Metalúrgicos da Volkswagen, da Ford e da Mercedes-Benz fizeram ontem no começo da manhã uma passeata pela Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP), que terminou com uma manifestação contra a demissão de mais de mil trabalhadores na semana passada. Participaram 7 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, foram 20 mil, incluindo funcionários das três fabricantes de veículos e oito empresas de autopeças instaladas na região.

Os 13 mil operários da unidade Anchieta da Volkswagen estão em greve desde 6 de janeiro. Ao voltarem do trabalho depois de férias coletivas, eles ficaram sabendo da demissão de 800 companheiros. Segundo o sindicato, a tática de paralisação muda a cada dia: eventualmente, eles ficam na porta da fábrica, ou entram e cruzam os braços.

No caso da Mercedes, os trabalhadores não estão em greve, mas querem a reversão de 244 demissões de pessoas que estavam em regime de contrato temporário de trabalho. Ontem, os funcionários da empresa pararam para participar da manifestação, assim como os da Ford, no primeiro dia de trabalho após férias coletivas. No caso da multinacional norte-americana, não há demissões nem pauta de reivindicações.

Os funcionários da Volkswagen caminharam ontem por quatro quilômetros entre a fábrica onde trabalham, às margens da rodovia, e um centro municipal de formação de professores. Ali encontraram-se com os colegas da Mercedes, que saíram da fábrica de caminhões da marca em outro trecho da rodovia, acompanhados pelos representantes da Ford. Como os manifestantes ocuparam apenas parte das faixas de rolamento, o fluxo de veículos entre São Paulo e a Baixada Santista foi mantido.

Inaugurada em 1959 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, a fábrica da Volkswagen na Anchieta é uma das mais simbólicas do país. Ajudou a Região do ABC a tornar-se o maior polo brasileiro de produção de veículos, com um forte movimento sindical. A partir dessa base, surgiu em 1980 o PT e três anos mais tarde a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), ex-funcionário da Volkswagen, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da CUT, participou da manifestação de ontem. "A palavra de ordem "demitiu, parou" deve valer para todas as empresas", conclamou em seu discurso.

Ele afirmou que o país sofre consequências de problemas globais e que 2015 não será um ano simples, mas que as empresas, depois de terem ganhado nos períodos de bonança, não podem demitir ao primeiro sinal de queda nas vendas. Marinho disse, ainda, que se dispõe a servir de intermediário entre o sindicato e a Volkswagen - pretende procurar a empresa hoje.

O sindicato também foi comandado, na década de 1970, pelo ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, que foi procurado por intermédio de sua assessoria, mas não se manifestou. Wagner Torres, presidente da CUT, à qual o sindicato é filiada, está em férias. A presidente em exercício da entidade, Carmen Foro, líder de trabalhadores rurais, participou da manifestação de ontem na Anchieta, mas não retornou pedidos de entrevista, assim como o presidente do sindicato, Rafael Marques.

A Mercedes-Benz confirmou que os trabalhadores participaram do protesto e declarou que reconhece o direito de manifestação. A produção da fábrica de caminhões da empresa na Anchieta foi interrompida ontem. A Ford declarou que os empregados da fábrica de São Bernardo pararam ontem em solidariedade aos colegas de outras empresas.

A Volkswagen informou que mantém o comentário divulgado na semana passada, em que destaca a necessidade de cortar custos em sua operação no país, especialmente na fábrica da Anchieta. Segundo a empresa, é necessário eliminar mais 300 funcionários na unidade, onde alega pagar salários acima da concorrência.

Os emplacamentos de carros, caminhões e ônibus caíram 7,15% no ano passado, e no caso da Volkswagen a redução foi ainda maior, em torno de 15%. A empresa declarou ter firmado um acordo trabalhista com os funcionários em 2012, quando a expectativa era de que a produção brasileira de veículos alcançaria 4 milhões de unidades em alguns anos. Mas o baixo crescimento econômico e a queda nas exportações frustraram expectativas. A expectativa é de que a venda de veículos no Brasil neste ano fique estável sobre as 3,5 milhões de unidades licenciadas em 2014. A produção deve subir 4,1%, após queda de 15,3% no ano passado.

Lula? Descansando

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva descansa com a família desde o fim de ano e não pretende, por ora, comentar as demissões na Volkswagen. Lula foi presidente do então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo (mais tarde renomeado "do ABC") e comandou as históricas greves de 1979 e de 1980. Na primeira, a diretoria foi destituída pelo governo do general João Batista Figueiredo, com a nomeação de um interventor. No ano seguinte, Lula e outros sindicalistas foram presos com base na Lei de Segurança Nacional. Depois, fundaram o PT com intelectuais e políticos.

15,3%

Queda na produção de veículos no ano passado no Brasil