Título: A situação da Itália e a crise do euro
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Fonte: Correio Braziliense, 13/07/2011, Opinião, p. 14
Visão do Correio ::
Os principais mercados do mundo acompanham com crescente apreensão a ameaça de as finanças italianas desmoronarem em razão da colossal dívida pública. Terceira mais pujante economia da zona do euro, a eventual quebra da Itália provocará efeitos desestabilizadores graves na União Europeia (UE) e no sistema financeiro internacional. É o cenário desenhado desde quando se tornou evidente que o tesouro italiano deve soma superior a 120% do Produto Interno Bruto (PIB).
Na segunda-feira, as notícias nada animadoras sobre medidas eficazes para superar a crise levaram as bolsas de maior expressão mundial a fechar com baixas acentuadas ¿ as de Londres, Paris, Frankfurt, Nova York e a de São Paulo, entre outras. As ações dos bancos italianos despencaram. O UniCredit, o maior deles, teve as cotações reduzidas em 7,8%. Espanha, Portugal e Irlanda, nações há pouco socorridas pelo Banco Central Europeu (BCE), tiveram a situação agravada em razão de perdas significativas de instituições financeiras.
Novo escândalo de corrupção, agora com o envolvimento do ministro da Economia, Giulio Tremonti, exarcebou a instabilidade do governo de Silvio Berlusconi e impulsionou os receios sobre o advento de situação insustentável. O plano de austeridade concebido por Trenonti e aprovado em primeira votação no parlamento não alterou o pessimismo dos agentes econômicos. Berlusconi, situado em meio a verdadeiro vórtice político, que o torna cada vez menos popular, também desperta inquietação.
A insolvência de países do bloco associados por moeda única sugere avançar o olhar para além das ondas a fim de contemplar o oceano. Pelo Tratado de Maastricht (1992), que criou a UE, os Estados membros deveriam observar regras rígidas para ordenação dos gastos financeiros e previsões orçamentárias. Não seria admissível deficit fiscal superior a 3%. Cumpria ao BCE fiscalizar as exigências e diligenciar mudanças, caso necessárias. Mas, na prática, não poderia ordenar qualquer tipo de intervenção para mudar rumos de políticas econômico-financeiras temerárias.
Sem o formato de Federação de Estados sujeitos a um governo central, mas de nações soberanas unidas por interesses econômicos e sociais, o sistema tornou-se vulnerável ao descontrole fiscal. É forçoso reconhecer que os casos da Irlanda, da Grécia, de Portugal e das turbulências na Itália resumem, assim, a crise do próprio euro.
É lamentável que a desordem financeira afete a vida de milhões de pessoas, justo em continente antes com elevada taxa de bem-estar social. A entrada de italianos na França e de franceses na Itália sujeita-se agora à apresentação de passaporte para evitar o fluxo de imigrantes. Sobre a Itália, uma última observação: ministros da UE cogitam "flexibilizar" a quitação com o perdão de parte da dívida, redução dos juros e aumento dos prazos de pagamento. Se aprovado o prêmio, por certo valerá para os demais devedores. Ou seja, a oficialização do calote.