Título: IPCA sobe 3,8% no primeiro semestre
Autor: Cristino, Vânia; Monteiro, Fábio
Fonte: Correio Braziliense, 08/07/2011, Economia, p. 10
Para analistas, alta de 0,15% em junho justifica mais juros. Índice, porém, não preocupa Mantega
Maria de Jesus tem optado por frutas baratas para escapar de reajustes
A inflação de junho, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou, mas não o suficiente para levantar dúvidas sobre a continuidade do arrocho monetário, prometido pelo Banco Central. O indicador subiu 0,15% no mês passado, abaixo dos 0,47% registrados em maio, mas acima do que era esperado pelo mercado. Só não foi pior porque os grupos alimentação e transporte registraram deflação de 0,26% e 0,61%, respectivamente. Embora o resultado mensal seja considerado baixo, os acumulados do primeiro semestre (3,87%) e dos últimos 12 meses (6,71%) mostram que o combate à carestia está longe de ser vencido, o que leva os analistas a darem como certo ao menos mais dois aumentos da taxa básica Selic em 0,25 ponto percentual, nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) de julho e agosto.
A certeza de que o aperto prosseguirá se justifica pelo caráter temporário dos baixos índices, segundo o economista Sílvio Campos Neto, da Tendências Consultoria. "A queda dos preços dos alimentos é sazonal e , na gasolina, houve apenas a devolução de parte das altas dos últimos meses", observou. Para ele, as baixas não se sustentarão e a inflação voltará a ficar pressionada, especialmente pelo setor de serviços ¿ fruto do consumo aquecido.
A estimativa da consultoria é de que o IPCA ultrapasse a barreira dos 7%, na comparação em 12 meses, em agosto. A única forma de levar a taxa para dentro das margens estipuladas (de até 6,5%) é o Banco Central aumentar os juros para 13% até outubro. Opinião idêntica tem Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora. "Não tem como o Banco Central sinalizar o fim do aperto monetário tão cedo", avaliou.
Ainda que a inflação dos alimentos tenha dado uma trégua ao bolso do brasileiro, poucos notaram o recuo. Itens que compõem a mesa da aposentada Adélia Ferreira D"Ávila, 58 anos, não tiveram seus preços reajustados para baixo. "Está tudo subindo. Para levar frutas, fica muito complicado. Isso sem falar na carne", reclamou. Já a pedagoga Maria de Jesus, 29, tem optado por comprar produtos mais em conta. "Frutas, como a banana, ficaram mais baratas. Outros subiram demais", observou.
Sono tranquilo E mesmo sacando produtos básicos do carrinho do consumidor, a carestia não tem atrapalhado o sono do chefe da Fazenda, Guido Mantega. Segundo declarou, o problema "não tira o sono nesse momento." Ontem, o ministro afirmou ainda que não há bolha imobiliária no Brasil e assegurou que a meta de inflação será cumprida. "Não há bolha no país. No setor imobiliário, os preços aumentaram porque os juros tinham permanecido estáveis durante muitos anos", declarou.
Além do IPCA, o Índice Geral de Preços Disponibilidade Interna (IGP-DI) também registrou resultado melhor do que em maio. O indicador, usado como corretor da dívida dos Estados com o governo caiu 0,13%, ante a alta de 0,01% no mês anterior. Foi a primeira queda mensal desde dezembro de 2009.
ONU CULPA BRASIL A agência da Organização das Nações Unidas para alimentação (FAO) acusou o Brasil pela alta do preço do açúcar no mercado internacional. De acordo com o órgão, a queda da produção nacional tem obrigado bancos centrais de vários países a subir os juros básicos. Dados divulgados ontem pela entidade alertam que os custos médios de alimentos estão 39% acima do mesmo período em 2010. O açúcar, segundo a FAO, aumentou 14% em junho. O Banco Mundial engrossou o coro contra o país e destacou que "níveis perigosos" nos preços alimentícios já fizeram com que 44 milhões de pessoas caíssem abaixo da linha da pobreza nos últimos 12 meses. Se o índice de preço da FAO subir outros 10%, mais 10 milhões podem entrar nessa situação.