Nenhuma marola era tudo o que a zona do euro precisava agora para tentar acelerar sua anêmica e vacilante recuperação econômica. Mas lá está a Grécia, que, como em 2012, ameaça trazer de volta o fantasma de sua saída da união monetária, o que até já ganhou uma expressão em economês: grexit, do inglês Greece e “exit” (saída). A tensão começou quando o Parlamento rejeitou o nome indicado pelo premier Antonis Samaras para presidente e ele foi obrigado a antecipar as eleições para domingo, dia 25.

O problema é que o líder das pesquisas, por estreita margem, é o partido de extrema-esquerda Syriza, cujo líder, Alexis Tsipras, rejeita a política de austeridade a que o país se submeteu nos últimos anos para permanecer solvente. Apesar de dizer que pretende manter a Grécia na zona do euro, ele promete repudiar parte da dívida pública e renegociar acordos com os credores externos que possibilitaram a Atenas acesso a um pacote de € 240 bilhões via troika — FMI, União Europeia e Banco Central Europeu. Defende, ainda, aumento de salários e do número de empregos estatais, indo na contramão de tudo o que a Grécia, a duras penas, implementou nos últimos anos.

Os voláteis mercados financeiro, acionário e cambial reagiram com nervosismo à perspectiva de novas incertezas. Empresários gregos admitem que a indecisão paralisou totalmente os investimentos estrangeiros, enquanto bilhões de euros deixaram a Bolsa de Valores de Atenas nas últimas semanas. O euro atingiu sua desvalorização máxima frente ao dólar.

O clima piorou quando a revista “Der Spiegel” afirmou que a Alemanha mudara de opinião e não mais descartaria o grexit, o que foi desmentido pelas autoridades alemãs. Mas o estrago já estava feito: estão em jogo dezenas de bilhões de euros de credores gregos e do contribuinte europeu, aplicados no saneamento grego para evitar o colapso do país.

As consequências para a Grécia de sua saída da zona do euro seriam ainda mais cruéis que as políticas de austeridade até agora adotadas, e que elevaram o desemprego a 25%, reduziram salários e pensões e cortaram milhares de funcionários públicos. O país teria de recorrer a outra moeda, provavelmente a velha dracma, para continuar funcionando, mas as dívidas, pública e privadas, continuariam em euros. Ou seja, impagáveis. A nação quebraria no mesmo segundo da troca de moeda. A própria zona do euro sofreria um solavanco capaz de abortar a frágil recuperação econômica. Juntamente com a desaceleração da China e dos países emergentes, tudo isso poderia impactar a recuperação dos EUA e jogar o mundo em um novo período de crise.

A mensagem aos eleitores gregos é que eles, provavelmente, já passaram a pior fase do duríssimo programa de ajuste das finanças nacionais e que dar a vitória ao Syriza seria dar um salto no escuro e no vazio.