Título: Pensador em forma de político
Autor: Silveira, Igor
Fonte: Correio Braziliense, 24/07/2011, Política, p. 10
perfil - Moreira Franco Titular da Secretaria de Assuntos Estratégicos, peemedebista é considerado o "filósofo" do partido. Mas ainda precisa ser recebido por Dilma
O piauiense Wellington Moreira Franco, 66 anos, é um estrategista. Fiel escudeiro do vice-presidente Michel Temer, que conhece desde os primórdios do PMDB, ele é um dos responsáveis pela manutenção da aliança com o PT, especialmente, depois que Dilma Rousseff foi escolhida para suceder Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República. Também por isso, na cota de Temer, foi indicado para comandar a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) em janeiro desse ano. De tempos em tempos, é convocado para atuar como bombeiro da tensa relação entre os dois partidos. Mesmo assim, com toda a importância que tem nos bastidores da Esplanada dos Ministérios, nunca foi recebido pela presidente em uma audiência no Palácio do Planalto. Encontros com a petista, somente em eventos públicos.
Entre os amigos, Moreira brinca com a situação. Diz que na atual circunstância, não ter um encontro particular com Dilma é uma coisa boa. "Os últimos convocados para ficarem a sós com ela foram demitidos ou levaram uma bronca daquelas", comenta. Quando a pergunta de algum jornalista periga ir para esse lado, porém, o ministro mostra-se ressentido. As respostas beiram a irritação. Na contabilidade de Dilma, entretanto, Moreira já foi recebido, individualmente.
"Não ter sido recebido por Dilma em uma audiência é um julgamento de prestígio bobo. Certamente, esse encontro acontecerá em algum momento. O importante é que Moreira Franco tem contribuições efetivas a serem dadas", comenta o ex-ministro da Integração Nacional e atual vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, Geddel Vieira Lima. "Ele foi uma figura importante para diminuir atritos entre PT e PMDB durante a campanha. Especialmente, no segundo turno", completa o baiano.
De fato, Moreira Franco teve participação efetiva na campanha presidencial do ano passado. Ele foi a companhia mais constante em viagens com Michel Temer pelo país. Nos estados, era responsável por convencer as lideranças locais da importância de manter a aliança com o PT. Falava na presença de Temer ou em nome do então candidato a vice na chapa de Dilma. Pela lealdade, teve o cargo na Esplanada bancado por Temer.
Moreira conseguiu mais. Sem apoio da bancada peemedebista no Congresso para assumir um ministério, o ex-governador do Rio de Janeiro entre 1987 e 1991 incrementou a SAE ¿ considerada por alguns somente um lugar para acomodar aliados sem mandatos ¿ com a transferência do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o "Conselhão". Esse é um órgão consultivo da Presidência formado por dezenas de representantes da sociedade civil, incluindo sindicalistas, intelectuais e empresários.
"Ele tem uma larga experiência política. Duelou com gigantes, como Leonel Brizola e passou por várias adversidades no embate político. Tudo isso deu a Moreira Franco uma paciência impressionante em momentos complicados. Sempre tem uma palavra de lucidez, de moração. Nas conversas mais próximas e diretas entre eu e Michel Temer, ele sempre está presente", conta o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN).
Vaidade Casado e pai de três filhos, Moreira Franco, normalmente, é um homem de fala calma. Durante entrevistas, costuma parar alguns segundos para pensar antes de responder. "Meus cabelos estão brancos, mas minha memória continua intacta", pondera quando é forçado a lembrar um dado mais antigo. Os encontros com Michel Temer não se limitam somente a discussões políticas. Os dois gostam de conversar sobre filmes e livros também.
Pelo menos uma vez por semana, vice-presidente e ministro marcam almoço ou jantar para trocarem ideias e impressões sobre os assuntos que estão em evidência. Como o processo de articulação política também ocorre, muitas vezes, em restaurantes, Moreira Franco está sempre preocupado com a silhueta. Às vezes, um grupo de amigos arma uma provocação com ele e, em momentos diferentes do mesmo dia, alfinetam: "Está engordando, hein, ministro?"; "O que houve com o peso"; "Essa cintura já foi mais fina, Moreira". Pronto. Isso é suficiente para tirar o piauiense do sério.
"Ele tem medo de engordar. Quer estar sempre elegante, com essas camisas sociais que trazem as iniciais do nome dele no lado esquerdo do peito", revela um parlamentar que pediu para não ser identificado. "Moreira é assim, muito vaidoso. Falou do peso, ele entra em depressão", debocha o mesmo político.
Votos e cargos O primeiro cargo eletivo assumido por Moreira Franco foi o de deputado federal pelo Rio de Janeiro, de 1975 a 1976. Depois, de 1977 a 1982, elegeu-se prefeito de Niterói, município fluminense. Cinco anos mais tarde, com o apoio de uma robusta aliança, venceu a corrida ao governo do Rio. Ficou no cargo até março de 1991. Em seguida, em 1995 ganhou mais uma vez uma cadeira na Câmara dos Deputados, onde também exerceu um mandato entre 2003 e 2006. Nesse ano, ocupou a Vice-Presidência do Fundos de Governo e Loterias da Caixa Econômica Federal, no governo Fernando Henrique Cardoso.