Título: Mutirão à vista
Autor: Araújo, Saulo
Fonte: Correio Braziliense, 21/07/2011, Cidades, p. 27

O atraso na entrega das biópsias é apenas um dos problemas da seção de anatomia do Hospital de Base. O Correio apurou que, na câmara fria, das 14 gavetas usadas para guardar corpos, duas não funcionam. Uma outra só fecha apoiada por um banco. Para piorar, muitos cadáveres ficam fora da geladeira devido ao excesso. A situação se agrava a cada dia, pois outros centros de saúde da rede, por conta do baixo número de servidores, não conseguem atender à demanda de necropsias e encaminham os casos ao HBDF. Dos 76 cadáveres examinados em autópsias pelos médicos do Hospital de Base em 2011, 17, ou 22%, vieram de outras unidades. Os médicos responsáveis por avaliar as biópsias são os mesmos que fazem as necropsias.

A reportagem procurou a Secretaria de Saúde, que repassou a demanda para o Hospital de Base. A direção do HBDF, por meio da assessoria de imprensa, reconheceu os problemas. Com relação aos exames de biópsias atrasados, informou que a parceria com o Exército deve ser restabelecida em breve. Os militares devem ir ao HBDF digitar os laudos dos médicos, mas não há data para que isso ocorra. Sobre o sucateamento da anatomia, os assessores garantiram que uma licitação foi aberta para contratação de uma empresa responsável por executar a reforma da seção e dar manutenção nos equipamentos.

Solução Titular da Promotoria de Justiça de Defesa dos Usuários de Serviço de Saúde do DF, Diaulas Ribeiro considerou como "extremamente preocupantes" as denúncias. "Você acha que uma secretaria que não cuida nem dos vivos vai cuidar dos mortos?", questionou. Ele diz que a saída é a implantação na rede do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO).

A aposentada Regina Célia Monteiro Magalhães, 69 anos, enfrentou a demora na liberação do corpo de seu primo, Josival da Conceição Santos, 58. Ele faleceu no último dia 14, após dar entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia. A médica que o atendeu atestou a causa morte como meningite e solicitou uma necropsia, que foi feita no HBDF somente cinco dias depois. Para surpresa de Regina, a autópsia atestou aneurisma. O enterro dele só pôde ser realizado ontem. "Diagnosticaram a doença errada, ele morreu à espera de atendimento e só liberaram o corpo quase uma semana depois", desabafou a aposentada. (SA)