Em pronunciamento em rede nacional pelo Dia Internacional da Mulher, a presidente Dilma Rousseff conclamou o Congresso Nacional e a sociedade a dividir o peso do ajuste e "absorver a carga negativa" decorrente do prolongamento da crise financeira internacional. Segundo ela, no Brasil a crise é potencializada por uma "grave crise climática", que tem pressionado a elevação de preços.

A fala presidencial provocou protestos em São Paulo, com moradores de bairros das áreas centrais fazendo panelaços e gritando "fora Dilma", durante sua transmissão. Também houve protestos em Belo Horizonte, no bairro de Lourdes; no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca; e na Asa Norte e em Águas Claras, em Brasília. Há mobilizações contra o governo convocadas nas redes sociais para o próximo dia 15 e protestos organizados por movimentos sociais no dia 13.

Dilma disse que a população tem "todo direito de se irritar e se preocupar", mas pediu "paciência e compreensão", porque a situação, segundo ela, é passageira e, no segundo semestre do ano o país estará melhor. Assegurou, ainda, que o povo estará protegido no que é mais importante: "sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e de proteger sua família".

Para a presidente, o país passa por um momento "diferente", que ela caracterizou como uma segunda etapa da reação à crise externa. Os problemas, na sua visão, são conjunturais e os fundamentos econômicos, acredita, "são sólidos", e "nem de longe" o Brasil vive uma crise na dimensão proclamada "por alguns".

Desta vez o governo precisa usar "armas diferentes e mais duras" do que na etapa anterior -, quando o Brasil foi um dos países que melhor reagiu à crise internacional - mesmo que isso represente "sacrifícios temporários para todos e críticas injustas e desmesuradas ao governo".

Até o ano passado, prosseguiu a presidente, " na tentativa correta de defender a população, o governo absorveu todos os efeitos negativos da crise. Ou seja: usou o seu orçamento para proteger integralmente o crescimento, o emprego e a renda das pessoas". Ela disse que não previa, porém, que a crise externa durasse tanto e, ainda por cima, que seria acompanhada de uma grave crise climática.

O esforço fiscal, que se traduz em medidas de cortes de gastos e elevação de impostos, não é "um fim em si mesmo" mas a "travessia para um tempo melhor", disse a presidente. Ela destacou que durante esse período o país não vai parar e garantiu ainda este ano novas concessões em infraestrutura. A referência à crise na Petrobras foi rápida e só aparece quase no fim do pronunciamento. A presidente classificou as denúncias como "episódios lamentáveis" e afirmou que a apuração em curso tem ocorrido de forma "ampla, livre e rigorosa".

"Com coragem e até sofrimento, o Brasil tem aprendido a praticar a justiça social em favor dos mais pobres e aplicar duramente a mão da justiça contra os corruptos", disse. Não houve menção à lista de envolvidos no escândalo divulgada na sexta feira. No início de sua fala, Dilma propôs "reflexões importantes" em uma "conversa mais calma e mais íntima", que ajudariam a entender melhor o momento vivido pelo país.

Ao se referir ao Legislativo, de quem tem sofrido seguidas derrotas, a presidente afirmou que o Congresso sempre cumpriu com seu papel histórico nos momentos em que o Brasil precisou.

As medidas de ajuste fiscal, que estão no Congresso à espera de aprovação, "são resultado de uma decisão corajosa do governo de mudar métodos e buscar soluções mais adequadas ao atual momento". Dilma destacou que esse esforço teve inicio com cortes de gastos do governo, sem afetar "fortemente" os investimentos prioritários e os programas sociais, seguidos de "revisões de certas distorções em alguns benefícios". Ela também fez menção a medidas que reduzem parcialmente os subsídios no crédito e as desonerações de impostos "dentro de limites suportáveis pelo setor produtivo".

"Estamos fazendo tudo com equilíbrio, de forma que tenhamos o máximo possível de correção com o mínimo possível de sacrifício. Este processo vai durar o tempo que for necessário para reequilibrar a nossa economia", disse, prevendo uma "primeira reação" no fim de 2015.

Dilma considerou ainda que mais importante do que a duração dessas medidas são seus resultados, com combate permanente à inflação, garantia de emprego e melhoria da saúde, educação e segurança pública.

Às mulheres, homenageadas pelo seu dia, a presidente anunciou que sancionará, hoje. a Lei do Feminicídio que considerará crime hediondo o assassinato de mulheres decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero e estabelecerá as penas.

 

 

Presidente volta a buscar Lula para aplacar crise política

 

Por Andrea Jubé | De Brasília

A presidente Dilma Rousseff volta a se reunir com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para avaliar a crise que atinge o governo, com a temperatura política nas alturas, por causa da lista de investigados na Lava-Jato e dos protestos convocados para o fim da semana. Um mês após a última reunião com o antecessor, Dilma saiu do gabinete e fez aparições públicas, viajou o país, reuniu os aliados e saiu em defesa das medidas de ajuste fiscal. Também acionou o marqueteiro João Santana, que dirigiu seu discurso ontem à noite em cadeia nacional de rádio e TV.

A previsão é que Dilma e Lula almocem juntos em São Paulo amanhã. A presidente, de manhã, participa de uma feira da construção civil. É a primeira vez que ela volta ao Estado em que perdeu para Aécio Neves (PSDB), por sete milhões de votos.

Lideranças do PT fazem coro para que Dilma ouça mais o seu antecessor. Na pauta do reencontro com Lula, uma reavaliação dos desdobramentos da crise e das ações da presidente, inclusive a repercussão do pronunciamento oficial feito ontem. Dilma e Lula estiveram juntos em São Paulo em 12 de fevereiro, quando o ex-presidente sugeriu que ela retomasse o diálogo com os partidos da coalizão governista, aparecesse mais em público, viajasse o país e desse mais entrevistas, a fim de explicar a necessidade do corte de gastos, que atinge direitos trabalhistas. Paralelamente, Lula tem mantido reuniões com ministros do PT na sede de seu instituto em São Paulo. Nesta segunda, deve se reunir com o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Miguel Rossetto, um dos mais próximos a Dilma no Planalto.

Desde o último encontro com Lula, Dilma visitou quatro Estados (Bahia, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais), reuniu-se com lideranças da base aliada na Câmara e no Senado, concedeu seis entrevistas coletivas e foi a público defender as medidas. Ao final desta semana, esse número subirá para seis Estados. Dilma vai na quarta-feira ao Acre: visitará áreas afetadas pelas enchentes em Rio Branco e entrega unidades do Minha Casa, Minha Vida.

Mantendo o esforço de articulação política, Dilma recebe hoje em um jantar no Palácio da Alvorada as lideranças do PT no Congresso e os ministros do partido, nos moldes da reunião que promoveu com o PMDB na semana passada. O PT quer uma contrapartida, com apelo social, para defender as medidas que restringem direitos trabalhistas.

Ainda nesta segunda, Dilma faz nova reunião no Planalto com os líderes da base aliada no Senado. A crise chegou ao Senado depois que o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos denunciados na lista da Lava-Jato, devolveu a medida provisória das desonerações fiscais. Dilma teve que reparar os deslizes na articulação. Telefonou para Renan e pediu que recebesse o ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas. E depois de excluir Michel Temer das reuniões com lideranças da base governista no Planalto, ela teve uma conversa reservada com o vice no dia seguinte. O chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, contatou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que rejeita a interface com Vargas, por causa de desentendimentos na campanha para a presidência da Casa. Apesar dos gestos, a última semana foi marcada pelas derrotas do governo no Congresso.

Em outra frente, grupos de inteligência do governo monitoram as redes sociais para tentar medir a dimensão dos protestos convocados para o próximo dia 15 de março. Comunidades no Facebook convocam os brasileiros para manifestações em diversos Estados para pedir o impeachment da presidente. Uma delas fez convites para 1,5 milhão de internautas. Já a Central Única dos Trabalhadores (CUT) mobiliza sindicalistas contra as medidas de ajuste do governo. "Defender os trabalhadores é lutar contra medidas de ajuste fiscal que prejudicam a classe trabalhadora", diz o ato de convocação da central, que sai às ruas no dia 13 de março. Inicialmente, a CUT faria novo ato em defesa da Petrobras, que contaria, mais uma vez, com a presença de Lula. Mas com o viés de ataques ao ajuste fiscal, o ex-presidente cancelou a participação.

No último ato público, em Araguari (MG), na sexta-feira, Dilma tentou justificar aos mineiros os cortes de gastos, alegando não se tratar de nenhum recesso. Nas redes sociais, ela é acusada de descumprir a promessa eleitoral de não mexer em conquistas dos trabalhadores.

"Enquanto o mundo só desempregava e só reduzia salários, nesse período, nos últimos seis anos da crise, nós tivemos uma redução do desemprego e um aumento das rendas dos brasileiros", discursou. Ela disseque o Brasil está entrando em uma "numa nova fase de enfrentamento da crise" que exige "correções e ajustes". O mesmo tom foi usado no pronunciamento oficial feito pela presidente ontem à noite em cadeia nacional de rádio e televisão.