benefício. A medida deve ser tomada pela nova equipe econômica como um dos medicamentos para reduzir os gastos e sanar o rombo nas contas públicas. Hoje, quem é demitido tem direito a receber entre três e cinco parcelas.

Elas poderão cair para duas a quatro, na segunda solicitação, e para uma a três, no máximo, no caso de um terceiro requerimento. Também está em discussão o aumento do período de carência entre um pedido e outro, que atualmente é de 16 meses. Questionado sobre o aumento no custo com os desembolsos, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) não respondeu.

Os investimentos nos departamentos de recursos humanos têm sido alternativas para estancar os prejuízos com demissões. Uma das soluções encontradas em uma loja de calçados foi promover nas seleções provas e redações. "Em setembro passado, mandamos um funcionário embora. Ficamos reféns desse tipo de situação, mas, felizmente, temos enfrentado menos problemas neste ano", ressalta a gerente Nilcelene Soares.

Dedicação

Gerente de uma loja de artigos esportivos, Carlos Eduardo Souza recebe, em média, 40 currículos por dia. Todos passam pelo departamento de pessoal, para só então retornar às mãos dele. "Muitas pessoas com esse tipo de perfil falam mal da empresa e tentam contaminar os outros trabalhadores. Mas quem não tem comprometimento não fica", afirma. Há casos em que os comerciantes recebem currículos em que, nos últimos 10 anos, o trabalhador passou por oito empresas.

Há 26 anos no setor de supermercados, Givanildo de Aguiar é gerente de uma loja e conta que começou como empacotador. "O cargo que ocupo hoje veio com muita dedicação e esforço. Quem se mostrar motivado e se adaptar às regras têm tudo para ficar", afirma. Para quem estiver insatisfeito e não quiser perder prestígio no mercado, a dica é ser transparente com o empregador. "Não adianta fazer "corpo mole". É muito melhor para todas as partes fazer uma rescisão de forma amigável e correta. As pessoas têm todo direito de largar o emprego, mas é importante deixar as portas abertas", garante.