Especialistas ouvidos pelo Correio destacam a disposição das pessoas para ir às ruas expor as insatisfações com o governo, mas ressaltam que as mudanças reais para o país virão pela melhoria na qualidade do debate político no país e por uma repactuação da agenda brasileira para que o Brasil supere a atual crise política e econômica. Na lógica de acadêmicos, existem razões para os brasileiros irem para a rua hoje.

“Existem motivos que se originam tanto na frustração de parte do eleitorado com a apertada vitória da presidente Dilma quanto com a recente deterioração do quadro econômico, particularmente o aumento de combustíveis e a inflação”, destacou Michael Mohallem, professor de direito da Fundação Getulio Vargas (FGVRJ). “A presença das pessoas nas ruas parece ser uma novidade que veio para ficar no Brasil. A leitura desses episódios não deve ser superdimensionada como se isso fosse um princípio de revolução social”, completou Michael.

Acima de tudo, a palavra de ordem é contra a abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.“O impeachment não é instrumento para remediar insatisfação com a condução da política. O voto, sim. É do sistema presidencialista a estabilidade do mandado. A não ser que houvesse a possibilidade do recall ou que surjam condições jurídicas excepcionais que justifiquem o impeachment, o que não existem neste momento.”

Já o professor de ciência política do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Carlos Melo acha que a multiplicidade de queixas expressas na convocação feita pelas oposições pode ofuscar a praticidade dos atos. “Eles estão reclamando exatamente do quê? Querem o impeachment, mais empregos, combater a corrupção, a volta do regime militar? Isso pode dificultar a efetivação de resultados concretos no pós-manifestação”, defendeu Melo. Ele ressalva que a análise não desmerece, em nada, o teor das manifestações populares.

Democracia

“No Brasil, as pessoas já foram para as ruas por muito menos. Se um grupo de 30 pessoas vê razões para ir às ruas protestar contra algo que considera afrontoso, deve ir. Isso faz parte da democracia”, elogiou Melo. O cientista político lembra que muitos dos grandes protestos históricos recentes começaram de maneira discreta. “As primeiras manifestações dos cara- pintadas não davam a dimensão de que o impeachment viraria realidade. Se a polícia de São Paulo não tivesse agido com tanto rigor contra os manifestantes, talvez as passeatas de junho de 2013 não tivessem ganho a dimensão que ganharam”, recordou.

Michael Mohallem, da FGV Rio, destacou que as manifestações de junho de 2013, que começaram como um protesto pelo aumento de R$ 0,20 nas tarifas públicas, implementaram uma nova agenda para o país, como a derrubada da PEC 37 (que vedava a atuação do Ministério Público), a aprovação do fim do voto secreto para as cassações de mandatos parlamentares e a destinação de 100% dos royalties do petróleo para educação e saúde.“Essa agenda positiva ajudou e uma nova agenda ajudaria agora”, destacou.

Mohallem acredita que a presidente tende a ficar mais exposta que os políticos envolvidas na Operação Lava-Jato, ainda que ela não esteja associada aos crimes. “Mas o avanço do inquérito e a ação penal devem dar respostas ao público.” Para Carlos Melo, governo e oposição precisam sentar-se à mesa para debater a nova agenda. “Mas temos líderes para isso? Em crises anteriores, tínhamos nomes no Parlamento com autoridade para acalmar os ânimos. Quem exercerá esse papel hoje?”