Dificuldade de acesso ao mercado de crédito internacional, elevado nível de endividamento e redução de investimentos não são exclusividades da Petrobras. Com a queda superior a 50% no preço do petróleo desde o ano passado, as principais petroleiras da América Latina - lista que inclui também a venezuelana PDVSA, a mexicana Pemex, a colombiana Ecopetrol e a argentina YPF - enfrentam riscos políticos e operacionais, de acordo com a agência de classificação de risco Moody's. Como reflexo, as economias das respectivas região, que já têm uma previsão de baixo crescimento para este ano, podem sofrer ainda mais com a redução das atividades de suas principais companhias, que, em alguns casos, já anunciaram queda de 25% nos investimentos para os próximos 12 meses.

Porém, segundo a Moody's, a previsão é que as companhias de petróleo da região (todas controladas por seus governos) sofram com a redução nas margens de lucro e com o alto nível de endividamento até meados de 2016. Nymia Almeida, vice-presidente de Crédito da Moody's, destaca que, juntas, as empresas esperavam investir cerca de US$ 100 bilhões neste ano para desenvolver suas reservas de gás e petróleo. Somente a Petrobras respondia por quase metade desse volume, bem acima do segundo colocado, a Pemex, com cerca de US$ 30 bilhões. Em seguida apareciam PDVSA (US$ 20 bilhões), Ecopetrol (US$ 9,5 bilhões) e YPF (US$ 5,5 bilhões).

Das cinco maiores empresas de petróleo da América Latina, nenhuma tem perspectiva ( Outlook ) positiva em sua nota. Pelo contrário. Segundo a Moody's, Petrobras, PDVSA e YPF estão com viés negativo; e Pemex e Ecopetrol estão estáveis. Nymia destaca que algumas das empresas enfrentam "riscos operacionais e políticos substanciais". Assim, cada petroleira, diz ela, tem características específicas que podem dificultar a captação de recursos nos EUA neste ano. A Petrobras, por exemplo, já afirmou que não pretende acessar o mercado de crédito internacional neste ano por não ter conseguido ainda publicar seu balanço financeiro referente ao terceiro trimestre de 2014, devido aos escândalos de corrupção que assolam a companhia.

- Na Petrobras, as investigações sobre os casos de suborno (e corrupção) levantam questões sobre a capacidade de levantar recursos. A empresa ainda opera em um ambiente de baixo crescimento, inflação alta e risco cambial. A YPF está limitada com o calote da Argentina. A PDVSA tem um risco de calote associado ao do governo venezuelano - explica Nymia.

petrobras terá de vender ativos, diz fonte

No relatório, a Moody's detalha ainda a situação da Ecopetrol, que já anunciou corte de 25% em seus investimentos este ano, para US$ 7,86 bilhões. A estatal enfrenta forte concorrência de outras petroleiras e sofre ainda com os ataques das Forças Armadas Revolucionária da Colômbia (Farc, de inspiração comunista), que danificam a infraestrutura de energia do país. Já no México, a Pemex tem uma baixa capitalização e uma política financeira pouco clara, segundo especialistas, além de estar dependente da nova lei de energia do país, que já adiou em alguns meses o início dos leilões de blocos no país para a iniciativa privada.

A consultoria britânica Facts Global Energy (FGE) destaca que os países que se apoiam na área de exploração e produção devem ser os mais afetados pelos preços mais baixos do petróleo. Na América Latina, a Venezuela, segundo a consultoria, "é o candidato óbvio para um default (calote)". Para 2015, a projeção da FGE para o preço médio é de US$ 60 pelo barril do Brent (tipo de óleo produzido no Mar do Norte, usado como referência para cotação internacional).

- O petróleo baixo afeta não só a Petrobras, mas todas as empresa do setor. A questão é saber se a cotação vai permanecer no patamar atual. É preciso esperar a próxima reunião da Opep (organização que reúne os maiores produtores de petróleo e que ainda não deu sinais de cortar a produção) para saber o que esperar da cotação - disse Haroldo Lima, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Para a Petrobras, o momento não poderia ser pior. Além da queda no preço do petróleo, ainda sofre com o avanço do dólar - a divisa chegou a R$ 2,70, no maior patamar desde 2005 -, já que 85% de sua dívida estão atrelados à moeda americana, e com os escândalos de corrupção, deflagrados pela operação Lava-Jato, em março do ano passado. Para a Petrobras, a queda no preço do petróleo representou, de imediato, uma perda de US$ 42 bilhões no valor de suas reservas só no pré-sal a explorar. Passou de US$ 420 bilhões para US$ 378 bilhões. A estatal tem reservas em potencial, ainda a comprovar, nos campos do pré-sal na Bacia de Santos de cerca de 42 bilhões de barris de petróleo.

No curto prazo, assim como outras empresas, a Petrobras já anunciou o pé no freio nos investimentos em 2015 por conta do petróleo baixo e dos escândalos de corrupção, que dificultam a capacidade de a estatal obter recursos no exterior. Em 2014, a previsão de investimento foi de cerca de US$ 42 bilhões.

- Não tem empresa de petróleo no mundo que não tenha redução de valor de mercado, seja pelo Brent , seja pela moeda corrente. E a Petrobras tem uma Operação Lava-Jato nas costas, e isso nos prejudica, mas cabe a nós resolver, porque Brent e câmbio são variáveis sobre as quais não temos poder - destacou recentemente a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster.

A expectativa, segundo fontes do setor, é que a Petrobras tenha de vender ativos (como campos de petróleo) para tentar reforçar seu caixa e poder, assim, se dedicar ao pré-sal.

No méxico, leilão é motivo de incertezas

A Pemex também vem sofrendo com o aumento em seu nível de endividamento. Ao fim de setembro de 2014, a estatal atingiu uma dívida total de US$ 74,1 bilhões, uma alta de 15,4% em relação a dezembro de 2013. A queda no preço do petróleo também afetou os planos do México, que adiou de maio para julho deste ano a abertura do mercado a investidores privados, depois de um monopólio estatal da Pemex desde 1938. Com a expectativa de vender 14 blocos de petróleo, há o temor de que, com a situação atual, o interesse dos investidores seja afetado.

Ao mesmo tempo, o Ministério de Finanças do México resgatou, em dezembro, US$ 3,4 bilhões da Pemex, segundo a Bloomberg News, citando que o recurso buscava "tornar a administração das finanças públicas mais eficientes". A estatal responde por cerca de um terço do orçamento federal, mas o pagamento de impostos pela Pemex caiu 22% nos primeiros 11 meses de 2014, frente a igual período de 2013, diante dos preços menores de petróleo e da queda na produção.

- O leilão do México será muito afetado, pois vai ocorrer no curto prazo, com o petróleo muito barato. Esse cenário é diferente quando se olha o Brasil, que deve fazer leilões somente no segundo semestre e, portanto, com mais tempo para os investidores esperarem algum sinal de melhora - diz o especialista Daniel Romeiro.

O subsecretário de Receita do México, Miguel Messmacher, já admitiu que pode haver menos lances que o esperado por causa da queda na cotação do petróleo. "Precisamos saber que este leilão ocorre em meio à volatilidade nos preços do petróleo no mercado internacional, o que obrigará as empresas a serem mais seletivas sobre os países e áreas que investem. Este cenário vai mostrar a força competitiva da Rodada Um, que oferece um portfólio diversificado de áreas para exploração e extração e regras de investimento claras e estáveis", disse ao "Financial Times" Pedro Joaquín Coldwell, secretário de Energia do México.

- A abertura do mercado de petróleo no México a investidores estrangeiros depois de décadas de monopólio deve resultar em um crescimento gradual dos investimentos até o fim de 2015 e 2016, apesar dos preços mais baixos - ponderou um analista da consultoria britânica Facts Global Energy (FGE).

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PDVSA e YPF são atingidas de formas diferentes  

 

BUENOS AIRES

A forte queda do preço do petróleo no mercado internacional preocupa os governos de Argentina e Venezuela, pelo impacto que os novos valores terão nas companhias YPF e Petróleos da Venezuela (PDVSA), controladas pelo Estado em ambos os países. A situação mais complicada é a da PDVSA, que, segundo o economista venezuelano José Guerra, amargará uma queda de 30% a 40% em seu faturamento.

- O caso da PDVSA é muito difícil, a companhia já enfrenta limitações financeiras graves - explicou o ex-economista-chefe do Banco Central da Venezuela.

Um dos desafios da empresa será saldar US$ 5 bilhões em dívidas em 2015.

- Além de reduzir investimentos, a PDVSA precisará fazer malabarismo para saldar suas dívidas - disse.

O Palácio Miraflores não esconde sua preocupação. Em novembro, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Rafael Ramírez, fez uma viagem de emergência a vários países que integram a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep), entre eles Argélia, Irã e Rússia, para tentar negociar um acordo sobre a redução da produção de petróleo, medida considerada essencial pelo governo venezuelano para impedir que o preço continue em queda.

- A PDVSA está se preparando para momentos difíceis no mercado internacional de petróleo - admitiu o presidente da empresa, Eulogio del Pino, que informou sobre a missão realizada pelo ministro Ramírez.

Ações da YPF despencaram

No entanto, a Venezuela ainda não conseguiu convencer os demais países da Opep, e sua situação pode ficar dramática nos próximos meses. Com uma retração no crescimento estimada em 4% em 2014 e inflação galopante, a crise da PDVSA é um novo e delicado complicador para o governo de Nicolás Maduro.

Já a argentina YPF, expropriada pelo governo Cristina Kirchner em 2012, ainda não sofreu grandes danos, apesar de suas ações terem despencado nas últimas semanas. O ex-secretário de Energia, Daniel Montamat, diz que a vantagem da companhia é que "dentro da Argentina os preços continuam altos, e nós não exportamos como a Venezuela". Cerca de 95% das exportações venezuelanas são petróleo.

- A Argentina se divorciou das referências internacionais, e hoje o preço interno do petróleo é muito superior ao internacional. O petróleo leve está a US$ 84,50, e no exterior caiu para US$ 60.

Segundo ele, a Casa Rosada não pode, neste momento, seguir os preços internacionais, porque comprometeria investimentos da YPF, principalmente nas jazidas de Vaca Muerta, na província de Mendoza, a grande aposta da empresa:

- Como o país, a YPF perdeu acesso aos mercados internacionais.

Montamat não acredita que o governo Kirchner vá mexer nos preços internos do petróleo nos próximos meses, antes das eleições de outubro. Segundo ele, este é um governo que privilegia a entrada de recursos e não as referências internacionais, e os consumidores argentinos estão subsidiando as companhias petrolíferas.