Título: Europa aumenta os juros
Autor: Batista, Vera
Fonte: Correio Braziliense, 08/07/2011, Economia, p. 11

Preocupado com a corrosão do poder de compra do euro, o Banco Central Europeu eleva a taxa em 0,25 ponto, fixando-a em 1,5% ao ano

Em meio ao descrédito dos investidores com a possibilidade de contágio de outros países pela crise grega e ao mau humor pelo rebaixamento da classificação de risco de Portugal, o Banco Central Europeu (BCE) elevou os juros da Zona do Euro em 0,25 ponto percentual.

A taxa passou para 1,5% ao ano, com o principal objetivo de combater a inflação, que chegou a 2,7% em junho. "Continuaremos monitorando muito de perto todos os acontecimentos em relação aos riscos para a estabilidade dos preços", disse o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet. No que foi interpretado como uma crítica às agências de rating, ele ignorou os níveis mínimos da nota portuguesa e declarou que continuará aceitando os títulos da dívida como garantia nas operações de financiamento.

"Decidimos suspender a aplicação do rating mínimo em operações de crédito ao governo português", declarou Trichet. A decisão levou em conta o fato de Portugal ter aprovado um rigoroso programa de ajuste com a Comissão Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI). "Consideramos o programa apropriado", reafirmou Trichet, em Frankfurt. Na avaliação de Álvaro Bandeira, diretor da Ativa Corretora, as medidas já eram esperadas. "Nada demais. O BCE aumentou os juros dentro das expectativas, para baixar a inflação e incentivar o crescimento", destacou.

Para Eduardo Velho, economista-chefe da Corretora Prosper, o BCE precisava resolver um dilema: ou aceitava os bônus dos países com risco de calote ou colocava a moeda única europeia em xeque. "Foi uma ação estratégica para defender o euro", assinalou. A grande dúvida, no entanto, persiste: os analistas têm dúvidas se haverá, a curto prazo, mais alterações nos juros europeus, apesar de Trichet não prever nova subida nos próximos meses. "Difícil acreditar.

Trichet insistiu que continua observando muito atentamente a inflação na Zona do Euro. Isso pode significar muita coisa", disse um analista de uma corretora que não quis se identificar. As autoridades também estarão de olho na recuperação da economia.

Oligopólio Quanto às críticas às agências de rating, Velho lembrou que, há tempos, o mercado vem relativizando essas avaliações técnicas, pela defasagem constante das informações, embora as tenha incorporado em suas análises de investimentos. "O mercado é mais rápido que elas", afirmou. Na avaliação de Bandeira, as agências tentam recuperar a imagem. "Não identificaram, por exemplo, grandes problemas na crise de 2008", justificou. O papel delas, em nível global, foi questionado pelo presidente do BCE. Trichet condenou a "pequena estrutura oligopolista" formada entre as três grandes americanas ¿ Moody"s, Standard & Poor"s e Fitch.

Carlos Tavares, presidente da Comissão do Mercado e Valores Mobiliários (CMVM) europeia, assinalou que a classificação é uma "opinião de crédito e um elemento entre vários que os investidores levam em consideração". Após ter caído 3% no dia anterior, a bolsa de Lisboa avançou 1,80%. A de Londres se valorizou 0,86%. A de Frankfurt subiu 0,54%. E a de Paris ganhou 0,47%. A Bolsa de Valores de São Paulo seguiu tendência contrária. O Ibovespa caiu 0,57%, para 62.207 pontos, se descolando da Bolsa de Nova York, que teve alta de 0,74%. O dólar baixou 0,83%, cotado a R$ 1,557.

Baixa histórica O Banco da Inglaterra manteve os juros básicos no recorde de baixa de 0,5% ontem. Com isso, a autoridade monetária mostrou que está mais preocupada com a fraca recuperação econômica do que com o fato de a inflação estar acima da meta. A taxa está inalterada desde março de 2009, quando uma forte recessão e a ameaça de deflação levaram os bancos centrais ao redor do mundo a derrubar os encargos aos mínimos históricos para incentivar a retomada do crescimento. A política não tem funcionado na Europa.