Título: Tendência de queda
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 21/07/2011, Economia, p. 12
Embora as maiores pressões inflacionárias não venham mais dos preços das commodities, como alimentos e combustíveis, e, sim, do custo da mão de obra, há forte probabilidade da desaceleração dos preços no segundo semestre, inclusive no setor de serviços, estimou ontem o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em sua Carta de Conjuntura. Com isso, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2011 tende a ficar dentro do intervalo da meta do governo, que tem teto de 6,5%. As discretas quedas dos índices de inflação este mês refletem medidas adotadas pelo Banco Central desde dezembro para conter o consumo, confirmando as perspectivas de maio e junho.
Segundo Roberto Pires Messenberg, responsável pela publicação trimestral, os preços monitorados pelo governo deram a principal contribuição para o recuo geral, com destaque para a gasolina, que caiu 3,94% em junho. O etanol usado na mistura da gasolina era o maior vilão dos preços nos primeiros meses do ano. Desta vez, ameaçam o bolso do consumidor custos com empregados domésticos, cabeleireiros e médicos, entre outros. O Ipea chama atenção ainda para outros itens com peso significativo, como aluguel, taxas de condomínio e educação.
Por outro lado, a continuidade das incertezas no ambiente externo e o aquecimento do mercado de trabalho doméstico constituem fatores de risco para o cenário futuro. As perspectivas menos favoráveis de crescimento, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, ajudaram a frear preços, mas oscilações devem se repetir nos próximos meses. "Essa foi a razão para o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC ter sustentado a elevação da taxa básica de juros (Selic)". O IPCA subiu 6,71% no acumulado de 12 meses até junho, mantendo trajetória iniciada em setembro de 2010.
Messenberg considera desejável ampliar medidas de restrição ao crédito para consumo. O Ipea ressalta que a contenção do crédito teve importante papel no ritmo de contratações. Apesar de a abertura de vagas seguir em ritmo elevado e o Ministério do Trabalho manter a meta de criar 3 milhões de empregos em 2011, houve desaceleração no primeiro semestre de 2011. Foram 219,7 mil postos a menos, segundo o Cadastro-Geral de Empregados e Desempregados (Caged). De janeiro a junho de 2010, foram gerados 1,63 milhão de postos de trabalho, contra 1,41 milhão no mesmo período de 2011.
Críticas de empresas e trabalhadores Mal acabou a reunião do Copom e empresários e trabalhadores se juntaram para gritar contra o aumento dos juros. "O quinto aumento consecutivo da taxa Selic vai acelerar a desindustrialização, além de agravar os sérios problemas que já enfrentamos com a competitividade", disse Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Para o presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro Junior, foi um duro golpe. "O pior impacto recairá sobre o cidadão, que terá que arcar com custos ainda maiores nos financiamentos", declarou. Segundo o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Carlos Cordeiro, o BC não podia ter "cedido às chantagens do mercado financeiro".