Título: Licença para passar o trator sobre o PR
Autor: Lyra, Paulo de Tarso; Pariz, Tiago
Fonte: Correio Braziliense, 16/07/2011, Política, p. 2

Demissões do chefe interino e de servidor terceirizado do Dnit abrem caminho para que a presidente faça uma reformulação completa no órgão comandado pelo Partido da República. Pagot, diretor-geral afastado, estende férias até 4 de agosto

A presidente Dilma Rousseff deu ontem ao ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, carta branca para promover as nomeações no ministério, no Dnit e na Valec sem a necessidade de uma consulta prévia ao PR. A expectativa é que novos nomes possam ser anunciados a partir da segunda-feira. A paciência da presidente com a legenda esgotou-se após o afastamento do diretor interino do Dnit, José Henrique Sadok de Sá, e da demissão do servidor terceirizado da autarquia, Frederico Augusto de Oliveira Dias. Como antecipou o Correio em 6 de julho, Fred tinha gabinete ao lado da Presidência do órgão, participava de solenidades de assinaturas de contratos, recepcionava prefeitos e vereadores em Brasília, sem legalmente ter condições de agir desta maneira por ser um mero "office-boy".

Todo o poder de Fred emanava de seu padrinho político, Valdemar da Costa Neto (PR-SP), secretário-geral do PR. "Foi o Valdemar que o levou para Brasília. As famílias são amigas", disse, à época, uma pessoa próxima a Valdemar. Fred foi demitido oficialmente na quinta-feira.

A assepsia no órgão não deve se limitar a quem já foi afastado. O PT rifou o diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit, Hideraldo Caron, afilhado político do deputado Paulo Pimenta (PT-RS). Segundo relato de integrantes do PT, o próprio Pimenta, que recebeu de Caron doação de R$ 5 mil na eleição de 2006, não pretende batalhar pela permanência do pupilo. "A Dilma vai fazer uma limpa no Dnit. O Caron achou que sairia maior do episódio, mas também está sendo abatido", afirmou um petista. "A Dilma tem toda a solidariedade do partido para fazer as mudanças que quiser", sustentou.

Caron é responsável por aprovar aditivos de contratos. É justamente o superfaturamento de obras do Dnit e da Valec a origem das irregularidades nos Transportes e das preocupações da presidente Dilma Rousseff. O petista chegou a ser citado na Operação Castelo de Areia por supostamente ter recebido pagamento de propinas de empreiteiras. Ele nega qualquer recebimento de favores. Parte das provas da operação comandada pela Polícia Federal foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça.

Toalha A sexta-feira sepultou as expectativas do PR de ter alguma autonomia sobre o setor de transportes federal. Também corroeu as esperanças de quem defendia o retorno de Luiz Antonio Pagot para o cargo de diretor-geral do Dnit. O próprio Pagot, em conversa com aliados próximos, já admitia que a presidente estava irredutível e que dificilmente conseguiria permanecer no cargo após o turbilhão que alterou a estabilidade política no Ministério dos Transportes.

Segundo apurou o Correio, a postura de Pagot nos dois depoimentos ao Congresso durante a semana, nos quais manifestou expressamente o desejo de permanecer à frente do Dnit pelo menos até "concluir a reestruturação iniciada no órgão" é um esforço para não deixar o cargo sob suspeita de ter praticado irregularidade. Ele alega que é inocente das acusações e seus defensores, como o senador Blairo Maggi (PR-MT), afirmam que "se nada for comprovado o governo terá de assumir que cometeu uma injustiça". Para evitar permanecer no fogo cruzado político, Pagot estendeu as férias até 4 de agosto. Inicialmente, o pedido era para retornar ao trabalho em 21 de julho. Com o acirramento da crise, solicitou mais tempo para completar um mês longe do batente.

A sucessão na Valec permanece aberta. Na quarta-feira, os deputados Luciano Castro (PR-RR) e Lincoln Portela (PR-MG) encontraram-se com o ministro Paulo Sérgio Passos e sinalizaram que o partido não pressionaria pela estatal. No encontro, surgiu a proposta de o governo entregar a estatal para um executivo da iniciativa privada, a exemplo do que aconteceu com a Secretaria Nacional de Aviação Civil.

O interino de Pagot, José Sadok, foi afastado após matéria do jornal Estado de S. Paulo mostrar que a mulher dele é dona de uma empreiteira com contratos de R$18 milhões com o Dnit.