Título: Mantega faz ameaça
Autor: Nunes, Vicente
Fonte: Correio Braziliense, 26/07/2011, Economia, p. 9

A queda livre do dólar em relação ao real fez o ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometer novas medidas para controlar o câmbio. Desde o fim de 2010, a equipe econômica tenta, sem sucesso, barrar o derretimento da moeda norte-americana com artifícios como a elevação da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras no ingresso de capital estrangeiro no país, de 2% para 6%. Ciente da pouca eficácia dessas soluções, o ministro retomou ontem a estratégia de tentar suavizar a supervalorização da divisa nacional na base do grito.

Para uma plateia de empresários em São Paulo, Mantega garantiu que o governo está atento ao fato de o dólar ter rompido o piso psicológico de R$ 1,55, o que não se via desde 19 de janeiro de 1999. ¿Continuamos olhando seriamente para o câmbio e sempre estaremos propensos a tomar medidas que impedirão uma valorização excessiva da moeda brasileira¿, afirmou. As declarações contradizem a presidente Dilma Rousseff, que, na sexta-feira, disse não haver ações imediatas sendo preparadas na área cambial.

Mantega atribuiu a dificuldade em conter a desvalorização da divisa norte-americana à situação crítica do mercado global e admitiu que a recuperação do dólar ante o real só virá quando os Estados Unidos e a Europa reequilibrarem suas economias. ¿As políticas expansivas dos países avançados nos prejudicam porque colocam muita liquidez (excesso de dinheiro disponível) no mundo. Os recursos vêm bater às portas do Brasil. É um problema que só vai se atenuar quando houver recuperação da economia (dos EUA e da Europa).¿

No entender do ministro, a crise nas potências deve se arrastar por anos e, embora considere o país sólido o bastante para resistir aos impactos, destacou que a iminência de um calote na dívida norte-americana colocará o resto do mundo em uma situação crítica. ¿A não aprovação do orçamento (dos EUA), com o aumento da possibilidade de default, é uma insensatez¿, comentou.

O ministro reconheceu, porém, que o Brasil está pagando um preço alto por problemas estruturais, como a alta carga tributária. Como há uma acirrada competição por consumidores no mundo, muitos produtos estão chegando no país bem mais baratos do que os produzidos aqui, carregados de tributos. ¿Essa questão é prioritária na minha agenda. O Brasil tem uma carga tributária grande. E nós temos de fazer um esforço para reduzi-la¿, ressaltou.

Sob controle Ao analisar a situação doméstica, o ministro disse que a inflação está sob controle, baseando-se nos resultados recentes do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). ¿O governo tomou várias medidas para conter a inflação. É uma questão de honra. O Brasil continuará empenhado no controle da alta de preços¿, prometeu.

Otimista, Mantega lembrou que os custos no atacado estão com deflação, sinal de que a alta do IPCA não passará de 6,5%. ¿O índice não vai passar o teto da meta (de 4,5% com dois pontos de tolerância) de 2011¿, disse.