Título: Chávez vencerá eleição
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 04/07/2011, Mundo, p. 13
Vice garante que câncer não frustrará os planos do presidente de se manter no Palácio de Miraflores após 2012. Chanceler descarta metástase, desmente tumor no cólon e ataca oposição
Se depender das imagens divulgadas por um agência de notícias da Venezuela, das mensagens publicadas pelo próprio presidente no microblog Twitter e das declarações do governo, Hugo Chávez não só está vencendo o câncer, como praticamente assegurou sua candidatura nas eleições de 2012. "Que Juventude Bolivariana! Eu os vejo, eu os escuto, eu os vivo! Digamos com (Simón) Bolívar, 200 anos depois: "Vacilar é perder". Venceremos, garotada minha!", escreveu no Twitter o mandatário venezuelano, em Cuba. Uma hora depois, fez nova "aparição" na internet. "Aqui estou, fazendo meus exercícios diários e recebendo esse banho de amor que me chega da grande marcha da juventude! É a melhor medicina", relatou, também no microblog. Ele se referia à sua rotina em Havana e aos preparativos em Caracas para o Bicentenário da Independência da Venezuela, que será comemorado amanhã sem sua presença.
A emissora estatal Venezolana de Televisión exibiu um vídeo no qual Chávez aparece em uma de suas caminhadas diárias de 10 minutos, acompanhado das filhas María Gabriella e Rosa Virginia, e do chanceler Nicolás Maduro. As imagens são idênticas às fotografias difundidas pela Agência Venezuelana de Notícias. Os exercícios físicos leves seriam feitos sob recomendação médica e fariam parte do processo de convalescença. Maduro negou que o presidente sofra de câncer de cólon e detalhou as duas cirurgias às quais ele se submeteu: a primeira para extrair um abscesso pélvico durou quatro horas; a segunda, de pelo menos seis horas de duração, extirpou um "tumor maligno na região pélvica". O ministro das Relações Exteriores venezuelano descartou a retenção de informações sobre o estado do mandatário e criticou a oposição. "Deixem suas politicalhas, respeitem a saúde do presidente e o povo da Venezuela", exortou. Segundo Maduro, os antichavistas "não têm a capacidade de entender os problemas humanos e de respeitar o ser humano".
Sem sucessor Em entrevista ao jornal venezuelano El Universal, o vice-presidente, Elías Jaua, garantiu que Chávez está em pleno exercício de suas funções. "Sim, ele vai ser presidente novamente em 2012", assegurou. "A liderança de Chávez é determinante para a continuação da Revolução Bolivariana", emendou. Jaua também lembrou que "uma situação humana não levará o líder a falhar em seus princípios revolucionários".
Por e-mail, o opositor Diego Arria ¿ ex-governador de Caracas e ex-presidente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ¿ admitiu que nenhuma lei obriga Chávez a dar detalhes de sua doença. "No entanto, a Constituição estabelece que, sob determinadas condições (de saúde, por exemplo), ele deve separar-se do cargo", afirmou ao Correio. Segundo ele, tal cenário exigiria o conhecimento do diagnóstico da doença. "O fato insólito de que o presidente decidiu tratar-se e recuperar-se em Cuba torna ainda mais obrigatória a transparência", acrescentou (leia o Três perguntas para).
O próprio El Universal lançou ontem ainda mais polêmica sobre o câncer de Hugo Chávez. Médicos consultados pelo jornal explicaram que apenas os tumores muito grandes se convertem em abscessos. "Isso implica que as células cancerígenas alcançaram outros órgãos ou fizeram metástase óssea", atesta o diário. "Estatisticamente, o tumor abscessado é observado no câncer de cólon", acrescenta.
O chanceler Nicolás Maduro confirmou que o tumor retirado do corpo do presidente estava situado na mesma região do abscesso pélvico. E descartou que a doença tenha se espalhado. "Esse tumor cancerígeno foi detectado a tempo, (os médicos) conseguiram retirá-lo por completo. Iniciou-se um processo quase milagroso, ascendente, de recuperação física, de sua fortaleza, de sua saúde", explicou Maduro, em entrevista ao canal de tevê Televen. Ainda de acordo com o chanceler, os exames comprovaram que as células cancerígenas estavam restritas ao local do abscesso e "não no cólon ou no intestino". "Depois da segunda operação, começou um trauma difícil. A recuperação foi lenta nos primeiros quatro ou cinco dias", disse.
Caracas insiste que não há segredos sobre a saúde de Chávez. Como o senhor vê isso? Nós, venezuelanos, seguimos sem conhecer a realidade completa da situação da saúde do presidente. O próprio Chávez definiu em detalhe suas cirurgias, mas não disse em que parte de seu corpo ele foi operado. Menos ainda disse sobre o prognóstico de seu estado. Nenhum médico que o atende em Cuba disse uma palavra sobre a verdade. É incrível o fato de o chanceler e o ministro da Defesa terem opinado ¿ até pouco tempo, eles negavam a doença. Cuba não pode produzir um atestado médico objetivo, pois estão em risco os 100 mil barris de petróleo diários que a Venezuela envia à ilha, em troca de médicos e de treinadores esportivos. O cúmulo foi que Chávez chegou a afirmar que Fidel Castro foi quem o diagnosticou ¿ o que é falso, porque após visitar o Brasil e o Equador, ele voou a Cuba para operar em absoluto segredo.
Chávez tem condições de governar, mesmo a partir de Havana? É difícil afirmar isso. Mas o irmão mais velho de Chávez e governador de Barinas, Adán Chávez, muito ligado a Cuba, disse: "Temos que ter sempre além da opção eleitoral a saída armada, a fim de defendermos a revolução". Minha leitura é que ele antecipa que o irmão não estará em condições de competir.
Como o senhor vislumbra o chavismo e a Revolução Bolivariana com Chávez enfermo? A chamada revolução do século 21 tem só um líder: Hugo Chávez. Sem sua presença ativa, o colapso será inevitável. O endosso e o culto à personalidade dele custaram cerca de US$ 90 bilhões à Venezuela em subsídios e presentes de países e de organizações. Sua saída é o fim de seu projeto, com consequências na Bolívia, no Equador, na Nicarágua e, em menor medida, na Argentina. (RC)