
Antes de a União pensar na abertura de capital da Caixa Econômica Federal, precisa separar a atividade bancária das ações de governo promovidas por meio da instituição. Mas o risco real nesse caso é descobrir que, com as taxas reduzidas que cobra em empréstimos e serviços, a Caixa não dá lucro como banco.
Só quando age no papel de agente do governo.
Nos primeiros nove meses de 2014, a Caixa Econômica teve lucro de R$ 4,8 bilhões antes do pagamento de Imposto de Renda e CSLL. Mas esse resultado se explica essencialmente por Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), depósitos judiciais e loterias, e não pela atividade de concessão de crédito e prestação de serviços tradicional.
Para cuidar com exclusividade do FGTS, que tinha em outubro R$ 400 bilhões em ativos, a Caixa cobra 1% de taxa de administração dos trabalhadores e com isso ganhou ao longo de 2014 até setembro R$ 2,89 bilhões. Descontados os custos reportados de R$ 373 milhões, o lucro com a operação do fundo fica em R$ 2,51 bilhões.
Já a captação da Caixa por meio de depósitos judiciais teve saldo médio de R$ 47,3 bilhões neste ano, com custo contabilizado de 4,11% no ano até setembro, ante um CDI acumulado de 7,83% no mesmo período. A economia proporcionada por meio do funding mais barato foi de R$ 1,76 bilhão.
Só com esses dois fatores já se chega a um ganho de R$ 4,28 bilhões, suficiente para assegurar quase 90% do lucro antes de impostos obtido pela Caixa nos primeiros nove meses de 2014.
A análise do resultado com loterias é mais difícil, já que a Caixa aglutinou parte das despesas com lotéricas a partir de 2013 dentro da linha de gastos com "parceiros comerciais", o que impede uma precisão no cálculo.
A receita com casas lotéricas apontada no balanço foi de R$ 900 milhões de janeiro a setembro, enquanto o custo diretamente alocável pode ser estimado em cerca de R$ 300 milhões, com base na abertura de dados que era feita até o exercício de 2012, o que dá um resultado positivo de mais R$ 600 milhões.
Ainda que uma parte relevante da linha de despesas com "parceiros comerciais", no valor de R$ 1,58 bilhão, deva ter relação com as lotéricas, a Caixa tampouco discrimina as receitas de serviços e com operações de crédito que consegue capturar pelo fato de possuir as loterias como rede de distribuição, o que pode equilibrar a conta.
A cobrança de uma taxa proporcionalmente elevada para administrar o dinheiro dos trabalhadores no FGTS, a perda imposta pelos depósitos judiciais a quem reclama na Justiça e a obtenção de lucro com jogos de azar já poderiam ser questionáveis mesmo quando o lucro, no fim das contas, fica todo com o governo, que tem 100% do capital da Caixa.
Mas como lidar com esses pontos se o banco for transformado em sociedade de economia mista e tiver acionistas privados? Por outro lado, quem vai querer ser sócio da Caixa se essas atividades saírem do banco (ou ficarem menos rentáveis) e ela não der mais lucro? Isso sem falar no risco já apontado pelo crescimento acelerado da carteira de crédito do banco nos últimos anos, que já apresenta os primeiros sinais de deterioração, com reclassificações de rating, aumento de renegociações e venda de carteira podre.
Outro ponto relevante do modelo atual da Caixa - que se for mantido favoreceria os acionistas privados - tem relação com a estrutura de capital da instituição, que tem pouco mais de metade do patrimônio líquido (55%) formada por instrumentos híbridos que rendem TJLP ao governo.
Quando se observa o resultado da Caixa nos últimos 12 meses até setembro e se faz um cálculo de retorno sobre o patrimônio líquido médio, a rentabilidade fica em 12,6% (o cálculo considera lucro e remuneração de híbridos no numerador e capital próprio e híbridos no denominador).
É um nível baixo para um banco privado, mas aceitável para um estatal.
Ocorre que, no modelo atual, a parcela do patrimônio pertencente aos detentores de títulos híbridos (leia-se o Tesouro Nacional) foi remunerada por TJLP, a 5% ao ano, enquanto o "capital dos acionistas" (de novo o Tesouro Nacional) recebeu 23%. Como atualmente o Tesouro é o único nas duas pontas, essa discrepância entre risco e retorno não é um problema.
Mas em um cenário em que acionistas privados tenham direito a uma parte do lucro da Caixa, cabe a pergunta se faz sentido a União subsidiá-los, ao aceitar um retorno abaixo do que seria razoável no mercado nos títulos híbridos.
A Caixa foi procurada, mas não quis se manifestar.
Veto do BC põe em risco negócio entre BB e Cielo
Carolina Mandl

O Banco Central (BC) vetou o reconhecimento de um lucro líquido de R$ 3,2 bilhões por parte do Banco do Brasil na criação de uma nova empresa do setor de cartões em parceria com a Cielo.
A decisão da autoridade pode colocar em xeque a continuidade da bilionária operação ou fazê-la ganhar novas configurações, na avaliação de analistas ouvidos pela reportagem.
Em ofício, a autoridade monetária determinou que a operação não pode trazer efeitos no patrimônio ou no capital do maior banco brasileiro. Em novembro, BB e Cielo anunciaram a criação de uma companhia avaliada em R$ 11,6 bilhões, a partir da transferência de ativos da instituição financeira federal.
Pelo entendimento do Banco Central, o BB não deve registrar o investimento na nova empresa a valor de mercado e contabilizar um ganho por isso. Hoje os ativos que serão aportados no novo negócio estão registrados no balanço do BB a um custo inferior, o que, em tese, daria origem a um ágio.
Diante do veto do BC, a questão que se levanta agora é se a transação continuará de pé. Ou se poderá ter seu formato alterado.
Questionados pela reportagem, BB e Cielo não atenderam o pedido de entrevista.
Os papéis do BB tiveram desvalorização de 4,75%, e os da Cielo perderam 4,56% no pregão de sexta-feira da bolsa. O Ibovespa fechou o dia em baixa de 2,99%.
Segundo o Valor apurou, executivos do BB e da Cielo ainda trabalham com a expectativa de que a decisão do Banco Central possa ser revertida. Neste momento, ambas as empresas buscam compreender melhor o veto feito pela autoridade.
Sem gerar lucro para o BB, a transação também não contribuirá para o superávit primário deste ano. Reportagem do Valor de dezembro mostrou que, se o negócio fosse concluído ainda no ano passado, poderia responder por quase metade do superávit primário previsto para 2014.
O Tesouro ganharia R$ 4,5 bilhões com o pagamento de Imposto de Renda.
Depois que a operação entre BB e Cielo foi anunciada, o governo conseguiu, em 9 de dezembro, aprovar uma flexibilização no cálculo da meta fiscal.
Apesar de a transação trazer vantagens tanto para Cielo quanto para BB, o fator fiscal também pesou para o negócio em um momento em que o governo enfrentava dificuldade para fechar suas contas. Para a Cielo, os ativos recebidos do BB na nova empresa vão representar uma diversificação de portfólio. Já o banco fica livre das amarras para contratação de serviços imposta pelo fato de ser controlado pelo governo.
No mês passado, a Cielo anunciou emissões de títulos de dívida local para financiar a transação com o Banco do Brasil na nova empresa de cartões. Pelo desenho previsto são R$ 3,459 bilhões em debêntures divididas em três tranches e até R$ 4,6 bilhões em notas promissórias.