Faz parte do jogo de cena falar grosso com os inimigos: o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, veio à posse de Dilma Rousseff e aproveitou um encontro casual com o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na cerimônia oficial realizada no Palácio do Planalto, para cobrar "respeito" da Casa Branca com o país. No dia seguinte, pediu "ajuda" à própria Dilma para enfrentar a crise venezuelana, atolada na queda dos preços do petróleo e na escassez de produtos básicos.

Nos bastidores, entretanto, a história é diferente: o estafe de Maduro vinha pedindo, com semanas de antecedência, um "empurrão" dos diplomatas brasileiros para aproximá-lo discretamente de Biden. O episódio se concretizou enquanto ambos esperavam para cumprimentar a presidente reeleita. Eles já estavam perto um do outro, numa sala reservada aos chefes de Estado e onde também se encontrava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando a atitude do uruguaio José Mujica se mostrou providencial. Mujica pegou Biden pelo braço e, sem cerimônias, levou-o diretamente ao chavista.

Quem assistiu à cena, a alguns metros de distância, relata que a conversa foi informal e descontraída. "As nossas relações não precisavam estar do jeito que estão", disse Maduro ao americano, sem elevar o tom nenhuma vez e demonstrando a intenção de "colocá-las nos trilhos". Biden ainda terminou com uma piada: "Se eu tivesse a sua cabeleira, já seria presidente dos Estados Unidos".

Na conversa com Dilma, no dia 2, a ajuda pedida pelo venezuelano teve como foco o desabastecimento de alimentos e remédios no país. Às vezes, conforme relatou Maduro, há dinheiro para comprar insumos, mas eles se perdem por causa do armazenamento inadequado nos portos e devido aos obstáculos enfrentados nos canais de distribuição.

Trata-se, segundo o diagnóstico feito posteriormente por assessores presidenciais, de um reflexo da desmobilização de empresas privadas na Venezuela e da dificuldade do Estado de ocupar esses espaços. Nas últimas semanas, empresas brasileiras já começaram a atuar de forma mais intensa para atender ao pedido.

Na avaliação do governo brasileiro, Maduro está na defensiva e o desabastecimento de produtos básicos terá papel crucial nas eleições legislativas, que ocorrem em outubro. O Congresso da Venezuela é unicameral e o PSUV, fundado pelo ex-presidente Hugo Chávez, detém maioria folgada - mas não os dois terços exigidos para reformas constitucionais.

Com a alta inflação e a economia em recessão, a aprovação de Maduro caiu 22%, um mínimo histórico, segundo apontou o Instituto Datanálisis - o mais respeitado do país - no início de janeiro. Se as eleições fossem hoje, conforme a leitura de observadores próximos de Dilma, a oposição teria boas chances de igualar ou até superar o governo na nova composição do Congresso.

O que não seria nada ruim, diz um alto funcionário do governo brasileiro, que raciocina da seguinte forma: enquanto o Legislativo funcionar como um espaço real de disputa entre governo e oposição, na Venezuela, evita-se que o embate se dê nas ruas.

No Itamaraty, não se espera que a oposição ressuscite os protestos do ano passado, mas aproveite a situação de escassez para fazer o governo "sangrar" nos próximos meses. Caso as manifestações voltem, o Brasil só agirá por meio da Unasul, como fez em 2014. Enquanto isso, se dispõe a fazer uma "ponte" para distensionar a relação entre Estados Unidos e Venezuela, o que não é novo. Há precedentes que remontam ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pelo menos um episódio é relatado por Matias Spektor, no livro "18 dias", no qual conta como FHC e Lula se uniram para conquistar o apoio de George W. Bush. No início de 2001, Bush e o então presidente tucano se encontraram no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. A pauta mais sensível era a criação da Alca e faltavam menos de quatro meses para a Cúpula das Américas, que seria realizada em Quebec, no Canadá.

Foi nesse contexto político que Bush disse a Fernando Henrique: "Não quero que Chávez enfie o dedo no meu olho". O americano temia constrangimentos por parte do venezuelano. Ao voltar a Brasília, o brasileiro telefonou para Chávez com o recado.

Combinaram, então, um sinal para que Fernando Henrique advertisse Chávez, caso ele subisse muito o tom nos discursos durante a cúpula. O brasileiro o avisaria com um gesto, espalmando as mãos na altura do queixo, como se estivesse rezando.

Semanas mais tarde, durante a cúpula, quem uniu as mãos sob o queixo foi Chávez, porque era FHC quem estava carregando nas tintas. Ainda segundo o relato de Spektor, o ex-presidente disse a interlocutores, tempos depois do encontro com Bush, que ficara chocado ao perceber que "tudo" o que o americano queria discutir com ele era a situação da Venezuela.

 

Itamaraty vive expectativa por "dança das cadeiras"

 

Após a troca de chanceler, o Itamaraty vive momentos de expectativa, com uma iminente "dança das cadeiras" em postos estratégicos no exterior. Um desenho inicial do rodízio nas embaixadas estava na mesa do ex-ministro Luiz Alberto Figueiredo quando ele recebeu, meia hora antes da nota distribuída pelo Palácio do Planalto na tarde de 31 de dezembro, a informação de que estava fora do primeiro escalão no novo mandato da presidente Dilma Rousseff. Boa parte da configuração deve ser mantida pelo ministro Mauro Vieira, mas ainda pode haver ajustes. Há mudanças praticamente certas. Figura importante no primeiro governo de Dilma, o embaixador Tovar Nunes assumirá a representação brasileira em Nova Déli, na Índia. Além de porta-voz da chancelaria e chefe de gabinete do ministério, nos últimos quatro anos, o currículo de Tovar tem passagens importantes - ele foi, por exemplo, um dos principais negociadores da malfadada Área de Livre Comércio das Américas (Alca) na década passada. Outro que está de malas quase prontas é Paulo César de Oliveira Campos, conhecido como POC, uma espécie de "sombra" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele chefiava o cerimonial da Presidência da República no governo Lula e foi premiado, no fim de 2008, com a embaixada em Madri. Agora, deverá seguir para Paris, hoje ocupada por José Maurício Bustani, que chega à idade da aposentadoria compulsória. Para o lugar de POC, há uma disputa intensa nos corredores do Itamaraty, mas o favorito é o subsecretário-geral de América do Sul, Antônio Simões, homem de confiança tanto de Dilma como de Lula. Com excelente trânsito nos países vizinhos, ele é conhecido como "Simões Bolívar", devido aos canais abertos de interlocução entre governos bolivarianos. Hoje o principal entrave à indicação de Simões para Madri é sua responsabilidade imediata no Mercosul, já que o Brasil preside o bloco, no primeiro semestre. Outras movimentações importantes estão prestes a acontecer. Eduardo Santos, assessor internacional do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e secretário-geral do Itamaraty na gestão do chanceler Luiz Alberto Figueiredo, já teve o pedido de "agrément" enviado ao Palácio de Buckingham para chefiar a representação brasileira em Londres. A nova carta no baralho é justamente o atual embaixador no Reino Unido, Roberto Jaguaribe, diplomata experiente e em ascensão - que estava praticamente certo para suceder Mauro Vieira em Washington. Na reforma ministerial, entretanto, a presidente resolveu "prestigiar" Figueiredo com o posto. Agora, procura-se um lugar de peso para Jaguaribe. Na América Latina, há menos vagas em aberto. O embaixador em Montevidéu, João Carlos de Souza Gomes, deve voltar ao Brasil e é cotado para representar o Ministério das Relações Exteriores nas relações com o Congresso Nacional. Sua substituição é incerta. Mudanças também podem ocorrer na embaixada do Brasil no México. Dois subsecretários, os embaixadores Hadil Vianna (Cooperação, Cultura e Promoção Comercial) e Ênio Cordeiro (Assuntos Econômicos), são apostas para assumir esses postos. Outro subsecretário, o embaixador Paulo Cordeiro (Política), está na lista dos favoritos para Lisboa.