Planalto sinaliza a aliados de que as indicações políticas para a Esplanada serão feitas apenas após a eleição para a Presidência da Câmara, em fevereiro. Canetadas de Dilma terão influência na candidatura de Eduardo Cunha
Um dia depois de o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Pepe Vargas, dizer que o governo não interfere em questões administrativas da Câmara dos Deputados, como a disputa pela Presidência da Casa, aliados do governo receberam a sinalização de que a nomeação de cargos do segundo escalão somente sairá depois do resultado da eleição. Os governistas também contam com o apoio de ministros com trânsito no Congresso, como Cid Gomes (Pros), da Educação, e Gilberto Kassab (PSD), das Cidades, para ajudar a evitar que o favoritismo de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se confirme. Além de Cunha, os deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e o Julio Delgado (PSB-MG) são candidatos a comandar a Câmara pelos próximos dois anos.
O entendimento dentro do Planalto é que uma das prioridades do governo é conseguir domar o Congresso em 2015. Interlocutores da presidente Dilma Rousseff dizem que ela sabe da importância que cada um dentro da Câmara e do Senado terá para não tornar o ano, marcado pela crise econômica, ainda mais difícil e permitir que ela toque as reformas que considera essenciais para o segundo mandato. "A presidente sabe que esse governo não pode errar", afirma um interlocutor palaciano. Segundo ele, o governo vai fazer tudo que estiver ao alcance para evitar a vitória de Eduardo Cunha. A fama dele de dar trabalho ao governo, assim como a forte lembrança de já ter anunciado outra vezes independência na Casa com relação a matérias em votação no plenário, pesam na decisão do governo de reforçar o combate à candidatura do peemedebista.

Nos bastidores, há a interpretação de que uma das armas que o governo tem em mãos para negociar apoio com os partidos são os cargos do segundo escalão. Esse mesmo argumento já era usado no fim do ano passado, quando a presidente desenhava a reforma ministerial e Cunha tinha anunciado a candidatura. Um peemedebista tradicional acreditava que o governo colocaria a presidência da Câmara no bojo das negociações. A ideia, entretanto, não foi levada a cabo na ocasião. Para não congelar a reforma do andar de baixo da Espalnha, cargos com cunho mais técnico que político iniciarão as nomeações. Entre esses está a esperada mudança nos bancos públicos. "As conversas estão bem adiantadas, só falta bater o martelo", diz um assessor palaciano sobre o destino do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

Estratégia

Por outro lado, o governo investiu na formação de uma Esplanada com nomes de peso no trânsito no Congresso para facilitar o diálogo com os parlamentares. A habilidade política pesou na escolha de Eliseu Padilha para a Secretaria de Aviação Civil e de Jaques Wagner para a Defesa, além de Cid Gomes e Gilberto Kassab. Também entram nessa conta a permanência de ministros como Aloizio Mercadante, da Casa Civil, Miguel Rossetto, realocado na Secretaria-Geral, e Ricardo Berzoini, agora nas Comunicações. Na avaliação de aliados, Cid e Kassab despontam pelo trânsito político e fidelidade. Ambos articulam a criação de uma frente de sustentação ao governo. No fim do ano passado, Cid chegou a dizer que essa frente ajudaria a atenuar a chantagem. "Penso que esse movimento, de ter uma frente ou um partido de centro para além do PMDB e um partido ou frente à esquerda, ajuda na governabilidade e reduz o espaço da pressão que muitas vezes beira até a chantagem", afirmou.

Uma das estratégias de aliados é fechar um acordo de rodízio com os peemedebistas. Nesse caso, o partido ajudaria a eleger o PT no primeiro biênio e os petistas fariam o mesmo por Cunha em 2017. Embora há quem diga que o peemedebista daria ainda mais trabalho ao governo nesses dois primeiros anos, essa jogada também ajudaria a garantir a paz no Planalto. A justificativa é que, como ele não sabe o futuro, ficaria mais calmo. Outra possibilidade seria a de trocar o candidato do PMDB por um nome mais amistoso ao Planalto.

Defensores da candidatura de Cunha reagem a essa proposta. "A candidatura do PMDB foi construída ao longo do tempo. Não pode ser trocada. São características pessoais que estão em jogo, é uma pessoa que cumpre compromisso e respeita o regimento", diz um peemedebista articulador do correligionário. Na opinião dele, não há manobra capaz de tirar Cunha da disputa. "Daqui para frente só vai ter vazamento de informações sem confirmação, como essa de que ele foi citado na Operação Lava-Jato para minar a candidatura. Isso não nos abala. Estamos unidos em torno dele", arremata.

Piloto do AeroDilma indicado para o STM

O tenente-brigadeiro-do-ar Joseli Camelo deixou ontem a Secretaria de Coordenação e Assessoramento Militar do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência com a indicação para a vaga da Aeronáutica no Superior Tribunal Militar (STM). Camelo era o responsável pelos voos da presidente Dilma Rousseff e estava no cargo desde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, a indicação foi assinada ontem pelo comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. A vaga ficará livre com a aposentadoria do ministro José Américo, no dia 13.

Reunião com ministros no dia 27

A presidente Dilma Rousseff marcou para o próximo dia 27 a primeira reunião ministerial do segundo mandato, com todos os integrantes do primeiro escalão do governo. A reunião será no Palácio do Planalto e precederá a viagem presidencial para a Costa Rica, onde participará da cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), dia 28. Ontem, a presidente sancionou leis que criam cinco datas comemorativas no país. Uma delas é em homenagem ao Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil e será celebrada anualmente em 24 de fevereiro.

De olho no andar de baixo

Confira o que está no radar dos partidos que formam a base do governo

PMDB

» Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), atualmente sob comando do PTB, mas vinculada ao Ministério da Agricultura, chefiado pela ministra da Agricultura, Kátia Abreu

» Setor elétrico, sob o leque do Ministério de Minas e Energia, comandado pelo peemedebista Eduardo Barga

» Embratur, sob o comando do PCdoB, mas é vinculada ao Ministério do Turismo, chefiado pelo peemedebista Vinícius Lages

» Infraero, comandada pelo PT, mas sob o guarda-chuva da Secretaria de Aviação Civil, do ministro do PMDB, Eliseu Padilha

» Segundo escalão das pastas comandadas pelo partido, Agricultura, Pesca, Minas e Energia, Aviação Civil, Turismo e Portos

» Escritórios e superintendências regionais

PR

» Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Dnit), ligado ao ministério do partido, o dos Transportes, o órgão já foi comandado pelo PR

» Valec, atualmente dividida com o PT

» Segundo escalão dos Transportes

PP

» Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), o órgão está sob comando do PT, mas é ligado ao Ministério da Integração, chefiado por Gilberto Occhi, do PP

» Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), atualmente com o PT, mas com resquícios de Pros, e também vinculada ao ministério de Occhi

» Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), sob comando do PT e também ligado à Integração

» Segundo escalão da Integração Nacional

» Superintendências regionais, como a Sudene, de desenvolvimento do Nordeste

PRB, PDT, PCdoB e Pros

» Segundo escalão das pastas em geral

» Escritórios e superintendências regionais