Uma onda de manifestações, de greves e de demissões de trabalhadores tomou conta do país. Diversas rodovias foram bloqueadas ontem por caminhoneiro que protestam contra alta de combustíveis. Servidores públicos e empregados terceirizados cruzaram os braços em busca de reajustes salariais. Para piorar a situação, trabalhadores da indústria automotiva foram dispensados ou obrigados a tirar férias e empresas envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobras continuam a fechar vagas, sob alegação de que não recebem recursos para honrar os compromissos. O governo acendeu o sinal de alerta com os problemas espalhados por todas as regiões do Brasil (veja arte). O Ministério do Trabalho informou que acompanha as manifestações do setor produtivo, mas não pode interferir em questões específicas de estados e municípios. Está monitorando as manifestações dos caminhoneiros e negocia com fabricantes de veículos a fim de evitar dispensas. Para analistas, a tendência é que a situação se agrave, já que o país está mergulhado em uma recessão. Eles avaliam que o baixo crescimento da economia e a inflação em alta devem acelerar o processo de demissões, o que resultará no aumento do desemprego. Em sete estados do país caminhoneiros cruzaram os braços. Os trabalhadores reclamam que o preço dos combustíveis aumenta e o dos fretes permanece inalterado. Os motoristas profissionais ainda reivindicam queda no preço do diesel e dos pedágios, melhores condições nas rodovias do país e tributação diferenciada no transporte de cargas. Com o tráfego de caminhões interrompidos, diversas empresas foram afetas. O diretor de Expansão, Sustentabilidade e Agropecuaria da BRF, Luiz Stabile, relatou que, com as estradas bloqueadas e caminhoneiros parados, a companhia foi obrigada a interromper as atividades em dois frigoríficos, que juntos abatem diariamente mais de 1 milhão de aves. Segundo ele, a decisão foi tomada porque não há espaço para armazenamento dos animais. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, afirmou que uma única companhia deixou de processar 1,5 milhão de litros de leite e está com 100 contêineres vazios em um porto porque não consegue fazer a mercadoria chegar ao local. De acordo com Turra, o setor movimenta R$ 220 milhões por dia e fatura US$ 27 milhões com exportações, mas acumulará prejuízos com a paralisação dos motoristas profissionais. Para tentar minimizar os danos, Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com ações na Justiça, solicitando o desbloqueio das estradas federais. A AGU pede fixação de multa de R$ 100 mil por hora de interrupção. A crise no setor automotivo gera preocupação e revolta entre trabalhadores. Em assembleia realizada ontem, cerca de 800 metalúrgicos da General Motors (GM) em São José dos Campos decidiram continuar com em greve. A montadora estima que deixou de produzir 600 veículos, 4,8 mil motores e 5,6 mil equipamentos de transmissão, o que resultou em prejuízo de pelo menos R$ 100 milhões. A empresa alega que precisa adequar a produção à demanda e, por isso, quer suspender os trabalhos por dois meses. Em outras empresas do setor os problemas são semelhantes. Após ter readmitido 800 funcionários da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), em janeiro, 250 trabalhadores da Volkswagen, em Taubaté (SP), entraram em férias coletivas de 20 dias. A monadora negou o desligamento desses funcionários. A Ford também anunciou paralisação da produção na unidade de São Bernardo do Campo (SP), por tempo indeterminado. Ao todo, ficarão afastados 420 funcionários. Protestos organizados por servidores públicos (veja matéria ao lado) também se espalharam de Norte a Sul do país. No Piauí, funcionários do Tribunal de Justiça iniciaram greve por período indeterminado em reivindicação ao pagamento do reajuste salarial de 10%. No Paraná, empregados do Departamento de Trânsito (Detran- PR) se manifestaram na capital. Os servidores cobram a criação de quadro próprio da categoria, além de reajustes salariais.
Prejuízos
Na avaliação do professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Newton Marques, a insatisfação de trabalhadores e o processo de demissões em diversos setores da economia são fruto de um ambiente macroeconômico desastroso. Na opinião dele, a inflação é responsável por boa parte dos problemas, porque tira renda dos brasileiros e encarece produtos e serviços. “Vivemos o pior dos mundos com a recessão e o aumento de preços. Isso gera pressões sociais porque as medidas tomadas para corrigir os rumos penalizam quem é assalariado”, detalhou. O especialista em direito trabalhista José Eduardo Pastore, do escritório Pastore Advogados, avalia que a situação é preocupante. “Muitas companhias se endividaram nos últimos anos e chegaram em 2015 com o caixa estrangulado. O problema maior será de micro, pequenas e médias, que empregam 90% dos brasileiros e sofrerão com esse ambiente econômico desfavorável”, comentou.