SÃO PAULO

O movimento de elevação das taxas de financiamento imobiliário feito pela Caixa Econômica Federal aproximou os juros cobrados pelo banco público das taxas dos bancos privados, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO. Agora, além de pesquisar a melhor taxa do mercado, o relacionamento que o cliente mantiver com a instituição será determinante para a obtenção de uma taxa de juro mais camarada. Mesmo assim, a margem de descontos será muito apertada, preveem os especialistas. Um desconto de um ponto percentual deve ser considerado excelente, dizem, e num financiamento de R$ 500 mil, com prazo de 30 anos, pode resultar numa economia de até R$ 124 mil.

- Os juros cobrados pela Caixa destoavam dos demais bancos. Por isso, o banco concentrava a maior parte dos financiamentos do mercado. Agora, estão alinhados com o mercado, e o relacionamento com o banco passa a ser determinante para se obter um bom desconto - diz Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac).

Alguns bancos divulgam suas taxas de referência, a partir das quais começam a negociar com os clientes. No Bradesco, elas vão de 9,2% (imóveis até R$ 750 mil) a 9,8% (acima de R$ 750 mil), com entrada mínima de 20%. No Santander, que informou que não pretende reajustar seus juros, a negociação começa em 9,1% e vai até 10%. No Banco do Brasil, as taxas vão de 9,4% a 9,6%. Na Caixa, os juros já reajustados começam em 8,5% e vão até 11%.

Outras instituições, como o Itaú Unibanco e o HSBC, não divulgam suas taxas de juros "cheias". No caso do Itaú, o cliente deve entrar no site da instituição e preencher um cadastro, informando o prazo do financiamento, o valor pretendido e informações pessoais. O próprio sistema calcula o Rating Desse cliente (a taxa de risco) e informa os juros personalizados a serem cobrados, levando em conta se ele tem plano de previdência privada ou investimentos e se é bom pagador. No HSBC, a lógica é a mesma: cada cliente tem uma taxa de juro personalizada.

O educador financeiro Reinaldo Domingos, do Instituto DSOP, observa que aos bancos interessa atar o cliente em "um relacionamento de longo prazo", seja uma previdência privada ou um financiamento de automóvel zero quilômetro. Por isso, quem tem produtos com essas características pode conseguir um desconto mais vantajoso, acredita ele. Domingos lembra que 2015 ainda será um ano de juros altos, com o mercado prevendo que a Selic chegue a 12,5% anuais até dezembro(hoje a taxa está em 11,75%). Mas a partir de 2016, com o ajuste fiscal deste ano, recolocando a economia nos trilhos, como se espera, a expectativa é que a Selic volte a cair.

- Portanto, quem puder esperar deve investir o dinheiro num fundo de renda fixa, por exemplo, e aproveitar os juros altos para engordar a entrada que vai dar no imóvel. Depois, quando a Selic cair, a expectativa é que os bancos repassem esse movimento aos empréstimos, e o cliente pode fazer o financiamento com juro um pouco menor.

Na ponta do lápis, qualquer desconto é bem-vindo. Oliveira fez a seguinte simulação: uma pessoa que financia R$ 200 mil na compra da casa em 360 meses, com taxa de 10% ao ano, pagará parcelas fixas de R$ 1.696,32. A dívida total será de R$ 610.675,20. Se conseguir derrubar a taxa de juros para 9% ao ano, no mesmo prazo, pagará parcelas de R$ 1.557,71, e a dívida total será de R$ 560.775,60.

- Nesse caso, a economia será de R$ 49.899,60, o equivalente a um carro - compara.

Se o financiamento fosse de R$ 500 mil, nas mesmas condições, a dívida cairia de R$ 1,526 milhão para R$ 1,401 milhão, diferença de R$ 124, 6 mil. Esses cálculos se basearam apenas nos juros, sem levar em conta a Taxa Referencial (TR) e o seguro, que também compõem a prestação. O seguro, aliás, é outro ponto a ser levado em conta na pesquisa, porque, muitas vezes, a vantagem do juro menor de um banco pode desaparecer, se a seguradora com a qual ele trabalha tiver preço maior. Ou seja, não basta olhar apenas os juros. É preciso fazer simulações completas nos diferentes bancos. O professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas William Eid avalia que descontos mais generosos, como de um ponto percentual, podem ser conseguidos por clientes de segmentos Private .

- Mas todo mundo pode chorar um desconto de 0,1 ponto percentual. Já faz diferença - diz.

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Oposição diz que Dilma quebrou promessas 

 

BRASÍLIA

Líderes da oposição criticaram a decisão da Caixa Econômica Federal de elevar os juros para novos financiamentos da casa própria. Para o presidente nacional do Democratas, senador José Agripino (RN), e para o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), a decisão contraria o discurso de campanha da presidente Dilma Rousseff.

- É mais um golpe em cima das promessas de campanha. A presidente está fazendo o contrário do que prometia. É mais um ato que descredencia a sua palavra - disse José Agripino.

O senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) foi ainda mais enfático:

- Está confirmada a tese de que a presidente mentiu ao povo durante a campanha. A vitória dela está baseada na mentira e na ocultação de dados.

Para o deputado Roberto Freire (PPS-SP), a medida é fruto de irresponsabilidade ao longo do primeiro mandato e pune, principalmente, trabalhadores assalariados e a classe média:

- A irresponsabilidade do governo Dilma faz com que seja necessário um ajuste. O descalabro foi grande. Agora, o ajuste que está sendo feito é perverso porque penaliza o assalariado e a classe média.

A Caixa confirmou na quinta-feira que subirá os juros dos financiamento da casa própria, conforme antecipara o GLOBO. As novas taxas, que variam de 8,5% a 11% ao ano, dependendo do valor do imóvel e das características do cliente, valem para contratos assinados a partir de segunda-feira. Foram mantidos inalterados os juros dos financiamentos do Minha Casa Minha Vida e dos empréstimos do SFH na linha de crédito do FGTS, limitados a imóveis de até R$ 190 mil.