O consumidor deve preparar o bolso, porque a inflação não dará trégua nos três primeiros meses do ano. Entre os economistas, é consenso que, no primeiro trimestre, a carestia deve ultrapassar os 2,25%, metade da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para todo o ano, de 4,5%. Somente em janeiro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deve cravar uma taxa maior que 1%, na estimativa de diversos analistas.
Esse resultado levaria o indicador, em 12 meses, a REGISTRAR um resultado próximo de 7%, acima do limite de tolerância fixado pelo governo, de 6,5%. As apostas do mercado são baseadas nas pressões inflacionárias que virão com o reajuste de preços administrados sinalizado pelo governo. Muitos avaliam que os reajustes das tarifas de energia elétrica, das passagens de ônibus e a menor oferta de alimentos no período de entressafra pesarão no bolso dos brasileiros.

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, a inflação de janeiro chegará a 1,12%, acumulando alta 7% em 12 meses. Ele ressaltou que, entre outros fatores, a implantação do sistema de bandeiras tarifárias para as contas de luz, que antecipa o repasse dos custos para as tarifas, levará a carestia a subir 2,5% no primeiro trimestre. Além disso, Goldfajn prevê a elevação da Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico (Cide) de zero para R$0,14 por litro de gasolina, o que resultaria numa alta de 7% nos preços na bomba. "Para 2015, elevamos a projeção para o IPCA de 6,5% para 6,9%, em razão da maior pressão dos preços administrados", destacou.

O ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com a recomposição de tributos, como o Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), também pesará na carestia, comentou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. Nas contas dele, a inflação no primeiro trimestre chegará a 2,4% e deve encerrar o ano em 7,1%. "O Banco Central está consciente desse cenário, que é um efeito corretivo dos erros da política econômica adotada em anos recentes. O importante é colocar a casa em ordem para que em 2016 o país possa dar sinais de retomada do crescimento", observou.

Juros

Com a alta da inflação, analistas avaliam que o Banco Central (BC) manterá o ritmo de alta da taxa básica de juros (Selic), na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) marcada para a próxima semana. O diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, acredita em aumento de 0,5 ponto percentual, o que levaria a Selic para 12,25% ao ano. Ele não descartou a possibilidade de que o ajuste chegue a 0,75 ponto. "Se isso ocorresse, o Banco Central sinalizaria que está atento e vigilante à inflação", disse.

Na opinião da economista-chefe XP Investimentos, Zeina Latif, a comunicação recente do BC sugere que a elevação será de 0,5 ponto percentual. "Nesse momento de ajustes na economia, o governo precisa ser parcimonioso. Temos pressões de tarifas administradas e do câmbio. Mas não há um fato novo que nos leve a crer que a correção será maior", explicou.

A todo vapor

O ano de 2015 já começou com a carestia em aceleração. Segundo informou ontem a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) avançou 1,28% na segunda quadrissemana de janeiro, após alta de 0,96% no período imediatamente anterior. Segundo a FGV, seis das oito classes de despesa que compõem o índice apresentaram acréscimo em suas taxas. A maior contribuição partiu do grupo Educação, Leitura e Recreação - de 0,79% para 1,93%. O IPC-S registra a variação dos preços em períodos sucessivos de quatro semanas.