A partir do depoimento do ex-gerente de engenharia da estatal Pedro Barusco, que fechou acordo de delação premiada, o Ministério Público Federal conseguiu traçar o perfil detalhado de cada um dos 11 operadores do esquema revelado na nona fase da Operação Lava-Jato. Segundo os investigadores, eles tinham atuação bastante semelhante à movimentação do doleiro Alberto Youssef, preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é descrito como o "responsável por operacionalizar o repasse de propinas ao PT, decorrentes de contratos no âmbito da Petrobras". Barusco revelou que a legenda recebeu, no período de 2003 a 2013, entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões por intermédio do petista. 

As informações e documentos probatórios apresentados por Barusco motivaram a Procuradoria da República no Paraná a pedir o bloqueio sem limite prévio das contas dos operadores, incluindo Vaccari. No entanto, o juiz federal Sérgio Moro, à frente dos processos relativos aos desvios na Petrobras, não acatou a solicitação. O magistrado alegou que "a medida ainda é prematura". O Ministério Público Federal assegurou que "os operadores financeiros movimentaram em seu nome e lavaram centenas de milhões de reais em detrimento da Petrobras, no Brasil e no exterior". 

A novidade revelada a partir do depoimento de Barusco é que o esquema de corrupção, até então restrito às diretorias de Serviços e Abastecimento e à Área Internacional, também tinha braços nas diretorias de Gás e Energia e Exploração e Produção. Na área de Gás e Energia, por exemplo, ele explicou que o percentual da propina variava normalmente entre 1% e 2%. "Desses 2%, metade era para o Partido dos Trabalhadores, representado por João Vaccari Neto, e a outra metade era para a "Casa", representada neste caso por Renato Duque (ex-diretor de Serviços)", afirmou. 

Outro importante agente do esquema, conforme as informações do MPF, é Mario Frederico Mendonça Goes. A Polícia Federal ainda não o localizou para que ele preste depoimento. Goes atuou, de acordo com o delator, como intermediário do esquema de propina para as empresas Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Carioca, Bueno Engenharia, MPE/EBE, OAS, Schain, Setal e UTC. Segundo a petição do MPF, Mario se encontrava periodicamente com Barusco para repassar mochilas com propina em espécie que variava entre R$ 300 mil e R$ 400 mil. Nestas ocasiões, os dois realizavam "encontros de contas" e conferiam "contrato a contrato" os pagamentos de subornos realizados e pendes. No entanto, a maior parte das propinas foi transferida por Goes para contas bancárias no exterior, sobretudo na Suíça. 

O MPF também lista o nome de Shinko Nakandakari. Ele é ex-diretor da Odebrecht e atuava em favor das empresas Galvão Engenharia, EIT Engenharia e Contreiras. O próprio diretor de negócios da Galvão Engenharia revelou que pagou propina ao ex-diretor de serviços da Petrobras Renato Duque. Os valores teriam sido cobrados, mediante contratos simulados, por Nakandakari. Tabelas de controle de pagamentos, apresentadas pela empreiteira, indicaram repasse de R$ 8,8 milhões. As empresas citadas por Barusco, com exceção da Galvão Engenharia, negam pagamento de propina. 

Balanço 
Na tarde de ontem, a Polícia Federal divulgou o balanço final da nona fase da investigação, intitulada My Way, numa referência ao apelido colocado por Barusco em Renato Duque. Foram cumpridos 62 mandados de busca e apreensão, 17 de condução coercitiva e três de prisão temporária. Há ainda uma detenção preventiva a ser cumprida. Nas casas e escritórios dos investigados, os agentes da PF recolheram 35 obras de arte, 518 relógios, cinco veículos de alto valor de mercado, documentos e notas fiscais. 

Em vários locais de busca, incluindo a empresa Arxo, em Santa Catarina, um dos focos da operação, a PF localizou uma grande quantidade de dinheiro. Até o fechamento desta edição, a quantia não havia sido contabilizada pelos policiais. 

Os 11 homens de Barusco 

Confira o que disse Barusco sobre cada operador identificado na 9ª fase da Lava-Jato: 

João Vaccari Neto 
» Tesoureiro do PT. Foi responsável por operacionalizar o repasse de propinas ao partido a partir de contratos firmados entre grandes empreiteiras e a Petrobras. Barusco afirmou que, entre 2003 e 2013, Vaccari intermediou o repasse à sigla de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões referentes a 90 grandes contratos da petroleira. 

Mario Goes 
» Tratava diretamente com Pedro Barusco o pagamento de propinas provenientes dos contratos assinados pelas empreiteiras com a Petrobras. Os dois se encontravam periodicamente para que Mario pudesse entregar mochilas com grande valores, que variavam entre R$ 300 mil e R$ 400 mil. Atuou, de acordo com o MPF, em nome das empresas Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Carioca, Bueno Engenharia, MPE/EBE, OAS, Shain, Setal e UTC. 

Zwi Zcorniky 
» Representante oficial do Estaleiro Kepell Fels e da Floatec. Foi responsável pela transferência de suborno a Barusco, entre 2003 e 2013, em conta do Banco Delta, na Suíça, bem como ao Partido dos Trabalhadores, cujo dinheiro foi entregue ao tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto. Ele transferiu ainda US$ 12 milhões para o ex-diretor de serviços da estatal Renato Duque. 

Guilherme Esteves de Jesus 
» Atuou como operador financeiro para o pagamento de propinas pelo Estaleiro Jurong a Barusco, Duque e outros a partir de janeiro de 2013 por meio de contratos fictícios e contas no exterior. Transferiu, por meio da Opdale Industries LTD, US$ 8,2 milhões para as offshores Natiras (Barusco), Drenos (Duque) e Firasa (João Ferraz). A partir dos pagamentos, viabilizava vantagens indevidas para Vaccari. 

Milton Pascovich 
» Agia como operador da empresa Engevix e do Estaleiro Rio Grande realizando transferências da offshore MJP Internacional Group, no Banco UBS, nos EUA, para a conta da offshore Aquarius Partners INC, mantida por Barusco. 

Shinko Nakandakari 
» Ex-diretor da Odebrecht. Atuou em favor das empresas Galvão Engenharia, EIT Engenharia e da Contreiras na operacionalização do pagamento de propinas. Passou a Barusco em território nacional, por diversas vezes, dinheiro em espécie. 

Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva 
» Funcionário da ABB (Asea Brow Boveri) e sócio de Julio Faerman (operador da SBM) e dono da Carmel Wordwide S.A. Agiu como operador financeiro em favor das empresas Alusa, Rolls Royce e SBM. Recebeu informação privilegiada para que a Alusa pudesse vencer licitação em curso na Petrobras. 

Atan de Azevedo Barbosa 
» Funcionário de carreira da Petrobras, trabalhou para interesses da empresa Iesa Óleo e Gás no pagamento de propinas. Barusco recebeu dele mensalmente, entre outubro de 2008 e abril de 2013, US$ 29 mil em decorrência de contratos firmados entre a Iesa e a petroleira. Os pagamentos foram feitos em duas contas na Suíça. 

Bernardo Schiller Freiburghaus 
» Auxiliou Barusco a remeter para contas na Suíça aproximadamente US$ 2 milhões após a deflagração da Operação Lava-Jato e da prisão de Paulo Roberto Costa. 

Augusto Amorim Costa 
» Intermediário da empresa Queiroz Galvão para pagamento de propinas. Ele, em contato com Barusco, providenciava o repasse do dinheiro sujo para contas bancárias abertas na Suíça. Barusco entregou extratos que comprovam as transferências. 

Cesar Roberto Santos Oliveira 
» Dono da empresa GDK, também operacionalizou pagamento de propinas a Barusco, em decorrência de contratos firmados com a Petrobras. 

Presidente inocenta funcionários 
Em depoimento concedido ontem, o ex-presidente da Refinaria Abreu e Lima (PE), Marcelino Guedes Ferreira Mosqueira Gomes, tirou qualquer responsabilidade dos funcionários da refinaria em relação à fiscalização das licitações para a construção do empreendimento. De acordo com Ferreira, um contrato deixava claro que cabia às diretorias de Engenharia e Abastecimento da Petrobras a tarefa de fiscalizar as fases de construção. O executivo afirma que "a estrutura que o controlador da Refinaria Abreu e Lima montou deixou toda a competência técnica dentro da Petrobras". A construção da refinaria Abreu e Lima é um dos principais pontos da investigação da Operação Lava-Jato, uma vez que foi orçada inicialmente em US$ 2,4 bilhões, e hoje o custo estimado passa dos US$ 18 bilhões.